Livro: Mentes Perigosas - O Psicopata Mora ao Lado
Autora: Ana Beatriz Barbosa Silva
Editora: FONTANAR
Gnero: Psiquiatria/Psicologia
Pginas: 213
Numerao de pginas: rodap
Edio: 1
Acabamento: Brochura

Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado

Ana Beatriz Barbosa Silva

Como reconhecer e se proteger de pessoas frias e perversas, sem sentimento de culpa, que esto perto de ns.

FONTANAR


SUMRIO
AGRADECIMENTOS 9
INTRODUO 11
1 RAZO E SENSIBILIDADE: UM SENTIDO CHAMADO CONSCINCIA 17
2 OS PSICOPATAS: FRIOS E SEM CONSCINCIA        29
3 PESSOAS NO MNIMO SUSPEITAS        43
4 PSICOPATAS: UMA VISO MAIS DETALHADA- PARTE 1      61
5 PSICOPATAS: UMA VISO MAIS DETALHADA- PARTE 2     77
6 OS PSICOPATAS NO MUNDO PROFISSIONAL        89
7 FOI MANCHETE NOS JORNAIS        101
8 PSICOPATAS PERIGOSOS DEMAIS        123
9 MENORES PERIGOSOS DEMAIS        133
10 DE ONDE VEM ISSO TUDO?        145
11 O QUE PODEMOS FAZER?        163
12 MANUAL DE SOBREVIVNCIA        171
13 ALGUMA COISA EST FORA DA ORDEM 183

ANEXOS

A DSM-IV-TR - (301.7) 191
B CID-10 - (F60.2) 195
DSM-IV-TR - (312.8) 199
SITES TEIS 205
TELEFONES TEIS 207
BIBLIOGRAFIA 209

AGRADECIMENTOS

A Celinha, pela cumplicidade, pelo carinho, pela torcida e por ser a pessoa mais "do bem" que eu j conheci.
A Mnica Cristina dos Santos, pelo material pesquisado e pela ajuda preciosa.

A Roberta Nunes de Oliveira, Rogrio Nunes de Oliveira, Alexandre Oliveira Tavares, Anik Rebello A. Machado, Lcio Campinho, Ana Cristina H. M. Viana e Ceclia Gross, pela troca generosa de ideias e incentivos.

A Sandrinha, Susi e Miti, pelo carinho e pela parceria profissional.

Aos meus pais e minha irm, pelo amor incondicional.

A Vnia e a Gigi, por alegrarem meus dias de trabalho caseiro.

A Mirian Pirolo, por compartilhar as dvidas, as angstias e as alegrias que envolveram a realizao deste livro.

A todos aqueles que de alguma forma me ajudaram a colocar as idias no papel.

INTRODUO

O escorpio aproximou-se do sapo que estava  beira do rio. Como no sabia nadar, pediu uma carona para chegar  outra margem. Desconfiado, o sapo respondeu: "Ora, escorpio, s se eu fosse tolo demais! Voc  traioeiro, vai me picar, soltar o seu veneno e eu vou morrer."

Mesmo assim o escorpio insistiu, com o argumento lgico de que se picasse o sapo ambos morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou o escorpio em suas costas e comeou a nadar.

Ao fim da travessia, o escorpio cravou o seu ferro mortal no sapo e saltou ileso em terra firme.

Atingido pelo veneno e j comeando a afundar, o sapo desesperado quis saber o porqu de tamanha crueldade. E o escorpio respondeu friamente:

- Porque essa  a minha natureza!

Vez por outra, essa fbula surge em minha mente, seja no cotidiano profissional ou atravs do acompanhamento das notcias dirias, pelos jornais e TV. Trata-se de uma histria arquetpica, que ilustra exemplarmente a natureza das pessoas que sero analisadas e descritas, ao longo deste livro.

A idia de escrever sobre psicopatas surgiu em razo do momento violento, desumano e marcado por escndalos que nos abatem, mas tambm serve como um alerta aos desprevenidos quanto  ao destruidora desses indivduos. Devo admitir minha ousadia, mas no pude resistir s inmeras solicitaes dos meus leitores, pacientes, conhecidos e amigos.

Quando pensamos em psicopatia, logo nos vem  mente um sujeito com cara de mau, truculento, de aparncia descuidada, pinta de assassino e desvios comportamentais to bvios que poderamos reconhec-lo sem pestanejar. Isso  um grande equvoco!
Para os desavisados, reconhec-los no  uma tarefa to fcil quanto se imagina. Os psicopatas enganam e representam muitssimo bem! Seus talentos teatrais e seu poder de convencimento so to impressionantes que chegam a usar as pessoas com a nica inteno de atingir seus srdidos objetivos. Tudo isso sem qualquer aviso prvio, em grande estilo, doa a quem doer.

Mas quem so essas criaturas to nocivas? So pessoas loucas ou perturbadas? O que fazem, o que sentem? Como e onde vivem? Todos so assassinos?

Este livro discorre sobre pessoas frias, insensveis, manipuladoras, perversas, transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem conscincia e desprovidas de sentimento de compaixo, culpa ou remorso. Esses "predadores sociais" com aparncia humana esto por a, misturados conosco, incgnitos, infiltrados em todos os setores sociais. So homens, mulheres, de qualquer raa, credo ou nvel social. Trabalham, estudam, fazem carreiras, se casam, tm filhos, mas definitivamente no so como a maioria das pessoas: aquelas a quem chamaramos de "pessoas do bem".

Em casos extremos, os psicopatas matam a sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo e sem arrependimento. Porm, o que a sociedade desconhece  que os psicopatas, em sua grande maioria, no so assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns.

Eles podem arruinar empresas e famlias, provocar intrigas, destruir sonhos, mas no matam. E, exatamente por isso, permanecem por muito tempo ou at uma vida inteira sem serem descobertos ou diagnosticados. Por serem charmosos, eloquentes, 

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"inteligentes", envolventes e sedutores, no costumam levantar a menor suspeita de quem realmente so. Podemos encontr-los disfarados de religiosos, bons polticos, bons amantes, bons amigos. Visam apenas o benefcio prprio, almejam o poder e o status, engordam ilicitamente suas contas bancrias, so mentirosos contumazes, parasitas, chefes tiranos, pedfilos, lderes natos da maldade.

A realidade  contundente e cruel, entretanto, o mais impac-tante  que a maioria esmagadora est do lado de fora das grades, convivendo diariamente com todos ns. Transitam tranquilamente pelas ruas, cruzam nossos caminhos, frequentam as mesmas festas, dividem o mesmo teto, dormem na mesma cama...

Apesar de mais de vinte anos de profisso, ainda fico muito surpresa e sensibilizada com a quantidade de pacientes que me procuram com suas vidas arruinadas, totalmente em frangalhos, alvejadas por esses "seres bpedes" que sugam o nosso sangue e vampirizam a nossa alma.

 importante ressaltar que os psicopatas possuem nveis variados de gravidade: leve, moderado e severo. Os primeiros se dedicam a trapacear, aplicar golpes e pequenos roubos, mas provavelmente no "sujaro as mos de sangue" ou mataro suas vtimas. J os ltimos, botam verdadeiramente a "mo na massa", com mtodos cruis sofisticados, e sentem um enorme prazer com seus atos brutais. Mas no se iluda! Qualquer que seja o grau de gravidade, todos, invariavelmente, deixam marcas de destruio por onde passam, sem piedade.

Alm de psicopatas, eles tambm recebem as denominaes de sociopatas, personalidades anti-sociais, personalidades psicopticas, personalidades dissociais, personalidades amorais, entre outras. Embora alguns estudiosos prefiram diferenci-los, no meu entendimento esses termos se equivalem e descrevem o mesmo perfil. No entanto, por uma questo de foro ntimo e visando facilitar a compreenso, o termo psicopata ser o utilizado neste livro.

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A parte racional ou cognitiva dos psicopatas  perfeita e ntegra, por isso sabem perfeitamente o que esto fazendo. Quanto aos sentimentos, porm, so absolutamente deficitrios, pobres, ausentes de afeto e de profundidade emocional. Assim, concordo plenamente quando alguns autores dizem, de forma metafrica, que os psicopatas entendem a letra de uma cano, mas so incapazes de compreender a melodia.

Com base nessa premissa, optei por no inserir trechos de letras de canes brasileiras na abertura dos captulos, recurso narrativo que costumo adotar em minhas obras. Msica  emoo, sentida com a alma. Entendo que repetir a mesma frmula ao descrever o comportamento de criaturas desprovidas de afetividade seria, no mnimo, um contra-senso.

Aqui no me proponho, sob qualquer hiptese, a oferecer ajuda teraputica aos indivduos com esse perfil. Ao contrrio, o meu objetivo  informar o pblico em geral, para que fique de olhos e ouvidos bem abertos, despertos e prevenidos. Suas vtimas prediletas so as pessoas mais sensveis, mais puras de alma e de corao...

Tambm tenho como propsito expor parmetros para que possamos avaliar, em que escala, cada um de ns est contribuindo para promover uma cultura social na qual a psicopatia encontra um terreno frtil para prosperar.

Esta obra contm histrias reais que me foram relatadas por vtimas de psicopatas, direta ou indiretamente, e casos tratados com destaque na imprensa. No estou afirmando que os exemplos aqui citados representam autnticos psicopatas, e sim que ilustram de forma bastante didtica comportamentos que um psicopata tpico teria. Alm disso, todos os casos apresentados se prestam muito bem  exemplificao dos mais diversos nveis de psicopatia, desde os mais leves at os moderados e severos.

Dessa forma, tentei esquadrinhar e tornar o tema o mais abrangente possvel, a fim de responder a uma srie de perguntas que, na maioria das vezes, nos deixa absolutamente confusos. Assim

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espero contribuir para que as pessoas se previnam das ameaas que nos rondam de forma silenciosa. Estou convencida de que falhas em nossas organizaes familiares, educacionais e sociais so dados importantes e merecem estudos aprofundados e toda a nossa ateno, mas por si s no so suficientes para explicar o fenmeno da psicopatia.
A natureza dos psicopatas  devastadora, assustadora, e, aos poucos, a cincia comea a se aprofundar e a compreender aquilo que contradiz a prpria natureza humana.

O contedo aqui exposto  denso e intrigante. As pginas percorrem as mentes sombrias de criaturas cujas vidas parecem no ter se desenvolvido totalmente. Saber identific-las pode ser um antdoto (talvez o nico) contra seu veneno paralisante e mortal. Infelizmente a desinformao nos torna vulnerveis, indefesos como "sapos tolos", fisgados pelas habilidades camaleonicas dos "escorpies". Prepare-se, porque certamente voc conhece, j ouviu falar ou convive com um deles. Ana Beatriz Barbosa Silva.

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Qualquer histria sobre conscincia  relativa  conectividade que existe entre todas as coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente, alegramo-nos frente  natureza gentil dos a tos de amor.

Captulo 1

Razo e sensibilidade: um sentido chamado conscincia

Lembro como se fosse hoje. Fecho os olhos e l estou eu e meus colegas no anfiteatro principal do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. Aquilo que a princpio deveria ser mais uma das palestras do nosso vasto currculo do curso de medicina foi fundamental na minha vida profissional.

Era sexta-feira, nove horas da manh, e eu me encontrava sonolenta e exausta, em funo do planto que havia feito na noite anterior. Confesso que por uns dez a 15 minutos quase rezei para que o palestrante faltasse ao seu compromisso. Dessa forma, poderia ir para casa, tomar um belo banho e dormir o sono dos justos sem nenhuma pontinha de culpa.

Por volta de 9h15, um homem franzino e muito branco, que trajava uma cala jeans e um discreto bluso azul, adentrou o auditrio repleto de alunos, subiu no tablado e desenhou na lousa o seguinte grfico: [no texto original em tinta aparece um esquema de duas linhas que se cruzam e na ponta de casa uma est uma seta. Ao norte est escrito "estar" e a leste a palavra "ser"].

Em tom provocador e entusiasmado, ele entonou em voz firme e forte a seguinte questo: "O que  conscincia?".

Ainda sob o impacto daquela estranha presena, que sequer se apresentou, a turma entreolhava-se de forma discreta na

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expectativa de que algum quebrasse o silncio constrangedor que inundava o anfiteatro.

Por mais estranho que possa parecer, aquele silncio me despertou, ou melhor, toda aquela situao me intrigou de alguma forma. Senti-me desafiada pelo questionamento que aquele homem havia jogado no ar!
Rapidamente ajeitei-me na cadeira, esfreguei os olhos e impulsivamente disparei: "Bom dia, mestre, sou estudante do terceiro ano desta faculdade (UERJ) e gostaria de saber o seu nome, a sua especialidade e uma pequena explicao sobre o grfico na lousa."

Por uma frao de segundos percebi que tinha sido ligeiramente indelicada e tambm desafiadora. Quando deparei com o professor  minha frente, pude observar certo bom humor em sua fisionomia, o que foi confirmado por suas palavras: "Bom dia a todos os acadmicos aqui presentes! Meu nome  Osvaldo e sou mdico psiquiatra, professor assistente da cadeira de psiquiatria desta faculdade."

Sem pestanejar, o professor Osvaldo, dirigindo-se a mim, fez valer a lei da ao e reao: "Vejo que voc est muito interessada no tema de hoje. Ento vamos iniciar nossa aula com a sua descrio sobre a conscincia."

Naquele momento percebi que o ditado "quem est na chuva  pra se molhar" era inteiramente verdadeiro e, sem possibilidades de fuga, falei: "Professor, quando ouo a palavra conscincia dois sentimentos me vm  cabea: um de ordem prtica, ou seja, se estou acordada ou no; e outro de ordem subjetiva, que me remete ao fato de eu ter conscincia de quem eu sou e qual o meu papel no mundo."

Com um sorriso de aprovao nos lbios, o professor continuou: "Em parte voc j explicou o grfico aqui colocado. De certa forma, seu ponto de vista est correto. Mas vamos nos aprofundar um pouco mais nessas questes". Apontando para o desenho na lousa, ele prosseguiu:

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"ESTAR consciente  fazer uso da razo ou da capacidade de raciocinar e de processar os fatos que vivenciamos. ESTAR consciente  ser capaz de pensar e ter cincia das nossas aes fsicas e mentais. Na clnica mdica, podemos averiguar o estado de alerta ou lucidez que uma pessoa apresenta num determinado momento. 

Assim, podemos perceber num exame clnico o estado ou nvel de conscincia, no qual podemos encontrar as seguintes palavras: lcido, vigil, hipovigil, hipervigil, confuso, coma profundo etc. Todas elas atestam o nvel de percepo que temos em relao ao mundo.

"Algum que utilize certas doses de lcool, por exemplo, pode apresentar o seu nvel de conscincia reduzido (hipovigil) ou at mesmo atingir o estado de coma. De forma inversa, as anfe-taminas (estimulantes) - muito utilizadas em dietas de emagrecimento - costumam fazer o crebro trabalhar mais depressa, deixando as pessoas mais 'acesas', mais 'eltricas', com a fala rpida, e podem provocar insnia e muita irritabilidade. Esse estado  conhecido como hipervigilncia".

Finalmente algum falava de forma clara como deveramos iniciar um exame clnico dos nossos futuros pacientes. Entusiasmados e atentos s explicaes do professor, fizemos inmeras perguntas sobre acidentes automobilsticos, traumatismos cranianos, substncias txicas e tantas outras situaes que podem alterar nossos nveis de conscincia.
A segunda parte da aula no se tratava mais de identificar o estado ou nvel de conscincia de algum, mas sim de algo muito mais complexo. Agora a questo era "SER OU no SER".

"SER consciente no  um estado momentneo em nossa existncia, como falamos anteriormente, SER consciente refere-se  nossa maneira de existir no mundo. Est relacionado  forma como conduzimos nossas vidas e, especialmente, s ligaes emocionais que estabelecemos com as pessoas e as coisas no nosso dia-a-dia. Ser dotado de conscincia  ser capaz de amar", concluiu o professor.

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Ao soar o sinal, a maioria da turma se levantou, esvaziando o anfiteatro. Por alguns minutos, fiquei ali pensativa como se algo tivesse me atingido de forma estranha e paralisante. Vi o professor Osvaldo saindo; de longe fez um gesto discreto de despedida que, sem querer, no consegui responder. Na minha mente duas palavras ecoavam estridentes: conscincia e amor! No sabia explicar o porqu, mas naquele momento fui tomada por duas inquestionveis certezas: eu estava lcida (vigil) e experimentava uma emoo maravilhosa e transcendente de ser uma pessoa consciente.

De l para c, muitos anos se passaram, mas aquela aula - em especial a sua parte final - foi decisiva na minha vida. A partir daquele dia, exercer a psiquiatria passou a ser parte inseparvel da minha existncia. Eu tinha a conscincia de que a minha profisso seria um canal por onde emoes muito boas transitariam por toda a vida. Ser consciente  ser capaz de amar.

Como visto na aula do professor Osvaldo, o termo conscincia  ambguo, sugerindo dois significados totalmente distintos. E por isso mesmo,  compreensvel que a esta altura o leitor esteja confuso. Na realidade, a conscincia  um atributo que transita entre a razo e a sensibilidade. Popularmente falando, entre a "cabea" e o "corao".

Falar sobre conscincia pode ser uma tarefa "fcil" e "difcil" ao mesmo tempo. O "fcil" so as explicaes cientficas sobre o desenvolvimento da conscincia no crebro, que envolvem engrenagens como ateno, memria, circuitos neuronais e estruturas cerebrais, que s serviriam para confundir um pouco mais. Nada disso vem ao caso agora, pelo menos no  esse o meu propsito. Portanto, esquea! Aqui, vou considerar o lado "difcil", subjetivo e relativo ao sentido tico da existncia humana: o SER consciente.

Mostrar apreo s condutas louvveis, ser bondoso ou educado, ter um comportamento exemplar e cauteloso, preocupar-se

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com o que os outros pensam a nosso respeito nem de longe pode ser definido como conscincia de fato. Afinal, a conscincia no  um comportamento em si, nem mesmo  algo que possamos fazer ou pensar. A conscincia  algo que sentimos. Ela existe, antes de tudo, no campo da afeio ou dos afetos. Mais do que uma funo comportamental ou intelectual a conscincia pode ser definida como uma emoo.

Peo licena e vou um pouco alm. No meu entender, a conscincia  um senso de responsabilidade e generosidade baseado em vnculos emocionais, de extrema nobreza, com outras criaturas (animais, seres humanos) ou at mesmo com a humanidade e o universo como um todo.  uma espcie de entidade invisvel, que possui vida prpria e que independe da nossa razo.  a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho do bem.

A conscincia nos impulsiona a tomar decises totalmente irracionais e at mesmo com implicaes de risco  vida. Ela permeia as nossas atitudes cotidianas (como perder uma reunio de negcios porque seu filho est ardendo em febre) e at as nossas aes de extrema bravura e de auto-sacrifcio (como suportar a dor de uma tortura fsica e psicolgica em funo de um ideal). E, assim, a conscincia nos abraa e conduz pela vida afora, porque est em plena comunho com o mais poderoso combustvel afeti-vo: o amor.

De forma bem prosaica, imagine a seguinte situao:

Voc est no aconchego do seu apartamento, depois de um dia exaustivo de trabalho e reunies. Momentos depois, o interfone toca anunciando a visita inesperada de uma grande amiga. Ela est grvida de sete meses e chegou abarrotada de sacolas com as ltimas compras do enxoval. Apesar do cansao, voc fica verdadeiramente feliz com sua presena.

Por alguns momentos, vocs conversam alegremente sobre o beb, os planos para o futuro e colocam as "fofocas" em dia. L pelas tantas da noite, sua amiga diz que precisa ir embora.

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Em fraes de segundos, voc pensa: "Preciso tomar um banho e dormir, ser que ela vai entender se eu no acompanh-la at a portaria do prdio?", "Mas ela est grvida e tem tanta coisa pra carregar!", " melhor eu ir junto, no foi isso que me ensinaram".

Bom, essa tagarelice mental, que azucrina tal qual um crime cometido, sem dvidas no  imoral.  absolutamente humana, natural e foge ao nosso controle. Mas tambm no  a sua conscincia soprando no seu ouvido.

Ao contrrio do "vou ou no vou", voc  imediatamente tomado por um impulso generoso e se flagra no elevador com sua amiga, suas bolsas e sacolas. Chama um txi, abre a porta do carro, diz ao motorista para ir com cuidado e se despedem felizes.

Hum! A conscincia  assim mesmo: chega sem avisar e no complica, apenas faz!
Uma histria mais comovente:

So Paulo, domingo, novembro de 2007. Cerca de trs minutos aps ter decolado do aeroporto Campo de Marte, um Learjet 35 caiu de bico sobre uma residncia, onde moravam 14 pessoas de uma mesma famlia. No acidente morreram o piloto, o co-piloto e seis pessoas que estavam na casa. Os vizinhos Airton, de 47 anos, e seu pai, o sr. ngelo, de 75, correram para o sobrado da famlia Fernandes assim que ouviram o barulho da queda do avio. Pai e filho conseguiram salvar Cludia Fernandes, de 16 anos. Eles ouviram o choro da garota, que  autista e brincava com sua amiga Las na hora do acidente. Airton, emocionado, descalo e com a blusa suja de sangue e cinzas, lamentava ter conseguido salvar apenas uma nica vida. O sr. ngelo queimou a mo ao salvar Cludia e, aps ser atendido por mdicos no local, permaneceu na rua tentando furar o bloqueio policial para voltar aos escombros.

Sem qualquer sombra de dvidas, podemos afirmar que Airton e ngelo possuem conscincia. E naquela tarde de domingo, eles no pensaram, simplesmente agiram: 
isso  pura conscincia em exerccio.

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Todas as pessoas portadoras de conscincia se emocionam ao testemunhar ou tomar conhecimento de um ato altrusta, seja ele simples ou grandioso. Qualquer histria sobre conscincia  relativa  conectividade que existe entre todas as coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente (sem nos darmos conta), alegramo-nos frente  natureza gentil dos atos de amor.

A conscincia genuna

No decorrer da nossa histria, muitos estudos e teorias se formaram em torno da conscincia e das inevitveis polmicas sobre o "bem" e o "mal". Com o passar dos sculos, a conscincia foi e ainda  alvo de discusses entre telogos, filsofos, socilogos e, mais recentemente, desafia e intriga cientistas e juristas.

De fato, conceituar ou definir conscincia  algo extremamente complexo que pode gerar controvrsias por anos a fio. Isso porque ela est acima de teorias religiosas ou mesmo psicolgicas e cientficas.

A meu ver, ter conscincia ou ser consciente trata-se de possuir o mais sofisticado e evoludo de todos os sentidos da vida humana: o "sexto sentido". Atrevo-me a afirmar que tal sentido foi o ltimo a se desenvolver na histria evolutiva da espcie humana. Nossa humanidade, benevolncia e condescendncia devem ser atribudas a esse nobre sentido. A conscincia  criadora do significado de nossa existncia e, de forma subjetiva, tambm  criadora do significado da vida de cada um de ns. 

Ela influencia e determina o papel que cada um ter na sociedade e no universo.

Como disse anteriormente, a conscincia  to espetacular que s podemos senti-la, e talvez esteja a toda a sua grandeza. Se existe alguma coisa de divino em ns, entendo que a nossa conscincia seja essa expresso e, quem sabe, uma frao incalculvel do to falado e pouco praticado amor universal ou incondicional. 

Na verdade, esse "sexto sentido"  essencialmente baseado na compaixo e na verdadeira prtica do amor.

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Uma vez que a conscincia est profundamente alicerada em nossa habilidade de amar, em criar vnculos afetivos e nos abastecer dos mais nobres sentimentos, ela nos faz subjetiva-mente nicos, porm integrados e sincrnicos com o TODO maior e transcendente (tenha ele o nome que tiver, nos diversos povos ao redor do mundo).

A conscincia genuna nos impulsiona a ir ao encontro do outro, colocando-nos em seu lugar e entendendo a sua dor. Somos tomados por gestos simples como desejar "bom dia" queles que no conhecemos ou ligar para um amigo s para dizer: "Ol, como vai? Estou aqui para o que der e vier!"

Inundados de conscincia, pedimos desculpas sinceras queles que magoamos ou ferimos num momento de equvoco. Agradecemos aos nossos pais pela oportunidade da vida e pelos ensinamentos de retido. Vibramos e nos emocionamos frente  superao de um atleta, que derrama lgrimas ao subir no degrau mais alto do pdio.

Esse "sexto sentido"  que nos comove com as situaes trgicas e tambm com a felicidade do encontro de irmos separados desde a infncia. Ele nos traz indignao 
frente ao preconceito, ao desrespeito s regras sociais,  intolerncia ao prximo,  falta de educao,  corrupo e  impunidade.

A conscincia nos inspira a zelar pelo nosso animal de estimao e a nos desesperar pelo seu desaparecimento. Inspira-nos a chorar copiosamente com o nascimento de um filho e acompanh-lo rumo  descoberta do mundo ao seu redor. Permite-nos sentir a profundidade de uma bela melodia, apreciar a exuberncia de uma flor e exclamar: "Nossa, que linda!"

A conscincia gera movimentos de extrema grandeza pela paz e leva milhares de pessoas s ruas para protestar contra a violncia; impulsiona o sacrifcio voluntrio e incondicional de pessoas que lutam em prol da humanidade. Ela alegra nossos coraes com os primeiros raios de sol, anunciando que o dia ser

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mais colorido, e tambm com a chuva que faz brotar a plantao, garantindo o nosso "po de cada dia".

 a conscincia que nos impele a doar rgos em momentos de extrema dor e a torcer por um final feliz. Impulsiona indivduos a salvar muitas vidas, mesmo sabendo que pode ser o seu prprio fim. Leva-nos s preces, s oraes e s correntes do bem na esperana de dias melhores.

Movimenta-nos contra a seca, a fome, o desmatamento das florestas e a destruio da camada de oznio, que colocam em risco o rumo do planeta e o futuro das novas geraes. Enfim, nos pequenos ou nos grandes gestos, a conscincia genuna - e somente ela -  capaz de mudar o mundo para melhor.

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Captulo 2

Os psicopatas: frios e sem conscincia

Eles vivem entre ns, parecem fisicamente conosco, mas so desprovidos deste sentido to especial: a conscincia.
Muitos seres humanos so destitudos desse senso de responsabilidade tica, que deveria ser a base essencial de nossas relaes emocionais com os outros. Sei que  difcil de acreditar, mas algumas pessoas nunca experimentaram ou jamais experimentaro a inquietude mental, ou o menor sentimento de culpa ou remorso por desapontar, magoar, enganar ou at mesmo tirar a vida de algum.

Admitir que existem criaturas com essa natureza  quase uma rendio ao fato de que o "mal" habita entre ns, lado a lado, cara a cara. Para as pessoas que acreditam no amor e na compaixo como regras essenciais entre as relaes humanas, aceitar essa possibilidade , sem dvida, bastante perturbador. No entanto, esses indivduos verdadeiramente malficos e ardilosos utilizam "disfarces" to perfeitos que acreditamos piamente que so seres humanos como ns. Eles so verdadeiros atores da vida real, que mentem com a maior tranquilidade, como se estivessem contando a verdade mais cristalina. E, assim, conseguem deixar seus instintos maquiavlicos absolutamente imperceptveis aos nossos olhos e sentidos, a ponto de no percebermos a diferena entre aqueles que tm conscincia e aqueles que so desprovidos desse nobre atributo.

Por esse motivo,  natural que voc esteja agora se perguntando, de forma ntima e angustiada, se as pessoas com as quais convive ou que fazem parte do seu mundo so dotadas de conscincia ou no. Por isso, neste exato momento proponho um passeio virtual (mental). Pare e pense nos seus vizinhos; nos jovens nas escolas; nos trabalhadores da sua rua; nos profissionais de vrias reas; nos amigos dos seus amigos; nas mes que zelam pelos

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seus filhos; nos lderes religiosos e nos polticos de sua nao. Pare e pense agora nos seus familiares, no seu chefe, no seu subordinado. Ser que todos, sem exceo, so dotados de conscincia?

Torcemos para que SIM! Contudo, lamentavelmente, no  bem assim que a realidade se mostra. Poderamos responder a essa mesma pergunta com um vigoroso NO! Qualquer uma das pessoas mencionadas como exemplo poderia, de fato, ser desprovida de quaisquer vestgios de conscincia. Em outras palavras, elas esto absolutamente livres de constrangimentos ou julgamentos morais internos e podem fazer o quiser, de acordo com seus impulsos destrutivos.

Estamos pisando agora num terreno assustador, intrigante e desafiador: a mente perigosa dos psicopatas. Como j foi exposto na introduo deste livro, eles recebem outros nomes, tais como: sociopatas, personalidades anti-sociais, personalidades psicopticas, personalidades dissociais, entre outros. Muitos estudiosos preferem diferenci-los, com explicaes ainda subjetivas que, no meu entender, poderiam apenas confundir o leitor. Devido  falta de um consenso definitivo, a denominao dessa disfuno comportamental tem despertado acalorados debates entre muitos autores, clnicos e pesquisadores ao longo do tempo. Alguns utilizam a palavra sociopata por pensarem que fatores sociais desfavorveis sejam capazes de causar o problema. Outras correntes que acreditam que os fatores genticos, biolgicos e psicolgicos estejam envolvidos na origem do transtorno adotam o termo psicopata. Por outro lado, tambm no encontramos consenso entre instituies como a Associao de Psiquiatria Americana (DSM-IV-TR)1 e a Organizao Mundial de Sade (CID-10).2 A primeira utiliza o termo Transtorno da Personalidade Anti-social, j a segunda prefere Transtorno 
de Personalidade Dissocial.

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1 Manual Diagnstico e Estatstico de Transtornos Mentais, 4a edio - Texto Revisado. Vide Anexo A.

2 Classificao Internacional das Doenas. Vide Anexo B.

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Em face de tantas divergncias e com o intuito de facilitar o entendimento, resolvi unificar as diversas nomenclaturas e empregar apenas a palavra psicopata. Seja l como for, uma coisa  certa: todas essas terminologias definem um perfil transgressor. O que pode suscitar uma pequena diferenciao entre elas  a intensidade com a qual os sintomas se manifestam.

 importante ressaltar que o termo psicopata pode dar a falsa impresso de que se trata de indivduos loucos ou doentes mentais. A palavra psicopata literalmente significa doena da mente (do grego, psyche = mente; e pathos = doena). No entanto, em termos mdico-psiquitricos, a psicopatia no se encaixa na viso tradicional das doenas mentais. Esses indivduos no so considerados loucos, nem apresentam qualquer tipo de desorientao. Tambm no sofrem de delrios ou alucinaes (como a esquizofrenia) e tampouco apresentam intenso sofrimento mental (como a depresso ou o pnico, por exemplo).

Ao contrrio disso, seus atos criminosos no provm de mentes adoecidas, mas sim de um raciocnio frio e calculista combinado com uma total incapacidade de tratar as outras pessoas como seres humanos pensantes e com sentimentos.

Os psicopatas em geral so indivduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados, mentirosos, sedutores e que visam apenas o prprio benefcio. Eles so incapazes de estabelecer vnculos afetivos ou de se colocar no lugar do outro. So desprovidos de culpa ou remorso e, muitas vezes, revelam-se agressivos e violentos. Em maior ou menor nvel de gravidade e com formas diferentes de manifestarem os seus atos transgressores, os psicopatas so verdadeiros "predadores sociais", em cujas veias e artrias corre um sangue glido.

Os psicopatas so indivduos que podem ser encontrados em qualquer raa, cultura, sociedade, credo, sexualidade, ou nvel financeiro. Esto infiltrados em todos os meios sociais e profissionais, camuflados de executivos bem-sucedidos, lderes religiosos, trabalhadores, "pais e mes de famlia", polticos etc. Certamente,

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cada um de ns conhece ou conhecera algumas dessas pessoas durante a sua existncia. Muitos j foram manipulados por elas, alguns vivem forosamente com elas e outros tentam reparar os danos materiais e psicolgicos por elas causados.

Por isso, no se iluda! Esses indivduos charmosos e atraentes frequentemente deixam um rastro de perdas e destruio por onde passam. Sua marca principal  a impressionante falta de conscincia nas relaes interpessoais estabelecidas nos diversos ambientes do convvio humano (afetivo, profissional, familiar e social). 

O jogo deles se baseia no poder e na autopromoo s custas dos outros, e eles so capazes de atropelar tudo e todos com total egocentrismo e indiferena. Muitos passam algum tempo na priso, no entanto para a infelicidade coletiva, a grande maioria deles jamais esteve numa delegacia ou qualquer presdio. Como animais predadores, vampiros ou parasitas humanos, esses indivduos sempre sugam suas presas at o limite improvvel de uso e abuso. Na matemtica desprezvel dos psicopatas, s existe o acrscimo unilateral e predatrio, e somente eles so os beneficiados.

Cabe aqui uma breve ressalva. Todos ns dotados de conscincia podemos, em um momento qualquer da vida, magoar ou insultar o prximo; cometer injustias ou equvocos e, em casos extremos, matar algum sob forte impacto emocional. Afinal, somos humanos e nem sempre estamos com nossa conscincia funcionando a 100%: somos influenciados pelas circunstncias ou pelas necessidades.

Alm disso, vivemos numa sociedade com valores distorcidos, competitiva, de poucas referncias, que nos levam a querer tirar vantagens aqui e acol. Essas derrapagens e esses deslizes a que estamos sujeitos em nossa jornada, definitivamente, no nos tornam psicopatas. Um belo dia o senso tico nos faz refletir sobre nossas condutas, voltar atrs e rever nossos conceitos do que  certo e errado. Caso contrrio, o remorso vai nos perseguir, torturar e, dependendo da extenso, jamais nos deixar em paz. Por

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isso,  sempre bom que o leitor tenha em mente que aqui me refiro s pessoas de m ndole, que cometem suas maldades por puro prazer e diverso e sem vestgios de arrependimento. Esta ltima palavra simplesmente no existe no parco repertrio emocional dos psicopatas.

Como exemplo de uma pessoa capaz de assassinar algum, tomada por violenta emoo - e nem por isso pode ser considerada uma psicopata -, cito o caso da dona de casa Maria do Carmo Ghislotti, de 31 anos. Em fevereiro de 2006, ela matou o adolescente Robson Xavier de Andrade, de 15 anos, com uma facada no pescoo, por este ter estuprado seu filho de apenas 3 anos. Maria do Carmo e seu marido flagraram Robson cometendo o delito sexual quando ouviram o choro e os gritos no quintal da casa deles. Na Delegacia de Defesa da Mulher em So Carlos, interior de So Paulo, horas depois do estupro, Maria do Carmo se reencontrou com Robson e o atacou. 

Ao ser questionada sobre seu ato, ela declarou: "Na delegacia achei uma faquinha velha num cantinho. Coloquei na cintura. O rapazinho me falou: 'No vai dar nada, sou de menor.' Ele me olhava e dava risada. Perdi o juzo. Quando vi, j tinha feito. Ele estragou a vida do meu filho. Qual me ia aguentar?".

Maria do Carmo foi inocentada pelo jri popular, que acatou os argumentos dos advogados de defesa Hlder Clay e Arlindo Baslio. Eles alegaram que no momento do crime Maria do Carmo ainda estava sob forte abalo psicolgico, em funo da violncia praticada contra seu filho.

Fonte: Jornal O Globo, 15 de novembro de 2006.

 claro que no estou, em absoluto, defendendo que faamos justia com as prprias mos. Mas, no meu entender, essa trgica histria  perfeitamente compreensvel. Considero Maria do Carmo uma vtima que, no calor da emoo, agiu por amor ao seu filho.

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O fenmeno da psicopatia precisa ser exposto e explicitado a toda sociedade da forma como o tema  de fato: um enigma sombrio com drsticas implicaes para todas as pessoas "de bem", que lutam diariamente para a construo de uma sociedade mais justa e humana. Aps sculos de especulaes e dcadas de estudos - a maioria deles baseados na experincia dos seus autores -, esse mistrio comea a ser revelado.

Segundo o psiquiatra canadense Robert Hare, uma das maiores autoridades sobre o assunto, os psicopatas tm total cincia dos seus atos (a parte cognitiva ou racional  perfeita), ou seja, sabem perfeitamente que esto infringindo regras sociais e por que esto agindo dessa maneira. A deficincia deles (e  a que mora o perigo) est no campo dos afetos e das emoes. Assim, para eles, tanto faz ferir, maltratar ou at matar algum que atravesse o seu caminho ou os seus interesses, mesmo que esse algum faa parte de seu convvio ntimo. Esses comportamentos desprezveis so resultados de uma escolha, diga-se de passagem, exercida de forma livre e sem qualquer culpa.

A mais evidente expresso da psicopatia envolve a flagrante violao criminosa das regras sociais. Sem qualquer surpresa adicional, muitos psicopatas so assassinos violentos e cruis. No entanto, como j dito, a maioria deles est do lado de fora das grades, utilizando, sem qualquer conscincia, habilidades maquia-vlicas contra suas vtimas, que para eles funcionam apenas como trofus de competncia e inteligncia.

Reafirmo que  comum depararmos com pessoas de boa ndole (at mesmo de alto nvel intelectual e cultural) que duvidam que os psicopatas possam existir de fato. Para sanar essa dvida, basta observar a grande quantidade de pessoas mostradas na mdia diariamente: assassinos em srie, pais que matam seus filhos, filhos que matam seus pais, estupradores, ladres, golpistas, estelionatrios (os famosos "171"), gangues que ateiam fogo em pessoas, homens que espancam as esposas, criminosos de colarinho branco, executivos tiranos, empresrios e polticos corruptos, seqestradores...

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Todos os crimes cometidos por esses indivduos, de pequena ou grande monta, deixam-nos to perplexos que a nossa tendncia inicial  buscar explicaes que sejam no mnimo razoveis. E a especulamos: "Ele parecia to bom, o que ser que aconteceu?", "Ser que ele no regula muito bem, estava drogado ou perturbado?", "Ser que foi maltratado na infncia?". E, mergulhados em tantas perguntas, incorremos no erro de justificar e at entender as aes criminosas dos psicopatas.
Passe a ler os jornais sob esse novo prisma (a falta de conscincia) e voc perceber rapidamente que a extenso desse problema  amedrontadora. Convenhamos, no  chocante saber que tais comportamentos moralmente incompreensveis so exibidos por pessoas aparentemente "normais" ou comuns?

 preciso estar atento para o fato de que, ao contrrio do que se possa imaginar, existem muito mais psicopatas que no matam do que aqueles que chegam  desumanidade mxima de cometer um homicdio. Cuidado, os psicopatas que no matam no so, em absoluto, inofensivos! Eles so capazes de provocar grande impacto no cotidiano das pessoas e so igualmente insensveis. Estamos muito mais propensos e vulnerveis a perder nossas economias ao cair na lbia manipuladora de um golpista do que perder a vida pelas mos dos assassinos.

Dizem que a vida imita a arte e vice-versa. Desse ponto de vista, costumo acreditar na segunda opo: a arte imita a vida. Se observarmos bem, existem diversos filmes em que os personagens principais ou secundrios do vida, voz e ao aos diversos tipos de psicopatas, sejam eles golpistas ou estelionatrios, grandes empresrios ou polticos inescrupulosos, ou ainda os assassinos cruis e impiedosos que agem de forma repetitiva e sistemtica (os ditos serial killers).

Desde que o cinema existe, os psicopatas sempre estiveram presentes entre seus grandes personagens. Sob esse aspecto, os filmes sobre vampiros so, a meu ver, os que sempre tiveram os psicopatas como os grandes astros em cena. Assim como os

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vampiros da fico, os psicopatas esto sempre de tocaia. Nesse exato instante em que voc l este livro, eles esto agindo por a: nas ruas, em plena luz do sol, procurando suas "presas", s mesas de seus escritrios envolvidos em negociaes escusas ou mesmo sob o teto acolhedor de um lar que em instantes ser devastado. 

Eles esto por toda parte, perfeitamente disfarados de gente comum, e assim que suas necessidades internas de prazer, luxria, poder e controle se manifestarem, eles se revelaro como realmente so: feras predadoras.

Os psicopatas so os vampiros da vida real. No  exata-mente o nosso sangue que eles sugam, mas sim nossa energia emocional. Podemos consider-los autnticas criaturas das trevas. Possuem um extraordinrio poder de nos importunar e de nos hipnotizar com o objetivo maquiavlico de anestesiar nosso poder de julgamento e nossa racionalidade. Com histrias imaginrias e falsas promessas nos fazem sucumbir ao seu jogo e, totalmente entregues  sorte, perdemos nossos bens materiais ou somos dominados mental e psicologicamente.

O mais surpreendente  que, a princpio, os psicopatas aparentam ser melhores que as pessoas comuns. Mostram-se to inteligentes, talentosos e at encantadores como o prprio conde romeno que o cinema imortalizou como o Conde Drcula. Inicialmente nos despertam confiana, simpatia e acabamos por esperar mais deles do que das outras pessoas. Ilusrias expectativas! Esperamos, mas no recebemos nada positivo e, no fim das contas, amargamos srios prejuzos em diversos setores das nossas vidas.
Sem nos darmos conta, acabamos por convid-los a entrar em nossas vidas e quase sempre s percebemos o erro e o tamanho do engodo quando eles desaparecem inesperadamente, dei-xando-nos exaustos, adoecidos, com uma enorme dor de cabea, a carteira vazia, o corao destroado e, nos piores casos, vidas perdidas. Para os psicopatas, essa sucesso de fatos irresponsveis  absolutamente "normal". Afinal de contas, seduzir e atacar

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uma "presa"  seu objetivo maior, e tal qual o escorpio da fbula ilustrada na introduo do livro, essa  a sua natureza!

Apesar de todo o estrago, muitas pessoas vitimadas por eles ainda se perguntam e exclamam: "Ser que o erro foi meu ou foi dele?", "Onde foi que eu errei
para que aquela pessoa que era to boa e fascinante se transformasse num monstro sem escrpulos?". "Meu Deus, a culpa disso tudo  minha?!"

Tenha absoluta certeza: o problema so eles. So vampiros humanos ou, se preferir, predadores sociais. Eu adoraria dizer que encontr-los por a  algo raro e improvvel, mas se assim eu fizesse, estaria agindo como um deles: mentindo, omitindo a verdade e impossibilitando-o de se precaver contra suas maldades e perversidades. 

Essa diferena entre o funcionamento emocional normal e a psicopatia  to chocante que, quase instintivamente, recusamo-nos a acreditar que de fato possam existir pessoas com tal vazio de emoes. Infelizmente, essa nossa dificuldade em acreditar na magnitude dessa diferena (ter ou no ter conscincia) nos coloca permanentemente em perigo.

Moreno alto, bonito e sensual

Andra estava separada havia um ano quando conheceu Rafael numa festa. Tratava-se de um advogado comum, com roupas despojadas, jeito sedutor e com um sorriso que contagiava todo o ambiente. Seus cabelos escuros, lisos e bem tratados emolduravam o belo rosto com olhos castanhos e encantadores.

Ele se aproximou de Andra e iniciaram um papo animado como se j se conhecessem h muito tempo. Ela narrava sua ltima viagem aos Estados Unidos, onde se "refugiou" para esquecer os ltimos acontecimentos. Rafael, por sua vez, contava com riqueza de detalhes sobre a Europa e por que o Velho Mundo o fascinava tanto.        Rafael delicadamente lhe servia drinques, canaps e, vez por outra, contava piadas absolutamente engraadas que a faziam

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rir como nunca. Ele era habilidoso e performtico em narrar histrias divertidas e ela se via cada vez mais encantada com aquele homem to especial, que estava a um palmo de distncia.

Outros encontros vieram, e sempre to agradveis quanto o primeiro. Andra pensou: "Meu Deus, isso  tudo de bom! Encontrei o homem que toda mulher sonha em ter ao seu lado!" Ela estava se apaixonando novamente e deixando para trs a amargura do casamento fracassado.

Com alguns meses de namoro, Andra ainda no conhecia a casa e a famlia de Rafael. Sabia que ele morava com a me viva, que ele alegava ser uma pessoa muito difcil, possessiva e indelicada com suas namoradas. Por isso, no queria novamente que sua felicidade fosse "ladeira abaixo" com o cime doentio de sua me. Andra compreendeu.

O tempo passou e algumas atitudes de Rafael comearam a intrig-la: ao mesmo tempo em que era amvel e socivel, ele se mostrava intolerante, impulsivo e, s vezes, preconceituoso. Um dia, ao fazerem compras juntos, agarrou um garoto pelo colarinho, simplesmente porque o menino esbarrou no seu carrinho de compras. 

"Por que voc foi to agressivo com ele?", ela perguntou. "Porque no fui com a cara dele", foi a resposta. Ao sarem do supermercado, um funcionrio se ofereceu para colocar as compras no carro. Rafael o empurrou com tanta fora que por pouco o rapaz no tombou indefeso no meio da calada. Partindo com o carro, constrangida, Andra ainda ouviu o rapaz gritar: "Voc est louco? Eu s quis ajudar!"

No tocaram mais no assunto. Apesar do que aconteceu, Rafael estava calmo e dirigia com cuidado como se nada tivesse acontecido. Ligou o rdio, comprou flores pelo caminho e contou mais algumas piadas. Dessa vez ela no achou a menor graa.

Andra comentou com seus amigos sobre esses e outros episdios contraditrios, mas ningum deu muita importncia: "Ele parece ser um cara legal, deve ser apenas uma fase de estresse",

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"No fique to preocupada, todos ns temos defeitos e vocs formam um belo casal".

Dois meses depois, Rafael quis trocar de carro e convenceu Andra a emprestar suas economias. Estava prestes a receber seus honorrios e em poucos dias devolveria o dinheiro. Ela no questionou, apenas confiou e raspou sua poupana. Ele nunca mais deu sinal de vida.

Em pouco tempo, toda a verdade foi descoberta: Rafael  um impostor, um tremendo picareta! No  advogado, nunca trabalhou e jamais colocou os ps na Europa. Apesar de sua inteligncia, na fase escolar s estudava para passar aos trancos e barrancos. Seus pais adoravam cachorros, mas abriram mo desse prazer porque Rafael os maltratava e ria enquanto sua irm mais nova chorava em defesa dos ces. Havia poucos anos seu pai morrera de um enfarte fulminante e lhes deixou uma gorda penso. 

Rafael j era um homem feito e ainda apelava para o bom corao de sua me, que lhe assegurava uma boa mesada.

Andra no foi a primeira e certamente no ser a ltima pessoa do mundo a ser enganada por ele. Provavelmente Rafael jamais matar algum (isso s o tempo dir), mas continuar vivendo de golpes "baratos", aproveitando-se de mulheres fragilizadas e se divertindo com seus feitos. Com sua habilidade de ludibriar, seduzir e at assustar, sente-se superior a todos e os v como tolos. Alvos fceis. Rafael no se importa com ningum. Rafael  um psicopata.

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A piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma folha de papel em branco assinada nas mos de um psicopata. Quando sentimos pena estamos vulnerveis emocionalmente, e  essa a maior arma que os psicopatas podem usar contra ns.

Carlos Eduardo
Captulo 3

Pessoas no mnimo suspeitas

Acredito que todo mundo conhea uma pessoa meio imprestvel, movida  manivela, encostada no outro e vivendo folgadamente s custas desse. Vamos l, faa um esforo e vasculhe os "arquivos" salvos em suas pastinhas mentais. Certamente voc encontrar um amigo ou amiga, um cunhado, um parente distante, um conhecido ou, em ltima instncia, se lembrar de uma histria que lhe contaram. Essas pessoas esto sempre com desculpas esfarrapadas na ponta da lngua, justificando que os tempos esto "bicudos" e que arrumar emprego no est nada fcil. Tambm existe aquela velha histria de que a sade no anda l essas coisas, di aqui, di acol, e enfrentar o batente no vai dar. Pois , ento analise comigo esse comportamento aparentemente inofensivo e que pode ser encontrado ao nosso redor:

Maria se formou em odontologia antes de completar 22 anos e deu seu grito de independncia. Arrumou seu primeiro emprego dentro da rea que escolheu e alugou um pequeno apartamento no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, Carla, uma conhecida do interior de Santa Catarina e dois anos mais jovem, entrou em con-tato. Papo vem, papo vai, Carla perguntou se poderia passar uns tempos em sua casa, j que as chances de emprego e estudos eram bem maiores.

Maria no viu nada de mais naquele pedido. Ao contrrio, deu "a maior fora", na inteno de ajud-la. Para Maria, dar apoio a uma "amiga" era absolutamente natural e, de mais a mais, ela estava morando sozinha. O que custava acolher algum por alguns meses em sua casa? Carla chegou de mala e cuia e se acomodou no apartamento pequeno mas bem equipado.

Maria trabalhava o dia todo e estudava com afinco para dar conta do seu curso de ps-graduao que iniciara havia alguns meses. Carla ficava em casa, assistindo  TV, recebendo amigos

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e assaltando a geladeira. Se havia alguma coisa que Carla sabia fazer muito bem era conquistar pessoas e conduzir com habilidade uma conversa agradvel. Isso era um verdadeiro dom. Levava quem quisesse no "bico" e desfrutava do bom e do melhor, sem pagar absolutamente nada por isso.

Meses a fio se passaram e nada de estudos ou emprego  vista. De todas as oportunidades que surgiam, Carla dizia que no era exatamente aquilo que estava procurando. Comia, bebia, pendurava-se no telefone, ia  praia quando Deus mandava bom tempo e passeava com os amigos. Vez por outra ligava para seus pais, mentia que estava trabalhando e pedia algum dinheiro para ajudar nas despesas. Maria trabalhava, estudava, fazia as compras, chegava exausta e olhava ao seu redor: os copos sujos no mesmo lugar, as roupas espalhadas, os tocos de cigarros infestando o ambiente, as tarefas por fazer e a panela vazia.

Convenhamos: por quanto tempo voc, leitor, agentaria tamanho abuso?

O tempo passou e esse "chove no molha" se arrastou por quase um ano.  beira de um ataque de nervos, Maria conversou uma, duas e sei l quantas vezes mais para que Carla procurasse um emprego e seguisse o seu caminho. Carla ouvia tudo, abaixava a cabea e dava uma desculpa bsica: "Pensei que voc fosse minha amiga, eu no tenho pra onde ir. Voltar para casa dos meus pais  o mesmo que amargar uma derrota. No sou capaz de suportar".

A gota d'gua foi quando Carla embolsou o dinheiro do aluguel que Maria entregou em suas mos para que fizesse o favor de pag-lo na imobiliria. E l se foi sua "amiga", de mala e cuia, para a casa de uma outra conhecida, com as mesmas desculpas e o mesmo discurso. Maria sentiu descer garganta abaixo um gosto misto de alvio, tristeza e culpa.
       
Poderamos dizer que Carla  uma psicopata leve? No, por enquanto. Isso seria precipitado e imprudente. Afinal, temos

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que ter em mente a imaturidade de Carla e que esse comportamento "irresponsvel" pode ser fruto de sua prpria cultura. Em suma: uma malandragem "inocente" de uma pr-adulta perdida, que ainda coloca a mochila nas costas e acampa na casa de quem lhe oferece abrigo.

Chorando suas pitangas

Mais de 15 anos se passaram e, mesmo com esses tropeos iniciais, Maria e Carla eventualmente se encontravam. Nesse longo perodo, Maria se casou, sua profisso deslanchou e manteve uma vida estvel. Carla, por sua vez, viveu por muito tempo pulando de galho em galho (em casa de amigos, namorados), esfolando um e outro. 

Reclamava de tudo e de todos, jogava uma pessoa contra a outra e no parava nos empregos. Ela sempre tinha razo, a culpa era do outro e o mundo  que estava errado! Mas, paradoxalmente, ela era envolvente e com isso sabia explorar muito bem os bons sentimentos que despertava nas pessoas.

H alguns anos Carla mora sozinha no seu prprio apartamento, que, diga-se de passagem, foi comprado com o sacrifcio de seus pais. Maria s vezes questionava o comportamento de sua amiga, mas no meio de tantos afazeres isso tudo se dilua; apenas seu corao amolecia, cada vez que Carla chorava suas pitangas. Carla, como quem no quisesse nada, chegava de mansinho, pedia um dinheiro emprestado, usava o computador por longas horas, usufrua do seu telefone, pegava emprestado livros e CDs, aproveitava a boquinha livre, alugava o ouvido de Maria...

Certa noite, elas comemoravam o aniversrio de um amigo em comum num agradvel restaurante. Estavam todos por l: familiares e conhecidos que a vida lhes trouxe na bagagem. Carla acendeu um cigarro e baforou lentamente uma bola de nuvem branco-azulada sobre a mesa. Maria discretamente falou ao p do ouvido: "Vamos at a varanda; ao seu lado tem uma amiga grvida de cinco meses." Carla deu de ombros, olhou bem nos olhos

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de Maria e sussurrou: "Dane-se, aqui  uma rea reservada para fumantes. Esse filho no est na minha barriga e se ela o perder ser um pirralho a menos no mundo".

Maria estremeceu. A fora fria e penetrante do olhar de Carla fez com que todas as lembranas invadissem a sua mente: lem-brou-se do dinheiro do aluguel, das vezes que precisou da ajuda de sua amiga e ela nunca esteve presente, da falta de carinho com as datas importantes de sua vida, da ausncia quando permaneceu vrios dias hospitalizada, de tudo o que emprestou e nunca mais viu a cor, das mentiras e da falta de respeito por seus pais. Lembrou-se tambm do dia em que um menino caiu na sua frente e enquanto ele chorava, Carla ria e dizia "bem feito, tomara que tenha quebrado o brao". A partir de ento, Maria refletiu: "Caramba, estou alimentando um monstrengo!" Ela se levantou e no olhou mais para trs. Foi a ltima vez que Maria viu Carla...

Se analisarmos bem, Carla jamais teve considerao e afeto verdadeiros por Maria e nem por qualquer outra pessoa que lhe estendeu as mos. Ela mentiu, enganou, roubou e viveu na "aba do chapu" de todos. Recebeu muito, mas nunca deu nada em troca. Quanto aos seus pais, ela est fazendo as contas e esperando que morram para herdar o pouco que lhes resta. Agora tudo est mais claro: aquela pessoa que, por muito tempo, parecia ser frgil, injustiada e levemente desonesta, na realidade no tem conscincia.
Como saber em quem confiar?

No exerccio da minha profisso, a pergunta acima  uma das que mais ouo em meu consultrio.  natural que isso ocorra, uma vez que muitas pessoas que buscam ajuda psiquitrica ou mesmo psicolgica j foram vtimas de traumas provocados pelas aes inescrupulosas de psicopatas nos diversos setores de suas vidas. E, surpreendentemente, 
essa questo no  a mais importante para essas pessoas, que, de alguma forma, tiveram suas vidas arrasadas

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por outros seres humanos. Em geral elas tentam entender desesperadamente o que fizeram de errado, na tentativa de justificar os atos pouco ticos de seus parceiros, sejam eles cnjuges, scios, amigos, chefes, colegas de trabalho, funcionrios etc.

Meu sentimento  que a questo "em quem confiar" deveria ser de suma importncia para a maioria de ns, incluindo aqueles que no tiveram perdas ou traumas muito srios. Temos que ter em mente que as pessoas que no so merecedoras de nossa confiana no usam roupas especiais, no possuem um sinal na testa que as identifiquem, tampouco apresentam algum perfil fsico especfico. Elas so muito parecidas conosco e podem nos enganar por uma longa existncia.

Outro detalhe que dificulta muito essa anlise interna  que nos baseamos, muitas vezes, em estratgias irracionais originadas da nossa prpria cultura e que acabam por criar crendices ou ditos populares com grau elevado de senso comum: "Os homens so todos iguais, no d pra confiar", "As mulheres so sempre interesseiras", "Todo mundo  bom, at que se prove o contrrio", "Todo mundo merece uma segunda chance" etc.

No ntimo, todos ns buscamos acreditar em frmulas mgicas ou regras claras que no deixem dvidas sobre pessoas em quem podemos confiar. No entanto, a confiabilidade 
 algo subjeti-vo, no existindo um padro de atitudes que nos impea de cometer enganos ou at mesmo um teste que d legitimidade s pessoas dignas de confiana. 

Saber e aceitar esse fato  extremamente importante para que sejamos mais observadores, cautelosos e, principalmente, mais respeitosos conosco. A incerteza dessa 
condio (ser ou no ser confiavel) faz parte da natureza humana. Para ser sincera, jamais conheci algum que tenha realizado o feito extraordinrio de nunca ter sido ludibriado por algum mal-intencionado. Quando se trata de confiarmos em outra pessoa, todos ns tropeamos e cometemos falhas. Algumas, infelizmente, podem causar graves consequncias; outras nem tanto, como vimos na histria de Maria e Carla, descrita no incio do captulo.

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Voltando  pergunta inicial sobre em quem podemos confiar, tenho uma m e uma boa notcia. A m  que verdadeiramente existem pessoas que no possuem conscincia ou sentimentos nobres e, por isso mesmo, no podemos confiar nelas de maneira nenhuma. Por favor, acredite nisso!

Segundo a classificao americana de transtornos mentais (DSM-IV-TR), a prevalncia geral do transtorno da personalidade anti-social ou psicopatia  de cerca de 3% em homens e 1% em mulheres, em amostras comunitrias (aqueles que esto entre ns). Taxas de prevalncia ainda maiores esto associadas aos contextos forenses ou penitencirios. Desse percentual, uma minoria corresponderia aos psicopatas mais graves, ou seja, aqueles criminosos cruis e violentos cujos ndices de reincidncia criminal so elevados. A princpio esse percentual pode no parecer to significativo, mas imagine uma grande cidade como Rio de Janeiro ou So Paulo, por exemplo, onde milhares de pessoas se esbarram o tempo todo. A cada cem pessoas que transitam para l e para c, trs ou quatro delas esto praticando atos condenveis, em graus variveis de gravidade, ou esto indo em direo  prxima vtima. Imagine tambm o estdio do Maracan lotado numa deciso de um campeonato de futebol, onde 80 mil pessoas podem ser acomodadas: ali podem estar concentrados cerca de 3 mil psicopatas. Quando pensamos sob essa tica, as estimativas tomam propores gigantescas!

A boa notcia  que quase 96% das pessoas so consideradas possuidoras de uma base razovel de decncia e responsabilidade. Isso significa que, surpreendentemente, para um padro comportamental considerado pr-social (a favor das boas relaes), nosso mundo deveria estar aproximadamente 96% a salvo ou, pelo menos, mais humano ou consciente.

Essa boa notcia sem dvida nos alegra o corao. No entanto, deixa-nos uma sensao no mnimo estranha. Afinal, se a grande maioria da populao mundial  razoavelmente "boa", por que o mundo nos parece to assustador? Como explicar os trgicos

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noticirios que nos colocam diariamente em contato com a violncia no trnsito, a contaminao ambiental, os genocdios, os homicdios cruis, a corrupo, os atentados terroristas...?

A menos que pensemos que tais fatos sejam fruto da evoluo natural da humanidade, teremos que considerar que a mo do homem encontra-se por trs desses acontecimentos.

Defendo a ideia de que tais problemas se agravam de modo extraordinrio devido  ao dos psicopatas e de diversas outras pessoas que, sem desenvolver plenamente essa condio, adotaram uma "forma psicoptica" de se relacionar com os demais. Os psicopatas representam a minoria da populao mundial, porm so responsveis por um grande rastro de destruio. Enquanto as pessoas "do mal" se unem na busca de interesses comuns, as pessoas do bem tendem a se dissipar. Ficam acuadas, trancafiadas, perdem a sua funo social e de organizao e acabam por adoecer.

A "cultura da esperteza" tambm contribui para esse cenrio. Deixa-nos confusos e muitas vezes nos faz fraquejar na luta pelo bem. A nossa sociedade vem banalizando o mal e contribuindo para a inverso dos valores morais. Isso cria um terreno frtil para que os psicopatas se sintam  vontade no exerccio de suas habilidades destrutivas. Todas essas questes so intrigantes e acabam por nos impor uma profunda reviso dos nossos conceitos sobre a vida em sociedade. E, nessa reviso, destaco a importncia de se cultivar um valoroso senso de conscincia, pois somente ele  capaz de assegurar a nossa qualidade de vida e a do nosso planeta.

Excetuando-se raras circunstncias como surtos psicticos (presena de delrios e alucinaes), privaes severas, efeito txico de drogas, instinto de sobrevivncia ou a influncia poderosa de autoridades tiranas, todas as pessoas que possuem conscincia genuna so incapazes de matar, estuprar ou torturar outra pessoa de forma fria e calculada. Do mesmo modo, no conseguem roubar as economias de algum ou enganar de forma arbitrria seu parceiro afetivo por simples "esporte" e prazer ou, ainda, por vontade

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prpria abandonar um filho recm-nascido em plena rua. Pense bem, quem de ns conseguiria cometer tamanha barbaridade? Ao contrrio, sempre que ouvimos nos noticirios situaes parecidas, imediatamente nos questionamos sobre o porqu dessas maldades. Os comentrios do tipo "Como pode uma me abandonar seu filho na lixeira, como se fosse um objeto qualquer?", "Voc viu que crime brbaro aquele homem cometeu e, mesmo assim, no mostra arrependimento?", "Meu scio acabou com minha empresa, destruiu meu casamento e, com a maior 'cara-de-pau', diz que no teve culpa!", so muito comuns no nosso cotidiano.

Embora tais fatos nos choquem como seres humanos normais, sem qualquer sombra de dvida, as mais perversas aes que lemos nos jornais e, implicitamente, atribumos  "natureza humana" no so provenientes de uma natureza humana normal. Estaramos nos insultando ou mesmo nos desmoralizando se presumssemos que sim. 

Embora se mostre muito distante da perfeio, a natureza humana apresenta-se muito mais governada por um senso de responsabilidade e de interconectivdade. Dessa forma, os horrores a que assistimos na televiso ou, s vezes, em nossas prprias vidas, em hiptese nenhuma refletem a humanidade tpica. Tais aes s so possveis de serem realizadas por uma caracterstica que foge totalmente  nossa natureza humana genuna, e essa particularidade  a frieza e a ausncia completa de conscincia.

Paradoxalmente, as pessoas do bem (que possuem uma conscincia genuna) tendem a acreditar que todos os seres humanos so capazes de "falhas sombrias". Elas tendem a acreditar que todos ns, em situaes "bizarras", poderamos nos transformar em assassinos cruis de uma hora para outra. Essas pessoas de bom corao julgam que a teoria do lado "sombrio humano" parece algo mais democrtico, menos condenvel e, de certa forma, tambm menos alarmante. Acreditar que todos somos um pouco sombrios  mais fcil do que admitir a ideia real e perturbadora de que alguns seres humanos vivem permanentemente em uma insensibilidade moral absoluta.

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Entre tapas e beijos

Laura, uma paciente, tem 31 anos e est se recuperando de um quadro depressivo. Tanto eu quanto ela estamos nos empenhando para que sua vida seja menos cinza e volte a fazer sentido. Acompanhe um pouco de sua histria, que pode passar totalmente despercebida e certamente nunca sair nos noticirios da TV.

Aos 23 anos, no frescor de sua exuberncia e beleza, ela era inteligente e estava prestes a se formar no curso de veterinria. Nessa poca conheceu Ricardo, um jovem e atraente administrador de empresas.

Ele se mostrou um grande amigo e demonstrava os mesmos interesses de Laura: gostava de cinema, praia, esportes, aventuras, MPB e muito mais. Ricardo conversava de tudo um pouco e detalhava suas aventuras em conversas envolventes. Entre as suas histrias tambm estavam os problemas: a tirania de seu pai, a sua me histrica que na infncia o ameaou com uma faca e a sua sade frgil. "Na poca os mdicos lhe disseram que ele no teria uma vida muito longa e Ricardo me contou tudo isso com lgrimas nos olhos", acrescentou Laura.

Aos poucos, Laura foi se envolvendo com suas histrias tristes e experimentou um sentimento dbio de compaixo e atra-o. Ela sucumbiu aos seus encantos, floresceu uma grande paixo e foram morar juntos.

Ricardo tinha uma carreira promissora numa empresa multinacional, mas no quis que Laura exercesse sua profisso. Ele gostava de v-la bem vestida e bela, esperando-o para o jantar e com sua casa impecvel. "No incio eu at tentei argumentar que a veterinria era o meu grande sonho, mas acabei aceitando porque o amava verdadeiramente".

Certo dia Laura encontrou um cozinho abandonado e muito doente no meio da rua. Ela se sensibilizou e levou o cachorro para casa, a fim de tratar do animal. Ricardo teve um ataque de

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fria e quis devolv-lo para o mesmo lugar. Ela conseguiu persuadi-lo e cuidou do co como se fosse um filho. Resolveu cham-lo de Pituca. Com dois meses de tratamento e muito carinho, Pituca j esbanjava sade, vitalidade e se tornara um vira-lata branco e peludo de dar inveja a qualquer cachorro de raa.

"Que bom que ele est curado, agora podemos coloc-lo na rua", disse Ricardo. "Mas como? Eu tenho o maior amor por ele! No posso abandon-lo, isso  desumano!" Ricardo no pensou duas vezes: deu vrios pontaps no animal, colocou-o no carro e desapareceu com Pituca.

Perguntei se ela sabia para onde ele havia levado o cozinho. Aos prantos, respondeu: "Ele matou o Pituca! Disse que me amava demais e no queria me ver doente cuidando de um simples cachorro. Voc consegue imaginar o que isso significou pra mim? Como  que ele pde esperar que eu cuidasse do Pituca, nutrisse afeto por ele e depois fazer uma coisa dessas?".

Continuei indagando sobre o comportamento de Ricardo, desde a poca em que eles se conheceram. "Lembro-me de que quando namorvamos seu pai deixava alguns cheques em branco assinados para pagamentos das contas. Ricardo sempre preenchia valores muito mais altos que o necessrio e ficava com o troco. Ele nunca escondeu isso de mim. Ao contrrio, ria e comentava satisfeito que, apesar da valentia de seu pai, ele no tinha o menor controle sobre sua conta bancria", disse-me encabulada.

O relacionamento tambm sempre foi muito instvel. Ora ele era extremamente delicado, romntico e mostrava-se orgulhoso em apresentar sua bela companheira aos amigos; ora muito agressivo e temperamental, tratando-a aos berros e com ameaas de "meter-lhe a mo". Mas, segundo Laura, invariavelmente ele pedia mil desculpas e a enchia de carinhos: "Puxa vida, no sei onde estava com a cabea!", "Acho que estou muito estressado com as responsabilidades do trabalho", "Querida, voc  tudo pra mim, a mulher mais linda do mundo!", "Isso nunca mais vai acontecer,

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eu prometo", "Procure me compreender, voc sabe que eu tive uma infncia muito difcil".

E Laura prosseguiu: "Ricardo tambm era extremamente ciumento e dizia que era por amor. Ficava furioso quando qualquer homem me olhava mais diretamente. Uma vez discutiu seriamente com um rapaz porque cismou que ele estava me paquerando.  lgico que sobrou pra mim tambm. Depois disso fiquei me perguntando se a culpa realmente no foi minha. Eu no sei... Ele me deixava completamente confusa...".

Quanto ao casamento e filhos, ele alegava que ainda no estava preparado e que ambos tinham uma vida pela frente. Cada vez que Laura tocava nesse assunto, ele dava a mesma desculpa ou ficava enfurecido.

"Mesmo amando Ricardo, h alguns anos eu pensei em fazer minhas malas e ir embora. Tivemos uma conversa sria e ele me respondeu que a vida dele estava em minhas mos. Ele no iria viver muito tempo e por isso se mataria. Tremi da cabea aos ps e voltei atrs na mesma hora".

Sobre isso, questionei qual era a doena de que Ricardo sofria. "Nunca soube exatamente o que era. Ele no gostava de falar sobre isso e eu respeitava. No incio do nosso namoro, tentei conversar com sua me sobre o seu passado, mas parece que ela no entendeu muito bem o que eu queria dizer. Achei melhor no mexer num assunto to delicado e, alm disso, Ricardo parecia muito bem fisicamente. Ah... mas me lembro de que ela me disse que Ricardo no era exatamente o homem que eu merecia. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela mudou de assunto".

O tempo passou e Ricardo no precisou mais de Laura: tro-cou-a por uma mulher mais jovem e mais bonita. Ele simplesmente disse  Laura: "Precisamos nos separar. Voc  muito ciumenta e estou me sentindo enjaulado." O mundo desmoronou sobre sua cabea! "Chorei muito sem compreender o que estava acontecendo. Ser que eu fui ciumenta e possessiva esse tempo todo e no percebi? Esse era um comportamento dele e no meu!"

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De l para c, Laura descobriu que ele teve vrias amantes e que o discurso sobre sua doena grave, das ameaas de sua me e do seu pai tirano era um grande engodo. Ao comentar sobre seu passado, Ricardo derramava lgrimas de crocodilo, tal qual o animal que lacrimeja quando engole suas presas.

Eu no tinha a menor dvida: Ricardo  um homem mau, um predador afetivo. Laura foi apenas uma pea do seu jogo cruel. Anulou seus prazeres apenas para servi-lo e exibi-la impecavelmente tal qual um objeto de vitria para alimentar seus instintos egocntricos e narcisistas.

Agora eu precisava fazer Laura entender que espcie de homem era aquele com quem ela conviveu por sete anos. Era importante que Laura compreendesse que a separao, embora dolorosa, foi a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido: ela se livrou de um mal enorme e dali para a frente poderia reconstruir sua vida.

Identificando os suspeitos

Ao falar sobre as mazelas de nosso mundo, certa vez Einstein proferiu a seguinte frase: "O mundo  um lugar perigoso para se viver, no exatamente por causa das pessoas que so ms, mas por causa das pessoas que no fazem nada quanto a isso".
Se realmente quisermos fazer algo para reduzir o poder de destruio das pessoas impiedosas, antes de tudo temos que aprender a identific-las. Decidir se algum  digno de confiana requer conhec-lo muito bem por um determinado perodo de tempo, alm de tentar obter o maior nmero possvel de informaes sobre sua vida pregressa.  claro que essas informaes no devem e no podem se restringir s histrias contadas pela pessoa que voc deseja conhecer ou se relacionar. Se ela for um psicopata, provavelmente todas as suas histrias estaro "maquiadas" com o intuito de manipul-lo no preparo cuidadoso para um posterior ataque predatrio.

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A histria da vida de algum  importantssima, pois ningum perde a capacidade de ser consciente de uma hora para a outra. Por outro lado, nem sempre  fcil obtermos informaes precisas ou confiveis sobre pessoas que entram em nossas vidas. Alm disso, estamos permanentemente correndo riscos de conviver com algum por muito tempo at chegarmos  concluso de que se trata de uma pessoa sem nenhum tipo de sentimentos nobres. Na maioria das vezes, se dependermos somente da convivncia ou de informaes pouco confiveis, s nos daremos conta de que estamos diante de um psicopata quando nos depararmos com as inevitveis perdas e os incrveis danos que essas criaturas podem provocar em nossas vidas.

Nos prximos captulos tentarei esmiuar o mximo possvel todas as facetas dos psicopatas. Mas antes de chegarmos a essa etapa mais clnica sobre o comportamento dessas criaturas malficas, gostaria de compartilhar com voc, leitor, uma dica que julgo ser bastante preciosa: fique muito atento ao "jogo da pena" (do coitadinho).

Durante todos esses anos de exerccio profissional, ouvi muitas histrias sobre psicopatia. Meus pacientes relataram (e at hoje o fazem) como essas criaturas invadiram, feriram e arruinaram as suas vidas. Em cada caso foi possvel identificar comportamentos suspeitos; uns mais caractersticos, outros menos. Tudo varia muito de caso para caso, no entanto, em todos, precisamente em todos, pude identificar "o jogo da pena". A meu ver, esse  um dos recursos mais comuns e constantes das pessoas inescrupu-losas. Muito mais que apelar para o nosso sentimento de medo, os psicopatas, de forma extremamente perversa, apelam para a nossa capacidade de sermos solidrios. Eles se utilizam de nossos sentimentos mais nobres para nos dominar e controlar. Os psicopatas se alimentam e se tornam poderosos quando conseguem nos despertar piedade. Esse tipo de alimento para essas criaturas tem efeito extraordinrio de poder tal qual o espinafre para o personagem de Popeye dos desenhos infantis.

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A piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma folha de papel em branco assinada nas mos de um psicopata. Quando sentimos pena, estamos vulnerveis emocionalmente, e  essa a maior arma que os psicopatas podem usar contra ns!

A piedade, a compaixo e a solidariedade so foras para o bem quando direcionadas s pessoas que de fato merecem e precisam de tais sentimentos. No entanto, quando esses mesmos sentimentos so direcionados a pessoas que apresentam comportamentos inescrupulosos de forma consistente e repetitiva, temos que considerar isso como um aviso de que algo est muito errado.  um sinal de alarme que no podemos ignorar.

Se voltarmos  primeira histria deste captulo, observaremos que Carla se utilizou o tempo todo do "jogo da pena" com sua amiga Maria, mesmo no sendo nada camarada. Quanto a Ricardo, no foi diferente: Laura se envolveu e se apaixonou porque, a princpio, compadeceu-se da sua dor (infncia difcil e famlia desestruturada) e posteriormente com as suas falsas ameaas de suicdio. No entanto, nem Carla e tampouco Ricardo nutriam sentimentos bons por ningum ou demonstraram sinal de arrependimento verdadeiro. Fizeram um apelo cruel  solidariedade das pessoas do seu convvio, deixando-as confusas e inseguras. E  importante que se diga que quando nos sentimos inseguros, as pessoas de mau carter podem fazer conosco o que bem quiserem.

Exemplo parecido com a situao de Laura e de seu truculento parceiro Ricardo pode ser observado naquela mulher que com frequncia apresenta hematomas porque seu marido a espanca quase que diariamente. No entanto, ele sempre apela que a perdoe, pois seus "descontroles" so reflexos do excesso de amor que ele sente por ela. Alm disso, ela deve entender a sua grande dificuldade em expressar carinho e afeto devido s "surras" que levava do seu pai alcolatra e que tambm espancava sua me!

No caia nessa cilada! Todas essas so histrias com mero intuito manipulatrio. Os psicopatas no levam em considerao

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as regras sociais, mas sabem muito bem como utiliz-las a seu favor, alm de se divertirem e sentirem prazer com o nosso sofrimento.

Ento no se esquea:
Quanto tiver que decidir em quem confiar, tenha em mente que a combinao consistente de aes maldosas com frequentes jogos cnicos por sua piedade praticamente equivale a uma placa de aviso luminosa plantada na testa de uma pessoa sem conscincia. Pessoas cujos comportamentos renam essas duas caractersticas no so necessariamente assassinas em srie ou nem mesmo violentas. No entanto, no so indivduos com quem voc deva ter amizade, relacionamentos afetivos, dividir segredos, confiar seus bens, seus negcios, seus filhos e nem sequer oferecer abrigo!

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CAPTULO 4

PSICOPATAS: UMA VISO MAIS DETALHADA - PARTE 1

Um grande e limitante problema em realizar pesquisas sobre os psicopatas  que elas, em geral, s podem ser feitas em penitencirias e isso  perfeitamente compreensvel, afinal  muito difcil um psicopata "subcriminal", ou seja, aquele que nunca foi preso ou internado em instituies psiquitricas, falar espontaneamente sobre seus atos ilcitos. Na grande maioria das vezes, eles no possuem nenhum interesse em revelar algo significativo para os pesquisadores ou mesmo para os funcionrios do presdio e quando o fazem tentam manipular a verdade somente para obter vantagens, como a reduo da pena por "bom comportamento" e "colaboraes de cunho social".

O primeiro estudo sobre psicopatas s foi publicado em 1941, com o livro The Mask of Sanity (A Mscara da Sanidade), de autoria do psiquiatra americano Hervey Cleckley. Na introduo do livro, Cleckley deixa claro que sua obra aborda um problema "muito conhecido, mas ao mesmo tempo ignorado pela sociedade como um todo".

Ele cita diversos casos de pacientes que apresentavam um charme acima da mdia, uma capacidade de convencimento muito alta e ausncia de remorso ou arrependimento em relao s suas atitudes.

Com base nos estudos de Cleckley, o psiquiatra canadense Robert Hare (professor da University of British Columbia) dedicou anos de sua vida profissional reunindo caractersticas comuns de pessoas com esse tipo de perfil, at conseguir montar, em 1991, um sofisticado questionrio denominado escala Hare e que hoje se constitui no mtodo mais confivel na identificao de psicopatas.

Com esse instrumento, o diagnstico da psicopatia ganhou uma ferramenta altamente confivel que pode ser aplicada por qualquer profissional da rea de sade mental, desde que esteja bastante familiarizado e treinado para sua aplicabilidade. A escala Hare tambm recebe o nome de psychopathy checklist, ou PCL, e

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sua aceitao e relevncia tm levado diversos pases de todo o mundo a utiliz-la como um instrumento de grande valor no combate  violncia e na melhoria tica da sociedade.

O PCL examina de forma detalhada diversos aspectos da personalidade psicoptica, desde os ligados aos sentimentos e relacionamentos interpessoais at o estilo de vida dos psicopatas e seus comportamentos evidentemente anti-sociais (transgressores).

Ateno! O PCL  uma complexa ferramenta cuja utilizao clnica somente deve ser feita por profissionais ou servios qualificados. O que me proponho a apresentar neste e no prximo captulo so apenas as caractersticas-chave que sinalizam o perfil psicoptico, com exemplificaes prticas e de fcil entendimento. A simples identificao de alguns sintomas no so suficientes para a realizao do diagnstico da psicopatia. Muitas pessoas podem ser sedutoras, impulsivas, pouco afetivas ou at mesmo terem cometido atos ilegais, mas nem por isso so psicopatas.

Aspectos ligados aos sentimentos e relacionamentos interpessoais Superficialidade e eloqncia

Os psicopatas costumam ser espirituosos e muito bem articulados, tornando uma conversa divertida e agradvel. Geralmente contam histrias inusitadas, mas convincentes em diversos aspectos, nas quais eles so sempre os mocinhos. No economizam charme nem recursos que os tornem mais atraentes no exerccio de suas mentiras. 

Para algumas pessoas, eles se mostram suaves e sutis, tal como os gals da TV e do cinema.

Quando no temos conhecimento sobre a personalidade dos psicopatas podemos ser enrolados por suas histrias improvveis. Entre outras razes, isso ocorre pela habilidade dos psicopatas em se informarem sobre os mais diversos assuntos. Se forem realmente testados por verdadeiros especialistas no assunto,

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revelam, porm, suas superficialidades de contedo. Eles tentam demonstrar conhecimento em diversas reas como filosofia, arte, literatura, sociologia, poesia, medicina, psiquiatria, psicologia, administrao, legislao e usam e abusam dos termos tcnicos, passando credibilidade aos menos avisados.

Outro sinal muito caracterstico desse comportamento  a total falta de preocupao ou constrangimento que esses psicopatas apresentam ao serem desmascarados como farsantes. No demonstram a menor vergonha caso sejam flagrados em suas mentiras. Ao contrrio, podem mudar de assunto com a maior tranquilidade ou dar uma resposta totalmente fora do contexto. Esses tipos de psicopata so muito comuns no mercado de trabalho como um todo, que fingem ser profissionais qualificados, sem nunca terem colocado os ps numa faculdade.

Lembra a histria de Rafael descrita no final do segundo captulo do livro? Como vimos, ele facilmente conseguiu conquistar Andra com suas piadas interessantes e tambm quando descreveu com detalhes suas viagens  Europa. Mas na realidade tudo o que Rafael sabia sobre o Velho Continente era informao adquirida atravs da internet, dos livros ou dos documentrios da TV. At mesmo para "posar" de advogado, Rafael precisou lanar mo de vocabulrios e expresses pertinentes a essa profisso. Em suma: Rafael conversava de tudo um pouco e se sentia um sabicho, porm no tinha profundidade em nada. Ele apenas "passeava" sobre vrios assuntos, o suficiente para embromar suas vtimas e conseguir o que desejava. Rafael era um profissional da lorota.
Egocentrismo e megalomania.

Os psicopatas possuem uma viso narcisista e supervalori-zada de seus valores e importncia. Eles se vem como o centro do universo e tudo deve girar em torno deles. Pensam e se descrevem como pessoas superiores aos outros, e essa superioridade  to grande que lhes d o direito de viverem de acordo com suas prprias

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regras. Para os psicopatas, matar, roubar, estuprar, fraudar etc. no  nada grave. Embora eles saibam que esto violando os direitos bsicos dos outros, por escolha, reconhecem somente as suas prprias regras e leis. Alm disso, so extremamente hbeis em culpar as outras pessoas por seus atos, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Para eles, a culpa sempre  dos outros.
Esse egocentrismo e essa megalomania, muitas vezes, fazem com que eles sejam vistos como arrogantes, metidos e autoconfiantes. Tm mania de grandeza, fascnio pelo poder e pelo controle sobre os outros.

Os psicopatas no sentem qualquer embarao sobre dvidas contradas, pendncias financeiras ou mesmo problemas de ordem legal ou pessoal (brigas, espancamento de namoradas). De forma indiferente, eles encaram todos os problemas que estejam vivenciando apenas como transitrios, falta de sorte, infidelidade de amigos ou que so derivados de um sistema econmico e social injusto coordenado por pessoas incompetentes.

Devido ao seu egocentrismo e a sua megalomania, os psicopatas demonstram notvel falta de interesse por uma educao direcionada a uma carreira ou qualificao especficas. Isso porque julgam possurem habilidades diversas e excepcionais que permitiro que eles se tornem o que quiserem ser na vida. Os psicopatas empreendedores sempre pensam grande e costumam arriscar alto, mas toda vez que isso ocorre, pode ter certeza de que o dinheiro arriscado  de outra pessoa, ou melhor, de mais uma de suas vtimas.

Isabela nasceu em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Desde pequena apresentava uma beleza incomum que chamava a ateno de todos. Aos 16 anos, foi chamada para ser modelo e iniciou uma carreira de sucesso que a levou aos 19 anos para Nova York. L, Isabela conheceu Miguel, brasileiro e modelo como ela. Miguel era de fato muito bonito, no entanto o que mais a atraiu foi o seu jeito cativante, simples e espontneo. Em pouco tempo, Isabela

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chamou Miguel para morar em seu apartamento. Ela gostava da sua companhia, entendiam-se bem na cama e ele demonstrava ser um cara muito legal.

A convivncia, contudo, comeou a revelar que Miguel tinha um ego um pouco avantajado. Falava muito, mas somente sobre si mesmo. Sobre seus projetos, suas preferncias, sua carreira, seus talentos, seus dotes fsicos, seu charme e suas fs. Pelas coisas de Isabela, ele no demonstrava qualquer interesse. Nas poucas vezes em que ela reclamava com Miguel sobre o seu egocentrismo, ele se justificava dizendo que precisava se valorizar, pois sua famlia sempre o subestimou.

Isabela, ento, tentava compreender Miguel, mas ele sempre voltava a agir da mesma forma. S usava roupas de grife, mesmo que isso custasse o seu salrio inteiro. Limitava-se a dizer que quando fechasse um grande contrato de publicidade iria restituir  Isabela todo o dinheiro que ela estava utilizando para manter a casa e os prazeres deles (restaurantes, teatros, shows e viagens).

Aps um ano dessa convivncia ntima, Isabela j estava cansada de ouvi-lo falar sobre sua prpria beleza, sua superioridade profissional, os "megacontratos" que estavam prestes a ser assinados e os milhes de dlares que pretendia gastar com roupas e jias. Quando Isabela perguntava sobre suas dvidas, seus ttulos protestados e seus crditos cancelados, ele dizia que tudo passaria em breve e que todos aqueles problemas se deviam  falta de sorte, muita inveja e  traio de seus colegas de trabalho.
A gota d'gua para Isabela foi quando, aps um desfile, ela sentiu uma forte dor no abdmen e desmaiou. Foi levada ao servio de emergncia de um hospital, onde diagnosticaram apendicite aguda. Em poucas horas foi submetida a uma interveno cirrgica e permaneceu hospitalizada por trs dias. Miguel telefonou e disse que no poderia v-la, em funo de um grande trabalho, mas prometeu peg-la em sua alta.

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Isabela recebeu alta s 11 h de uma sexta-feira e aguardou Miguel at as 14h15, quando resolveu pegar um txi, com a ajuda de uma das enfermeiras do hospital. Ao chegar em casa, amparada pelo porteiro do prdio, Isabela deu "de cara" com Miguel assistindo tranquilamente a um filme no DVD. Ao notar a presena dela, ele se limitou a dizer: "Voc precisa ver esse filme. O ator principal se parece muito comigo!".

Isabela no chegou a ver o filme, mas assim que se recuperou totalmente da cirurgia terminou a relao com Miguel e aceitou um convite, de fato irrecusvel, para trabalhar em Milo. A ltima notcia que ela teve de Miguel  que se tornou um ator de filme porn.

Ausncia de sentimento de culpa

Os psicopatas mostram uma total e impressionante ausncia de culpa sobre os efeitos devastadores que suas atitudes provocam nas outras pessoas. Os mais graves chegam a ser sinceros sobre esse assunto: dizem que no possuem sentimento de culpa, que no lamentam pelo sofrimento que eles causaram em outras pessoas e que no conseguem ver nenhuma razo para se preocuparem com isso. Na cabea dos psicopatas, o que est feito, est feito, e a culpa no passa de uma iluso utilizada pelo sistema para controlar as pessoas. Diga-se de passagem, eles (os psicopatas) sabem utilizar a culpa contra as pessoas "do bem" e a favor deles com uma maestria impressionante.

Os psicopatas so capazes de verbalizar remorso (da boca pra fora), mas suas aes so capazes de contradiz-los rapidamente. Uma das primeiras coisas que os psicopatas aprendem  a importncia da palavra remorso e como devem elaborar um bom discurso para demonstrar esse sentimento. Com essa habilidade de racionalizar (criar razes para) seus comportamentos, os psicopatas se isentam de responsabilidade em relao s suas atitudes. Inventam "desculpas elaboradas" capazes de mexer profundamente

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com os sentimentos nobres de pessoas de bom corao, as quais eventualmente podem vir a sentir pena dessas criaturas to maquiavlicas.

Pedro Rodrigo Filho, o "Pedrinho Matador",  um serial killer que afirma com orgulho ter matado mais de 100 pessoas, inclusive seu prprio pai. Na Penitenciria do Estado, em So Paulo, ele  temido e respeitado pela comunidade carcerria. A primeira vez que matou, Pedrinho tinha apenas 14 anos e nunca mais parou. Com vrios crimes nas costas, Pedro Rodrigo foi preso aos 18 anos, em 1973, e continuou matando dentro da prpria priso. Ele  considerado o maior homicida da histria do sistema prisional e diz que s na cadeia j matou 47 pessoas. Mata sem misericrdia quem atravessa o seu caminho ou simplesmente porque no vai com a cara do sujeito.
Pedrinho sabe que matar  errado, mas justifica seus atos como algo que vem de famlia: pais e avs tambm foram matadores. Para "Pedrinho Matador", tirar a vida de algum  somente mais um trabalho bem-sucedido. E para que ningum se esquea do que  capaz, tatuou no brao a frase "Mato por prazer".

 Fontes: Revista poca, ed. 259, Ed. Globo, 5/5/2003; Revista Cincia Criminal, Especial Mentes Criminosas, Ed. Segmento, 2007. 

Ausncia de empatia

Empatia  a capacidade de considerar e respeitar os sentimentos alheios.  a habilidade de se colocar no lugar do outro, ou seja, vivenciar o que a outra pessoa sentiria caso estivssemos na situao e circunstncia experimentadas por ela. Somente pela definio do que  empatia, j fica claro que esse no  um sentimento capaz de ser experimentado por um psicopata. Para os psicopatas, as outras pessoas so meros objetos ou coisas, que

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devem ser usados sempre que necessrios para a satisfao do seu bel-prazer. Os psicopatas zombam dos mais sensveis e generosos. Para eles, essas pessoas no passam
de uma gente fraca e vulnervel e, por isso mesmo, so seus alvos preferidos.

A falta de empatia apresentada pelos psicopatas  geral. Eles so indiferentes aos direitos e sofrimentos de seus familiares e de estranhos do mesmo modo. Caso demonstrem possuir laos mais estreitos com alguns membros de sua famlia (esposa, filhos), certamente  peio sentimento de possessividade e no pelo amor genuno.

No se esquea: psicopatas so incapazes de amar, eles no possuem a conscincia genuna que caracteriza a espcie humana. Os psicopatas gostam de possuir coisas e pessoas, logo,  com esse sentimento de posse que eles se relacionam com o mundo e com as pessoas. Em razo dessa incapacidade em considerar os sentimentos alheios, os psicopatas mais graves so capazes de cometer atos que, aos olhos de qualquer ser humano comum, no s seriam considerados horripilantes, mas tambm inimaginveis. Esses psicopatas graves so capazes de torturar e mutilar suas vtimas com a mesma sensao de quem fatia um suculento fil-mignon. Felizmente os psicopatas graves so a minoria entre todos os psicopatas. Nos chamados leves e moderados, a indiferena em relao aos outros tambm est presente, porm ela emerge de forma menos intensa, mas ainda devastadora para a vida das vtimas e da sociedade como um todo.

Elvira, me de trs filhos, sempre teve muito trabalho com Antnio, seu filho mais velho. Ele foi o seu primeiro filho e tambm o primeiro neto de seus pais. A me de Elvira faleceu quando Antnio ainda tinha meses de idade e, na ocasio, Arthur, o pai de Elvira, foi morar com ela. Arthur sempre foi um av muito dedicado e tratava Antnio como se fosse o filho que ele no teve. Ele no conseguia admitir que Antnio fosse diferente das demais crianas. Desde cedo ele se mostrava agressivo, 
indiferente, maltratava os

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animais que o av lhe dava e sempre mentia para obter vantagens em relao aos irmos e colegas.

Aos 23 anos, Antnio no trabalhava e vivia folgadamente da mesada do av. Elvira e seu esposo no concordavam com essa rebeldia de Antnio e tambm com os mimos de Arthur. Mas o av sempre preferiu agrad-lo para que no ficasse mais revoltado ou tivesse rompantes de fria.

Quando Arthur adoeceu, vitimado por um derrame cerebral, precisou ficar internado no CTI por quatro meses, at falecer. Durante todo esse perodo, Antnio nunca visitou o av no hospital e sequer perguntava sobre o seu estado de sade. Elvira estava em casa preparando o almoo, quando recebeu a notcia sobre a morte de seu pai. Ela sentou e comeou a chorar compulsivamente. Antnio viu a cena e se limitou a dizer: "Me, pra de chorar e anda logo que eu t com pressa. No  porque o vov morreu que a senhora vai deixar de me servir o almoo".

Mentiras, trapaas e manipulao

Antes de qualquer coisa, temos que considerar que todo mundo mente, uns mais, outros menos. O filsofo e psiclogo americano David Livingstone Smith afirma que a mentira "branca"  normal e at necessria. Em seu livro Por que Mentimos, Smith descreve que todos ns mentimos de forma consciente ou inconsciente, verbal ou no-verbal, declarada ou no-declarada. Segregamos o "engano" no somente atravs de palavras como tambm pelos nossos corpos (um sorriso falso, por exemplo).

A mentira  um ato espontneo que permeia todos os setores da nossa vida, seja para no magoarmos uma pessoa querida, como forma de "boas maneiras", ou at mesmo para desfrutarmos de alguns ganhos. A no ser em situaes de extrema necessidade, as pessoas comuns e decentes mentem somente de forma ocasional, sem maiores consequncias, ato perfeitamente justificvel sob o ponto de vista moral.

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Temos que distinguir, porm, a mentira corriqueira da mentira psicoptica. Os psicopatas so mentirosos contumazes, mentem com competncia (de forma fria e calculada), olhando nos olhos das pessoas. So to habilidosos na arte de mentir que, muitas vezes, podem enganar at mesmo os profissionais mais experientes do comportamento humano. Para os psicopatas, a mentira  como se fosse um instrumento de trabalho, que  utilizado de forma sistemtica e motivo de grande orgulho.

Flvio Josef, professor do instituto de psiquiatria da UFRJ que participou de uma matria no Jornal do Brasil no dia 3 de setembro de 2006, declarou que ao perguntar a um psicopata se era fcil enganar algum, o sujeito respondeu com enorme felicidade: " moleza".

Mentir, trapacear e manipular so talentos inatos dos psicopatas. Com uma imaginao frtil e focada sempre em si prprios, os psicopatas tambm apresentam uma surpreendente indiferena  possibilidade de serem descobertos em suas farsas. Se forem flagrados mentindo, raramente ficam envergonhados, constrangidos ou perplexos; 
apenas mudam de assunto ou tentam refazer a histria inventada para que ela parea mais verossmil.

Eles se gabam pelas suas habilidades em mentir e podem faz-lo sem qualquer justificativa ou motivo. Essa habilidade, muitas vezes,  potencializada pela facilidade de associarem a linguagem verbal  corporal (gestos e expresses) na elaborao de suas mentiras, dando um apelo teatral s mesmas. Nesse cenrio de enganao, os psicopatas so, ao mesmo tempo, roteiristas, atores e diretores de suas histrias improvveis.

 muito importante tambm destacar outro recurso utilizado por essas criaturas na "arte" da mentira. Alguns psicopatas "mais experientes" so to especialmente hbeis em mentir que se utilizam de pequenas verdades para ganharem credibilidade em seus discursos. A coisa funciona mais ou menos assim: eles admitem alguns deslizes que cometeram de fato, apenas para que as pessoas "de bem" se confundam e pensem da seguinte maneira: "Sejamos

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razoveis, se fulano' est admitindo seus erros, e bem provvel que ele esteja falando a verdade sobre as demais histrias." Por isso  preciso muita observao, conhecimento de sua vida passada e um pouco de distanciamento emocional para no se deixar enganar com facilidade por um psicopata.

Em 1995, no Museu Nacional de Belas Artes, no centro do Rio do Janeiro, houve uma exposio do escultor francs Auguste Rodin, que atraiu grande pblico para a visitao. As filas de entrada, principalmente nos ltimos dias, eram enormes e lotavam as ruas mais prximas ao museu, fazendo o pblico esperar por longas horas.

Csar, querendo ver  exposio e sem a menor vontade de permanecer na fila, no titubeou: sem qualquer constrangimento ou embarao, paramentou-se de culos escuros, uma bengala na mo e fingiu-se de cego, conferindo-lhe o direito de entrar na frente de todos. No interior do museu, ele teve um guia exclusivo  sua disposio, que o conduziu por todas as obras e sales da exposio. Enquanto o guia cuidadosamente descrevia com detalhes a histria de cada obra de arte, Csar ainda pde, por tempo indeterminado, tocar as esculturas, alm de v-las ( claro) sem que os outros percebessem.

s gargalhadas e tomado por uma soberba absoluta, Csar contou essa histria aos amigos, vangloriando-se de como foi fcil enganar os organizadores do evento e obter um tratamento VIR Relatou com deboche, descaso e prazer que todos no passavam de uns otrios: desde os responsveis pela exposio e seu guia at a multido que esperava por sua vez do lado de fora.

Pobreza de emoes

Os psicopatas apresentam uma espcie de "pobreza emocional" que pode ser evidenciada pela limitada variedade e intensidade de seus sentimentos. So incapazes de sentir certos tipos

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de sentimento como o amor, a compaixo e o respeito pelo outro. Por vezes podem nos confundir ao apresentarem episdios emocionais dramticos, fteis e de curta durao. No entanto, se observarmos com mais cautela, constataremos que esses episdios no passam de pura encenao.

Muitas vezes, os psicopatas querem convencer as pessoas de que so capazes de vivenciar fortes emoes, porm eles sequer sabem diferenciar as nuances existentes entre elas. Confundem amor com pura excitao sexual, tristeza com frustrao e raiva com irritabilidade.

Muitos psiquiatras afirmam que as emoes dos psicopatas so to superficiais que podem ser consideradas algo bem similar ao que denominam de "proto-emoes" (respostas primitivas s necessidades imediatas).

Para a grande maioria das pessoas, o medo est associado a uma variedade de sensaes fsicas desagradveis, tais como suor nas mos, corao acelerado, boca seca, tenso muscular, tremores e at nuseas e vmitos. Porm, para os psicopatas essas sensaes fsicas no fazem parte do que eles experimentam como medo. Para eles o medo, como a maioria das emoes,  algo incompleto, superficial, cognitivo por natureza (apenas um conceito de linguagem) e no est associado a alteraes corporais.

Alguns presidirios identificados como psicopatas foram submetidos  visualizao de cenas de contedo chocante. Esse conjunto de imagens editadas mostrava, entre outras coisas, corpos decapitados, torturas com eletrochoques, crianas esqulidas com moscas nos olhos e gritos de desespero. Enquanto as pessoas comuns s de imaginar tais situaes ficariam arrepiadas e com reaes fsicas de medo, esses psicopatas no apresentaram sequer variao de seus batimentos cardacos.

O neuropsiquiatra Ricardo de Oliveira-Souza e o neurorra-diologista Jorge Moll desenvolveram um teste denominado Bateria de Emoes Morais (BEM), que utiliza tecnologia de Ressonncia Magntica funcional (RMf). Esse teste tem por objetivo verificar

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como o crebro dos indivduos se comporta ao fazerem julgamentos morais, que envolvem emoes sociais positivas, como arrependimento, culpa e compaixo. De forma diversa das emoes primrias - como o medo ou a raiva que compartilhamos com os animais -, as emoes sociais positivas so mais sofisticadas e exclusivas da espcie humana: so elas que orquestram relaes interpessoais harmnicas.

Os resultados desse estudo demonstraram que, diferentemente das pessoas comuns, os psicopatas apresentam atividade cerebral reduzida nas estruturas relacionadas s emoes em geral. Em contrapartida, revelaram aumento de atividade nas regies responsveis pela cognio (capacidade de racionalizar). Assim, pde-se concluir que os psicopatas so muito mais racionais do que emocionais.

Voltando ao medo:  uma emoo primria (inata) e necessria para a nossa sobrevivncia. Alm disso, ele tambm nos impede de tomar certas atitudes das quais poderamos nos arrepender ou ainda pode nos favorecer a agir de forma correta pelo temor das consequncias futuras. Seja de uma forma ou outra (impedindo ou estimulando comportamentos), o medo  capaz de despertar na grande maioria das pessoas o que chamamos de "conscincia emocional" das consequncias de nossos atos. Se considerarmos que os psicopatas no possuem essa emoo, eles simplesmente seguem os seus caminhos, fazem suas escolhas e agem como bem entendem.  importante frisar que eles sempre sabem qual a consequncia das suas atitudes transgressoras, no entanto, no do a mnima importncia para isso.

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Um psicopata, quando "perde o controle", sabe exatamente at onde ele quer ir, no sentido de magoar, amedrontar ou machucar uma pessoa.


CAPITULO 5
PSICOPATAS: UMA VISO MAIS DETALHADA - PARTE 2

No captulo anterior destaquei as caractersticas referentes aos sentimentos e relacionamentos interpessoais dos psicopatas. Aqui, o objetivo  focar e descrever os aspectos condizentes ao estilo de vida e o comportamento anti-social (transgressor) dessas criaturas.

Aspectos referentes ao estilo de vida e comportamento anti-social (transgressor) Impulsividade

A impulsividade apresentada pelos psicopatas visa sempre alcanar prazer, satisfao ou alvio imediato em determinada situao, sem qualquer vestgio de culpa ou arrependimento. Para se ter ideia dessa impulsividade de natureza to primitiva e destruidora, cito a histria descrita no livro Without Conscience, do psiquiatra canadense Robert Hare:

Um presidirio psicopata, considerado grave pela avaliao do dr. Hare, um dia estava a caminho de uma festa e resolveu comprar um engradado de cerveja. Ao perceber que havia esquecido sua carteira de dinheiro em casa, simplesmente pegou um pedao de madeira robusto e assaltou o posto de gasolina mais prximo, deixando o funcionrio gravemente ferido.

Imagine por um minuto que voc est na cabea de um psicopata. Lembre-se de que suas aes sempre tm como objetivo a obteno de prazer e auto-satisfao imediatos. Por meio desse raciocnio, qual seria a sua reao caso algo ou algum representasse um obstculo para voc? Se voc pensou em tirar todas as "pedras" do seu caminho, sem pensar nas consequncias, acertou!

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Agora analise comigo o caso especfico do presidirio citado. Ao esquecer a carteira em casa, o seu prazer (comprar cerveja) ficou momentaneamente ameaado, concorda? Assim, impulsivamente e de forma agressiva, atacou o frentista do posto de gasolina apenas para atingir o seu objetivo.

Dessa forma, esses seres impulsivos tendem a viver o momento presente (o aqui e o agora), buscando sempre a satisfao imediata dos seus prprios desejos, sem qualquer preocupao com o futuro.

Autocontrole deficiente

A maioria de ns possui o que denominamos controle arbitrrio sobre nossos comportamentos. Assim, mesmo que por vezes tenhamos vontade de responder agressivamente a provocaes, acabamos no agindo dessa forma, em funo de sermos capazes de exercer nosso autocontrole.

Os psicopatas apresentam nveis de autocontrole extremamente reduzidos. So denominados "cabea-quente" ou "pavio-curto" por sua tendncia a responder s frustraes e s crticas com violncia sbita, ameaas e desaforos. Eles facilmente se ofendem e se tornam violentos por trivialidades ou por motivos banais. Apesar de a exploso de agressividade e violncia serem intensas, elas ocorrem em um curto espao de tempo, aps o qual os psicopatas voltam a se comportar como se nada tivesse ocorrido.

Quando um psicopata apresenta um ataque de "fria", chegamos a pensar que ele teve um "ataque sbito de loucura". Mas no se iluda, ele sabe exatamente o que est fazendo. Suas demonstraes de agressividade, ao mesmo tempo em que so intensas na expresso, so pobres na emoo. Rapidamente eles se 

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recompem, at porque lhes falta a verdadeira emoo vivenciada pelas pessoas comuns quando estas perdem a cabea.

Um psicopata, quando "perde o controle", sabe exatamente at onde ele quer ir, no sentido de magoar, amedrontar ou machucar uma pessoa. Apesar de tudo isso, eles se recusam a admitir que tenham problemas em controlar seu temperamento. Eles descrevem seus episdios agressivos como uma resposta natural  provocao a que foi submetido. Da a se colocar como vtima de toda a situao  um passo muito pequeno!

Lembro-me de ngela, uma paciente cujo namorado (Fernando) tinha todos os indcios de ser um psicopata. Entre os diversos relatos que ela me fez, destaco o ataque de fria que ele teve com o porteiro de seu prdio. Estacionou seu carro na garagem, ocupando o espao destinado a duas vagas. Quando o porteiro gentilmente solicitou que ele manobrasse a fim de ocupar apenas uma vaga, Fernando, aos berros, xingou-o e com um golpe quebrou o brao da pobre criatura. Fernando subiu para o apartamento de ngela e, como se nada tivesse acontecido, degustou tranquilamente o vinho que ela acabara de servir. Simples assim! Dispensvel falar das consequncias disso tudo.

Necessidade de excitao

Os psicopatas so intolerantes ao tdio ou a situaes rotineiras. Eles buscam situaes que possam mant-los em um estado permanente de alta excitao. Por isso, apreciam viver no limite, no conhecido "fio da navalha". Nessa busca desenfreada, muitas vezes, envolvem-se em situaes ilegais, agresses fsicas, brigas, desacatos a autoridades, direo perigosa, uso de drogas, promiscuidade sexual etc. Frequentemente mudam de residncia e emprego na busca de novas situaes que os "excitem". 

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Em funo disso, dificilmente iremos encontrar um psicopata exercendo atividades que demandam estabilidade e alta concentrao por longos perodos.

Muitos psicopatas procuram nos atos perigosos, proibidos ou ilegais que praticam o suspense e a excitao que esses atos provocam. Para eles, tudo isso no passa de mero prazer e diverso imediatos, sem qualquer outra conotao.

Roberto, um jovem de classe mdia alta, e mais dois colegas foram pegos em flagrante ateando fogo em um mendigo que dormia numa praa da cidade. Na delegacia Roberto declarou que eles estavam voltando de uma festa e resolveram "zoar" com as pessoas que encontrassem na rua. No entanto, ao se depararem com o mendigo roncando no banco da praa, alegaram ter feito apenas uma brincadeira: "A gente s queria se divertir", complementou Roberto. Dois dias depois, ao ser informado de que o mendigo havia falecido, Roberto se limitou a dizer: "Foi mal".

Falta de responsabilidade

Para os psicopatas, obrigaes e compromissos no significam absolutamente nada. A sua incapacidade de serem responsveis e confiveis se estendem para todas as reas de suas vidas. No trabalho apresentam desempenho errtico, com faltas freqentes, uso indevido dos recursos da empresa e violao da poltica da companhia. Nas relaes interpessoais no honram compromissos formais ou implcitos com as outras pessoas. Por isso, nunca acredite em acordos escritos ou verbais com eles, pois nunca iro cumpri-los totalmente. Talvez o faam parcialmente no incio do acordo somente para impressionar e ganhar confiana de suas vtimas. Mas uma coisa  certa: mais cedo ou mais tarde eles iro "aprontar"!

Quando a questo  famlia, o comportamento deles tambm segue o mesmo padro de indiferena e irresponsabilidade.

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Quando constituem famlias (cnjuges e filhos) os psicopatas no o fazem por sentimentos amorosos, mas sim como um instrumento necessrio para construir uma boa imagem perante a sociedade.

Conheci uma psicopata que utilizava o seu prprio filho (recm-nascido) para vender drogas em um ponto muito bem frequentado da zona sul do Rio de Janeiro. Em um dia frio, saindo de um restaurante, ouvi o choro forte de um beb que estava no colo de uma mulher e me aproximei na tentativa de oferecer algum auxlio: ele estava faminto e febril. De repente, a mulher disse de forma rspida para eu me afastar porque estava atrapalhando o seu "trabalho". H poucos metros dali pude observar um grupo de jovens comprando drogas que ela retirava de dentro da roupinha do beb. Antes de ir embora, passei novamente por ela, que me disse com frieza e indiferena: "Ele tem que me ajudar a trabalhar, os policiais no revistam bebs!".

Em geral os psicopatas afirmam, com palavras bem colocadas, que se importam muito com sua famlia (pai, me, irmos, filhos), mas suas atitudes contradizem totalmente o seu discurso. Eles no hesitam em usar seus familiares e amigos para se livrarem de situaes difceis ou tirarem vantagens. Quando dizem que amam ou demonstram cimes, na realidade tm apenas um senso de posse como com qualquer objeto. Eles tratam as pessoas como "coisas" que, quando no servem mais, so descartadas da mesma forma que se faz com uma ferramenta usada.

Problemas comportamentais precoces

Otvio sempre foi um menino difcil e diferente das outras crianas. Desde os 6 anos de idade, seus pais achavam que ele no era uma criana normal. No foram poucas as travessuras na infncia do menino. Ele era uma verdadeira "peste" e parecia no

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se importar com os sentimentos de ningum: parecia se divertir quando machucava o seu irmzinho mais novo ou quando torturava o gatinho de sua av. Quando repreendido pelos pais por seu comportamento cruel contra o seu irmo, ele simplesmente dizia-. "Eu s estava treinando boxe." Quanto ao gato, Otvio por inmeras vezes o colocou no congelador para testar se realmente ele tinha sete vidas.

Na escola as dificuldades no eram menores: ele era bri-guento, irrequieto, indisciplinado e displicente. Embora fosse um menino inteligente, detestava fazer as tarefas escolares e s estudava como manobra para receber recompensas de seus pais.
Na adolescncia Otvio abandonou os estudos, e seus pais no tiveram mais nenhum controle sobre ele. Envolvia-se em brigas, usava drogas, roubava o carro do pai para participar de "pegas" e deu vrios golpes em parentes e amigos, utilizando cheques com assinaturas falsas e cartes de crdito deles.

Desde a infncia, seus pais procuraram diversos profissionais como psiclogos, neurologistas e psiquiatras, at receberem a triste notcia de que Otvio  um psicopata. Hoje, com 25 anos, ele cumpre pena por trfico de drogas e nunca demonstrou qualquer arrependimento pelos seus atos.

Os psicopatas comeam a exibir problemas comportamentais srios desde muito cedo, tais como mentiras recorrentes, trapaas, roubo, vandalismo e violncia. Eles apresentam tambm comportamentos cruis contra os animais e outras crianas, que podem incluir seus prprios irmos, bem como os coleguinhas da escola. 

Vale  pena destacar que crianas e adolescentes com perfil psicoptico costumam realizar intimidaes (assdio psicolgico) contra pessoas pertencentes aos seus grupos sociais. E quando isso ocorre no ambiente escolar, pode caracterizar a ocorrncia de um fenmeno denominado bullying.

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Bullying pode ser definido como um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivao evidente adotada por um ou mais alunos contra outros. Os mais fortes utilizam os mais frgeis como meros objetos de diverso e prazer, cujas "brincadeiras" tm como propsito maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar, causando dor, angstia e sofrimento s suas vtimas. O lder do grupo agressor (o "valento" ou o "tirano") costuma ser o indivduo que apresenta caractersticas compatveis com a personalidade psicoptica.

Como ilustrao desse problema que se instala nas escolas de todo o mundo, cito um caso extrado do livro Fenmeno Bullying, de autoria de Cleo Fante: Johnny, um menino tranquilo de 13 anos, durante dois anos foi brinquedo de seus companheiros de classe. Os adolescentes importunavam-no para que ele lhes desse dinheiro, obrigavam-no a tragar ervas e a beber leite misturado com detergente, golpea-vam-no no ptio e atavam-lhe uma corda ao pescoo, para passear como um cachorrinho... Quando perguntaram aos torturadores de Johnny sobre suas intimidaes, disseram que perseguiam a sua vtima porque era divertido.

Importante destacar que ningum vira psicopata da noite para o dia: eles nascem assim e permanecem assim durante toda a sua existncia. Os psicopatas apresentam em sua histria de vida alteraes comportamentais srias, desde a mais tenra infncia at os seus ltimos dias, revelando que antes de tudo a psicopatia se traduz numa maneira de ser, existir e perceber o mundo. 

Comportamento transgressor no adulto

Todas as sociedades se estabeleceram utilizando normas e regras que ditam o comportamento de seus membros. Isso

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assegura que a maioria deles tender a obedecer s normas gerais com o objetivo de evitar as punies advindas das transgresses dessas regras. Dessa forma, isso assegura a cada indivduo quais so os seus direitos e deveres para que se tenha um mnimo de harmonia na convivncia em grupo. Caso contrrio, a convivncia entre os humanos tenderia a uma total anarquia, prevalecendo simplesmente "a lei do mais forte".

Os psicopatas no apenas transgridem as normas sociais como tambm as ignoram e as consideram meros obstculos, que devem ser superados na conquista de suas ambies e seus prazeres. Essas leis e regras sociais no despertam nos psicopatas a mesma inibio que produzem na maioria das pessoas. Por isso, observamos que, na trajetria de vida desses indivduos, o comportamento transgressor e anti-social  uma constante.

Pesquisas tm constatado que a apario precoce do comportamento anti-social (infncia e adolescncia)  um forte indicador de problemas transgressores e criminalidade no adulto. Vale ressaltar que o psicopata sempre vai revelar ausncia de conscincia genuna frente s demais pessoas: so incapazes de amar e nutrir o sentimento de empatia. Eles jamais deixaro de apresentar comportamentos anti-sociais; o que pode mudar  a forma de exercer suas atividades ilegais durante a vida (roubos, golpes, desvio de verba, estupro, sequestro, assassinato etc). Em outras palavras, a maioria dos psicopatas no  expert numa atividade criminal especfica, mas sim "passeia" pelas mais diversas categorias de crimes, o que Hare denomina versatilidade criminal.

Finalizando este captulo, gostaria de deixar claro que os psicopatas no so os nicos indivduos a levarem a vida de forma transgressora. Muitos criminosos possuem algumas das caractersticas descritas nos dois ltimos captulos. No entanto, eles se mostram capazes de sentir culpa, remorso, empatia, bons sentimentos

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por outras pessoas e por isso mesmo no so considerados psicopatas. O diagnstico de psicopatia somente pode ser feito quando o indivduo se encaixa de forma significativa
nesse perfil, ou seja, quando possuir a maioria dos sintomas aqui apresentados.

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Captulo 6
Os psicopatas no mundo profissional

Identificar psicopatas fora das prises e dos manicmios judicirios  uma empreitada bastante difcil. Os psicopatas esto por toda a parte e no dia-a-dia  possvel encontr-los em diversas categorias profissionais. Em particular, em organizaes e empresas pblicas ou privadas. Estas costumam se constituir em um cenrio favorvel para a peculiar maneira de agir desses indivduos. Sem qualquer sombra de dvida, o papel de liderana em cargos como diretor, gerente, supervisor ou executivo  sempre algo muito atraente para um psicopata. Esses cargos, alm de oferecerem bons salrios, proporcionam status social, poder e um amplo territrio de atuao e influncia.

A ao dos psicopatas nas organizaes empresariais

Srgio tinha 42 anos quando foi promovido a supervisor geral na empresa em que trabalhava havia 18 anos. Sempre foi um funcionrio "tipo caxias", nunca poupou esforos para cumprir seus prazos e sempre esteve  frente de seus colegas de trabalho, lutando por melhores oportunidades para todos e para a empresa.

Iniciou sua carreira na empresa, ainda recm-formado, e cresceu com ela superando seus prprios limites e enfrentando com seriedade todas as crises do mercado. Agora estava ali, no posto que tanto batalhou para conseguir. A empresa lhe disponibilizou carro, uma secretria exclusiva e um assistente que exerceria sua funo anterior: gerncia geral. Ele mesmo fez questo de selecionar o novo parceiro-funcionrio, aquele cujo trabalho daria seguimento ao seu.

Marcos chegou  entrevista na hora exata e em poucos minutos Srgio "percebeu" que ele era a pessoa certa para o cargo. Marcos era jovem, 28 anos, tinha tima aparncia, boa fluncia verbal e sua inteligncia impressionou Srgio. Apesar de sua pouca

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idade, narrou de forma segura e minuciosa seus inmeros mritos e suas experincias profissionais. Num rompante de entusiasmo e fascinado pelas qualidades profissionais de Marcos, Srgio o contratou imediatamente.

Pobre Srgio, cometeu um lastimvel engano! Pouco tempo depois comeou a amargar o mais profundo arrependimento. A partir de ento passou a checar se as informaes fornecidas por Marcos em seu currculo eram verdicas. Comprovou que a maioria das qualificaes de seu novo funcionrio era fraudulenta. Marcos, a essa altura, j se mostrara uma pessoa arrogante, insolente e deveras ambiciosa.

Aquela pessoa que, ao primeiro contato, prometia ser um excelente profissional, realmente surpreendeu, mas de forma absolutamente oposta. Logo aps algumas semanas de trabalho comeou a se queixar da secretria de Srgio sem qualquer motivo concreto. D. Rosana era reconhecidamente uma pessoa muito confivel e responsvel. No entanto, Marcos provocou uma cena de puro exibicionismo e exps a fiel secretria a uma humilhao pblica, chamando-a de incompetente, burra e lenta na frente dos demais funcionrios.

Logo aps esse episdio, Marcos comeou a faltar s reunies com os seus subordinados e, consequentemente, s de Srgio tambm. Para tais faltas sempre apresentava desculpas pouco convincentes e sem qualquer constrangimento por isso.

Srgio no tardou a desconfiar que Marcos estava desviando dinheiro da empresa na forma de percentuais de venda destinados aos gerentes subordinados. Quando foi questionado sobre o assunto, Marcos se limitou a responder, de forma evasiva, que no tinha a menor noo do que se tratava.

A situao j estava insustentvel quando Srgio procurou o presidente da empresa para relatar os fatos. No entanto, foi recebido com indiferena e ainda foi obrigado a ouvir do presidente uma srie de elogios ao jovem e inteligente Marcos.
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Por fim, foi comunicado que retornaria ao seu cargo anterior e Marcos assumiria imediatamente a funo de supervisor geral da empresa.

Os psicopatas costumam agir com tato e habilidade no cenrio empresarial, assim como observamos no caso apresentado. Segundo Robert Hare, o nmero de psicopatas burocratas ou de "colarinho branco"  significativo em cargos de lideranas e chefias. Por serem de difcil reconhecimento inicial, eles costumam tiranizar seus colegas de trabalho e alguns chegam at a causar grandes prejuzos financeiros para as empresas em que trabalham.

Paul Babiak, psiclogo americano, especializado em recursos humanos, realizou um importante estudo, atravs do qual demonstrou as tticas utilizadas por psicopatas no meio corporativo. Ele os denominou "cobras de temo" por suas aes cnicas, inescrupulosas e antiticas na disputa por altos cargos, salrios e poder. Segundo Babiak, os psicopatas em ambientes empresariais costumam adotar um plano ttico que pode ser resumido em cinco fases:

Fase 1 - Ingresso na empresa

Esta fase corresponde basicamente  entrevista de emprego. Nessa ocasio o candidato psicopata mostra-se cativante, seguro e charmoso. Utiliza-se de todo
seu arsenal sedutor com o objetivo claro de impressionar o entrevistador da forma mais positiva possvel.

Fase 2   - Estudo do territrio (avaliao)

Nessa etapa o psicopata j se encontra empregado. Procura ento descobrir, da forma mais rpida possvel, quem so as pessoas que possuem voz ativa na empresa.
Logo em seguida trata de construir relaes pessoais, de preferncia ntimas, com esses funcionrios influentes.

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Fase 3 - Manipulao de pessoas e fatos

De forma maquiavlica (intencional), espalha falsas informaes para que seja visto de forma positiva e os outros de maneira negativa perante as chefias. Semeia desconfiana entre os funcionrios, jogando-os uns contra os outros. Disfara-se de "amigo", contando aos colegas sobre outros que o difamaram. Estabelece contato individual com as pessoas, mas evita reunies ou situaes nas quais precise se posicionar perante todo o grupo. Mantm-se "camuflado" para levar adiante a estratgia de ascenso ao poder.

Fase 4 - Confrontao

Nessa fase os psicopatas "de terno e gravata" abandonam as pessoas que havia cortejado anteriormente e que no so mais teis  sua ascenso profissional. Num requinte de maldade, eles utilizam a humilhao como arma para manterem suas vtimas em silncio. Dessa forma, as pessoas que mais foram exploradas so aquelas que menos se dispem a falar sobre suas experincias.

Fase 5 - Ascenso

Tal qual um jogo de xadrez, essa  a hora do xeque-mate,  a hora do golpe fatal. Aps colocar lderes e chefias uns contra os outros, o psicopata "de terno e gravata" toma o lugar do seu superior, que geralmente  demitido ou rebaixado de cargo e funo.

 importante lembrarmos que a ausncia de conscincia e de medo torna essas pessoas potencialmente ardilosas e perigosas. Para elas, infringir as normas e externar seus desejos agressivos e predatrios sem qualquer escrpulo ou culpa so atitudes "naturais" e, por isso mesmo, isentas de qualquer autocrtica. Empresas e instituies psicopticas        No podemos esquecer que a forma como as empresas so estruturadas tambm pode colaborar para que indivduos com

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comportamento egocntrico e inescrupuloso alcancem cargos de chefia e poder. Nos tempos atuais algumas empresas crescem to rapidamente que so obrigadas a mudanas constantes de funcionrios e cargos.

Nesse cenrio as intrigas, as falcatruas dos psicopatas podem ser dissimuladas por muito tempo. So as polticas de crescimento baseadas na "poltica" de que os fins justificam os meios. Na nsia de crescer muito no menor espao de tempo, muitas empresas acabam adoecendo tambm e perdem seus alicerces. As empresas doentes tendem a incorporar em seus quadros de funcionrios pessoas que combinam com suas adoecidas estruturas. Refora-se assim o estilo inescrupuloso no ambiente corporativo.

Entretanto, empresas que adotam uma estrutura administrativa baseada na confiana e na responsabilidade mtuas tambm podem se deparar com problemas semelhantes, uma vez que no adotam uma vigilncia rgida sobre seus funcionrios. Essa postura produz um ambiente profissional com maior liberdade. Por um lado isso pode ser muito positivo para a maioria das pessoas. No entanto, essa mesma liberdade pode se construir em um terreno frtil em que os psicopatas "de colarinho branco" costumam florescer.

Em tempos de globalizao econmica, a competitividade entre as empresas pode adquirir dimenses extremas, ocasionando crises nos mais diversos setores empresariais.

Nesses cenrios, mudanas precisam ser realizadas em tempo hbil. As empresas mais bem estruturadas e com viso estratgica de mdio e longo prazo tendem a reunir foras em seus prprios funcionrios com o objetivo de encontrarem novas e criativas alternativas que faam a empresa transcender suas limitaes e retornar  rota do crescimento slido e duradouro sem perder seus valores primordiais. J as empresas com fraca estruturao administrativa e filosfica tendem, em situaes emergenciais, a supervalorizar solues mgicas e imediatas baseadas em profissionais que "encarnam" o papel de salvador da ptria.

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Nessas empresas o profissional que possui ou representa bem valores como fora, capacidade de persuaso e controle das emoes rapidamente entrar em alta, pois  primeira vista suas caractersticas so interpretadas como vantagens preciosas no mundo empresarial.

Um psicopata pode facilmente fingir incorporar tais caractersticas e, ao utiliz-las de forma carismtica e manipuladora, fazer uma carreira longa e de sucesso em empresas com estruturas deficientes no aspecto material, ideolgico e/ou tico.

Por tudo o que foi exposto,  fundamental no campo profissional analisarmos de forma crtica e ctica o que pode estar por trs de um belo e suntuoso currculo.

A presena de psiclogos qualificados e bem treinados nas empresas pode ser um diferencial muito bem-vindo quando se trata de separar o joio do trigo no campo profissional. Isso porque as pessoas que tm que tomar decises sobre a contratao de funcionrios nem sempre esto adequadamente capacitadas e treinadas para enfrentar as habilidades de manipulao e convencimento dos psicopatas. Assim, atente-se s seguintes dicas:

 Desconfie de um currculo ostensivo em demasia.
 Repare se ele apresenta inmeras mudanas de cargo em pequenos espaos de tempo.
 Solicite ao setor de Recursos Humanos que faa contato com seu ltimo empregador.
 Na entrevista com o candidato elabore perguntas habilidosas que possam aferir a veracidade das informaes contidas no currculo.

A psicopatia nas diversas profisses

Os psicopatas no vo ao trabalho, vo  caa. Como observamos na primeira parte do captulo, no mundo corporativo a ao dos psicopatas pode ser comparada a de animais ferozes na busca implacvel do poder e do domnio sobre o

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maior nmero de pessoas possvel, assim como os grandes predadores fazem na demarcao dos seus territrios.

A grande maioria dos psicopatas utiliza suas atividades profissionais para conquistar poder e controle sobre as pessoas. Essas ocupaes podem auxili-los ainda na camuflagem social daqueles que no levam uma vida francamente marginal (delinquentes mais perigosos). Muitos se camuflam em pessoas responsveis atravs de suas profisses. Nesse contexto, podemos encontrar policiais que dirigem redes de prostituio, juzes que cometem os mesmos delitos que os rus - mas no julgamento os condenam com argumentaes jurdicas impecveis, banqueiros que disseminam falsos boatos econmicos na economia. Tambm esto alguns lderes de seitas religiosas, que abusam sexualmente de seus discpulos, ou ainda polticos e homens de Estado que s utilizam o poder em proveito prprio. Estes ltimos costumam representar grandes perigos pelo tamanho do poder que podem deter.

A poltica propicia o exerccio do poder de forma quase ilimitada. Poucos cargos permitem um exerccio to propcio para atuao dos psicopatas. A "renda" material que eles podem obter tambm  praticamente incalculvel, quando exercem a profisso de forma ilegal. O prprio salrio deles tambm  muito bom, se comparados aos salrios dos executivos das corporaes privadas. E o fato de terem um foro privilegiado quase lhes assegura de forma impune o exerccio do poder com outros fins que no sejam os de servir aos interesses da nao. Todos esses ingredientes fazem uma pizza gostosa de comer, com possibilidade de indigesto quase nula. No Brasil, esse fenmeno torna-se mais gritante porque a impunidade funciona como uma doena crnica e deriva de um somatrio que inclui um sistema policial deficitrio, um aparelho judicirio emperrado e um cdigo processual retrgrado.

Esse fato pode ser facilmente verificado pelas inmeras manchetes que diariamente noticiam os diversos crimes cometidos por maus polticos: lavagem de dinheiro pblico, formao de quadrilha,

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corrupo ativa e passiva, gesto fraudulenta, evaso de divisas, crime de peculato, desvio de recursos de obras pblicas, envio ilegal de dinheiro ao exterior, crime contra a administrao pblica e por a vai.

A coisa chegou a tal ponto, que a palavra "poltica" passou a designar precisamente esse jogo amoral no qual a igualdade  sempre ultrapassada por pessoas que, desdenhando das leis, passam a control-las em vez de zelar por elas. Ou um ritual os quais os criminosos so acusados, mas quando so importantes, livram-se da pena porque tm comprovadas relaes pessoais e partidrias com os donos do poder. Roberto DaMatta (socilogo). Revista Veja, ed. 2.021, ano 40, artigo: "Sem culpa e sem vergonha", Ed. Abril, 15/8/2007.

Uma pesquisa realizada pelo Ibope (encomendada pela revista Veja) para saber o que os brasileiros acham de seus parlamentares mostra que, embora a maioria dos entrevistados considere que o Congresso  essencial para a democracia, a imagem que eles passam para a populao resume-se nos seguintes adje-tivos: "desonestos, insensveis, mentirosos". Revista Veja, ed. 1.993, ano 40, Ed. Abril, 31/1/2007.

Tambm achei importante destacar neste tpico a presena dos psicopatas em casos de pedofilia - abuso sexual contra crianas ou pr-pberes (13 anos ou menos). Para realizarem essa perversidade, os psicopatas se camuflam em profisses que permitam aproximar-se de crianas. So professores, chefes de escoteiros, treinadores esportivos, pediatras, religiosos que atuam em colgios, entre dezenas de profisses que exigem contato com crianas. Todas essas atividades profissionais apresentam uma aura socialmente reconhecida como nobres e educativas. O psicopata

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pedfilo usa, de forma maquiavlica, essa artimanha para acercar-se de suas vtimas, sem despertar suspeitas.

O caso do mdico Eugnio Chipkevitch, um dos pediatras mais conceituados do Brasil e detentor de um currculo invejvel, ilustra essa constatao de forma bastante didtica. Em 2002, o mdico russo, naturalizado brasileiro e especializado em psicoterapia infanto-juvenil, foi detido sob a acusao de abusar sexualmente de seus jovens pacientes. A sordidez de suas tticas abusivas foi detalhada em quase quarenta fitas de vdeo, que teriam sido gravadas pelo prprio mdico em seu consultrio. Aps conquistar a confiana de seus pacientes, o mdico aplicava-lhes injees com sedativos e depois abusava sexualmente deles.

Ao ser detido, Chipkevitch agiu de forma indiferente e, sem qualquer constrangimento, admitiu ser ele o mdico que aparecia nas fitas. Conseguiu at, de forma afvel e tranquila, oferecer cafezinho aos policiais que vasculharam seu apartamento em busca de provas.

O perfil psicoptico do mdico pode ser observado em alguns aspectos: a perversidade do ato em si, o requinte rituaistico de dopar as vtimas e film-las e a sua indiferena afetiva em relao a toda situao.

A maneira como o mdico escondeu o lado obscuro de sua vida revela um talento inquestionvel para mentir e manipular. Tal fato gerou perplexidade, inclusive, em seus prprios colegas de trabalho: "Eu o conheo desde 1985.  um mdico muito conceituado e no consigo acreditar nisso", declarou a psicopedagoga Maria Aparecida
Casagrandi  revista Veja (ns 1.744 de 27/3/2002).

Quem poderia desconfiar que por trs do respeitado mdico escondia-se um monstro. Chipkevitch era um lobo em pele de cordeiro.

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Captulo 7
FOI MANCHETE NOS JORNAIS


Ao iniciar este captulo,  importante ressaltar que em momento algum afirmo que as pessoas aqui descritas so psicopatas de fato. Esclareo tambm que no tenho nenhum nvel de convivncia com elas e tampouco fiz alguma investigao diagnostica especfica que pudesse atestar a psicopatia em suas personalidades. O que me interessa aqui so os acontecimentos e os atos que lhes so atribudos, uma vez que sugerem um proceder caracterstico da psicopatia. Slvia Calabrese Lima - "Como algum  capaz de fazer isso?". Goinia, 17 de maro de 2008.

Uma denncia annima levou dois investigadores de polcia at o apartamento da empresria de construo civil Slvia Calabrese Lima, de 42 anos. Slvia foi presa em flagrante por maltratar e torturar uma menina de 12 anos que morava com ela havia mais ou menos dois anos.

A agente policial Jussara Assis encontrou a menina com os braos acorrentados a uma escada de ferro no apartamento da empresria, localizado num bairro nobre na cidade de Goinia. Uma mordaa de gaze e esparadrapo embebida em pimenta, vrios dedos das mos quebrados, a maioria das unhas arrancadas, marcas de ferro quente pelo corpo e dentes quebrados a marteladas completavam o quadro de atrocidades. Objetos como correntes, cadeados e alicates serviam de instrumentos de tortura, que ocorria de forma sistemtica.

A menina, visivelmente traumatizada, relatou  polcia: "Hoje porque eu no sequei o banheiro dela, ela me acorrentou." Ela disse que nunca contou nada porque era ameaada de morte pela empresria. Tambm foi presa a empregada Vanice Novais, de 23

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anos, acusada de participar dos horrores. Ela alegou que torturava a menina "a mando da patroa". Num caderno, Vanice registrava o dia e a hora das agresses.

Aps a repercusso do caso, outras meninas (pelo menos quatro) revelaram que tambm foram torturadas de forma muito parecida, pela mesma empresria.

Slvia, que  filha adotiva, ganhava a confiana dos pais de meninas pobres para depois adot-las informalmente. Suas promessas eram de oferecer estudos para que as crianas tivessem as mesmas oportunidades que ela teve quando fora adotada. Alm disso, alegava querer muito uma menina para cuidar, pois s tinha filhos homens. Instaladas na casa de Slvia, as meninas eram submetidas a atos de violncia, trabalhos forados, privaes de comida e outros suplcios como ingerir fezes de animais.

A delegada Adriana Accorsi, responsvel pelo caso, declarou  revista Veja: "Ela  sdica, sente prazer em machucar meninas e em momento nenhum demonstrou arrependimento pelo que fez".

Na priso, em entrevista ao programa Fantstico (Rede Globo), Slvia confessou ao reprter Vincius Dnola a autoria do crime: "Devo, e vou confessar em juzo o que fiz...", "Sabe qual que  a histria? Eu era a mandante; ela, a executante (referindo-se  empregada domstica). Essa  a histria. No tem outra histria".

Quando perguntada por que agiu daquela maneira com a menina, a agressora respondeu: "Na minha cabea, eu no achava que tava torturando, na minha cabea, eu achava que tava educando", "Minha vida acabou. Eu sei que vou ficar aqui. Eu tenho noo disso. Eu no sou louca".
Um parente da agressora disse que desde a infncia ela apresenta "distrbio de comportamento" e um histrico de problemas. Slvia foi criada de orfanato em orfanato at ser adotada aos 12 anos de idade. Ainda precoce, j demonstrava ser uma criana com srias alteraes de comportamento. Aos 9 anos foi expulsa

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de uma instituio porque estava atrapalhando a educao das outras meninas.

Para o psiquiatra forense Guido Palompa, pessoas como Slvia costumam alegar que receberam maus-tratos na infncia, mas no  verdade. "So pessoas que so de natureza deformada", "Elas tambm no tm nenhum arrependimento". Fontes: revista Veja, ed. 2.053, Ed. Abril, 26/3/2008; programa Fantstico, Rede Globo, exibido em 23/3/2008. Kelly Samara Carvalho dos Santos - "Ela parecia to nobre".

Em 22 de agosto de 2007, uma jovem de 19 anos foi presa em So Paulo, acusada de crimes de falsidade ideolgica, estelionato e furtos. Bonita, magra, alta e bem vestida, cativava as pessoas por sua simpatia e desenvoltura. Kelly Samara Carvalho dos Santos, que se apresentava como Kelly Tranchesi, tambm tinha l seus destemperas: quando no convencia por bem, usava de arrogncia, fazia escndalos e destratava pessoas.

Nascida em Amambai (MS), onde foi criada pelos avs maternos, Kelly  conhecida em vrias cidades da regio pelos golpes que aplicou. Segundo as informaes de uma tia e da ex-diretora do colgio onde ela estudou, desde pequena no respeitava regras, desobedecia aos professores, furtava objetos e ludibriava as pessoas. O Conselho Tutelar de Amambai acompanhou a jovem desde 2001, quando comeou a aplicar golpes.

Segundo o G1 (Portal de Notcias da Globo), um escrivo de Ponta-Por disse que "ela  um computador. Grava quem , qual  o nome". Ele ainda revelou que a moa circulava entre pessoas influentes para escolher suas vtimas. "Essa menina  uma artista. Ela  muito, muito inteligente. Mas usa a inteligncia para o crime".

Em So Paulo - sem endereo fixo e se hospedando em hotis caros -, Kelly costumava frequentar lugares badalados

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(restaurantes e casas noturnas) num bairro nobre na Zona Oeste da cidade, os Jardins. Trajando roupas e jias de grife, a jovem alugava carros blindados de luxo, com direito a motoristas. Com aparncia de milionria, Kelly, sem levantar suspeitas, conquistava a confiana de "amigas" ricas, homens e pessoas idosas. Furtava-lhes jias, dinheiro, cartes de crdito e tales de cheques, repas-sando-os para os comerciantes da regio.

Com apenas 19 anos, mas experiente em aplicar golpes, Kelly j se passou por estudante de direito, mdica veterinria, empresria, dermatologista, fazendeira e at filha do presidente do Paraguai. Segundo a polcia, a jovem usava mais quatro nomes falsos, escolhia suas vtimas tambm atravs do site de relacionamentos Orkut e aplicava o golpe "Boa Noite Cinderela" (colocar sonferos nas bebidas das vtimas para depois depen-las).
Depois de um rpido namoro com o dono de uma galeria de artes, ela conseguiu roubar uma gravura do pintor espanhol Juan Miro, avaliada em US$ 18 mil. A polcia no sabe precisar quantas pessoas foram enganadas por Kelly e a quantia exata que ela roubou. Porm, mais de vinte vtimas se pronunciaram somente em So Paulo, onde permaneceu por apenas seis meses.

A delegada que cuidou do caso, Aline Martins Gonalves, da 15 DP, disse ao programa Fantstico que por ser jovem e bonita Kelly conseguia facilmente chegar aos homens. Aline tambm se mostrou impressionada com os golpes da falsa socialite: "A gente vai puxando e parece que a linha no acaba mais", complementou.

Para o psiquiatra Daniel Martins de Barros, do Ncleo de Psiquiatria e Psicologia Forense da Universidade de So Paulo (USP), os estelionatrios costumam ser pessoas hbeis, com jogo de cintura, raciocnio rpido e capacidade de simulao.

Nas palavras de Srgio Paulo Rigonatti, mdico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clnicas, os estelionatrios "tm uma inteligncia que  suficiente para enganar os outros, grande poder de seduo, frieza e falta de sentimentos de culpa".

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Mesmo com vrias provas, relatos de testemunhas, histrico de sua vida pregressa e priso em flagrante, a jovem, que ficou conhecida como "golpista dos Jardins", foi solta em 2 de abril de 2008. De acordo com o Tribunal de Justia de So Paulo, Kelly foi liberada aps ser absolvida por falta de provas. Fontes: G1 - O Portal de Notcias da Globo, <www.g1.com.br> postado em 22/8/2007 a 30/4/2008 e programa Fantstico, Rede Globo, exibido em 26/8/2007. Champinha - "Perversidade requintada".

Em novembro de 2003, Roberto Aparecido Alves Cardoso, conhecido como Champinha, de 16 anos, foi condenado pelo sequestro e pelo assassinato do casal de namorados Felipe Caff (19 anos) e Liana Friedenbach, de 16. Os crimes ocorreram numa mata de Embu-Guau, na Grande So Paulo. Felipe recebeu um tiro na nuca e foi encontrado num crrego. A estudante Liana, durante quatro dias, foi abusada sexualmente por repetidas vezes e morta a facadas na cabea, nas costas e no trax.

Outros participantes dos assassinatos tambm foram condenados por vrios anos de recluso, em presdios comuns, uma vez que na poca j eram adultos. No entanto, Champinha, considerado lder do grupo e o mentor dos crimes, foi internado por trs anos na Febem Vila Maria (hoje denominada Fundao Casa). Apesar de ser menor de idade, Champinha foi considerado um criminoso extremamente perigoso e com altssima possibilidade de reincidir no crime. Portanto, sem condies de convvio social.

Depois de muita polmica, no final de 2007 a Justia determinou que Champinha dever ser mantido em instituies com superviso psiquitrica - sob vigilncia constante e por tempo indeterminado -, e est proibido de realizar atos civis como casar ou abrir contas em bancos, por exemplo. Por falta de um lugar apropriado que atenda  determinao da justia, Champinha permanece

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onde est desde maio de 2007: na Unidade Experimental de Sade da Vila Maria, Zona Norte de So Paulo. Apesar de todas essas medidas, o destino de Champinha ainda  uma incgnita. Fontes: O Globo Online, <www.oglobo.com.br>, postados entre 30/9/2006 e 30/11/2007; G1 -O Portal de Notcias da Globo, <www.g1.com.br>, postados entre 9/10/2004 e 30/11/2007. Suzane von Richthofen - "Matou os pais e foi para o motel".

Uma jovem rica, bonita, universitria, de classe mdia alta, arquitetou e facilitou a morte de seus prprios pais.

No dia 31 de outubro de 2002, pouco depois da meia-noite, Suzane, de 19 anos, entrou em casa, acendeu a luz, conferiu se os pais estavam dormindo e deu carta branca ao namorado, Daniel Cravinhos, de 21 anos, e o irmo dele, Cristian, de 26.

Os irmos Cravinhos mataram Marsia eAlbert von Richthofen (pais de Suzane) com pancadas de barras de ferro na cabea, enquanto o casal dormia. Simularam um latrocnio, espalharam ob-jetos e papis pela casa e levaram todo o dinheiro e jias que conseguiram encontrar. Aps a barbrie, o casal de namorados partiu para a melhor suite de um motel da Zona Sul de So Paulo.

Motivo do crime (se  que existe algum)? Os pais no concordavam com o namoro.     Segundo a polcia, o crime foi planejado durante dois meses e a frieza dos trs, principalmente a de Suzane, chegou a impressionar os investigadores. Logo aps o enterro dos pais, a polcia foi at a casa de Suzane para uma vistoria e deparou com a jovem, o namorado e amigos ouvindo msicas e cantando alegremente junto  piscina. No dia seguinte, Suzane e o namorado Daniel foram ao stio da famlia comemorar seu aniversrio de 19 anos. "No a vi derramar uma lgrima desde o primeiro dia", disse Daniel Cohen, primeiro delegado a ir ao local do crime. Na delegacia a

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jovem estava mais preocupada com a herana e com a venda da casa do que com a morte de seus pais.

Dentre outras evidncias, esses ltimos acontecimentos corroboraram para que as suspeitas recassem sobre Suzane e os irmos Cravinhos. Uma semana depois do assassinato eles confessaram o crime.

Enquanto aguardava o julgamento em liberdade, Suzane concedeu uma entrevista ao programa Fantstico (Rede Globo), exibido no dia 9 de abril de 2006. Na ocasio, ela estava de cabelos curtos, trajava uma camiseta com a estampa da Minnie e pantufas decoradas com coelhinhos. Na primeira parte da entrevista, ela brincou com periquitos, ensaiou choros teatrais por 11 vezes, segurou nas mos de seu tutor (Denival Barni) e discursou como uma menina inocente e "quase dbil". Cenrio perfeito para suavizar a imagem de mentora de um crime cruel.

A farsa foi descoberta na segunda sesso, em Itirapina, a 200 quilmetros de So Paulo. Com o microfone aberto, foi possvel ouvir os advogados Mrio Srgio de Oliveira e Denival Barni a orientarem a fingir que chorava. "Chora", pede Barni  Suzane. "Comea a chorar e fala: 'No quero falar mais!'", diz a voz do outro. Ela responde: "No vou conseguir." Suzane foi desmascarada e sua priso foi decretada no dia seguinte.

O psiquiatra forense Antnio Jos Ea, professor de medicina legal e psicopatologia forense das Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU), declarou  revista Isto Gente que Suzane matou os pais porque " de m ndole". "Ela tem alguma coisa de ruim dentro dela, uma perversidade, uma anormalidade de personalidade. A maldade est arraigada na alma dela".

Virglio do Amaral, promotor de justia que acompanhou os depoimentos de Suzane, tambm declarou  mesma revista que "uma pessoa que escolhe a suite presidencial do motel depois de matar os pais no tem sentimentos".

Decorridos quatro anos do assassinato, em 22 de julho de 2006 Suzane e o namorado Daniel foram condenados pelo jri popular

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a 39 anos de recluso e seis meses de deteno. Christian pegou 38 anos de recluso e seis meses de deteno pelo crime. Fontes: revista poca, ed. 234, Ed. Globo, 11/11/2002; revista Isto Gente, ed. 172, Ed. Trs, 18/11/2002; revista Fantstico, ns 1, Ed. Globo, dezembro de 2006; programa Fantstico, Rede Globo, exibido em 9/4/2006.
Jia - "O vov ideal de qualquer pessoa". Araras, 16 de fevereiro de 2007.

Lijoel Bento Barbosa, apontado como um dos criminosos mais procurados do Estado de So Paulo, foi preso pela Polcia Militar de Araras. Lijoel, mais conhecido como Jia, tinha mais de quarenta anos no crime e 59 de idade. Parecia um senhor pacato, "boa praa", que costumava usar um chapu para cumprimentar suas vtimas e assim ganhar a confiana das mesmas.

Por trs de uma aparncia inofensiva, Jia escondia uma ficha criminal de mais de 14 metros de comprimento, da qual constavam diversos tipos de crime: furtos, roubos de residncias, roubos de cargas de computadores, alm de tentativa de homicdio, trfico de entorpecentes e dois estupros.

Segundo rico Hammerschmidt Jnior, o capito da polcia Militar de Araras, ele comeou no mundo do crime aos 17 anos e nunca mais parou. Sua especialidade era arrombar e furtar casas com muita rapidez, "de dois a cinco minutos", disse o delegado Ta-bajara Zuliani dos Santos. " lobo em pele de cordeiro, ningum imagina que um senhor deste, que seria o vov ideal de qualquer pessoa, seja um ladro contumaz como ele ", afirmou o delegado.

Jia esperava os donos sarem e arrombava a fechadura de suas casas. Caso fosse surpreendido, contava uma histria mentirosa qualquer: "Ele estava praticando furto numa casa quando chegaram policiais militares e o surpreenderam naquela ao. Ele falou: 'Os vizinhos chamaram vocs de novo? O que vocs esto fazendo?  a casa do meu irmo. Estou recolhendo objetos para

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levar para ele. Vocs querem entrar, tomar um caf, uma gua?' Fiquem  vontade", disse Sydney Urbach, delegado de Araras.

Certa vez, quando estava roubando uma das casas, uma vizinha desconfiou. Sem o menor constrangimento, Jia simplesmente pegou uma vassoura e comeou a varrer. Saiu da casa e disse a mulher: "Calor, hein?" Depois disso pegou o carro e foi embora, contou Marco Antnio Marcos, comandante da Guarda Metropolitana de Jaguarina.

Com essa tcnica, Lijoel invadiu e roubou vrias casas em 43 cidades do Estado de So Paulo e "limpou" especialmente os eletro-domsticos, os aparelhos eletrnicos e as jias (origem do apelido).

Sydney Urbach tambm contou que durante uma blitz Jia foi reconhecido por um policial. Mas, ao tentar tirar a chave da ignio do veculo de Jia, o dedo do policial acabou se enroscando no chaveiro. Lijoel no teve piedade: "Arrancou com o carro, arrastando o policial e seccionando o dedo dele".

Foragido desde 1999, Jia foi encontrado em uma chcara de alto padro, que pertencia a um amigo. Numa ltima tentativa de no ser preso, ele apresentou uma identidade falsa, com o nome de Antnio Barbosa. "Meu nome  Antnio e no Lijoel", afirmou no momento em que estava sendo algemado.

Ele j esteve preso por duas outras vezes, mas conseguiu fugir. Da ltima vez deixou um irnico recado na parede de sua cela: "Cadeia  para bijuteria, no  para Jia". Fontes: programa Fantstico, exibido em 24/2/2007 e G1 - Portal de Notcias da Globo, <www.g1.com.br>, postado em 25/2/2007. Divina de Ftima Pereira - "Inimiga ntima."
Goinia, 30 de novembro de 2007.

Divina de Ftima Pereira, mais conhecida como "Nega", foi presa em So Paulo (SP) acusada de matar a irm Rosa Maria Pereira, 24 anos, grvida de nove meses.

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O crime ocorreu no dia 27 de fevereiro de 1994 na cidade de Goinia (GO), porque Rosa descobriu que a irm teria roubado seus documentos para dar golpes nos comerciantes da regio.

Divina, que costumava praticar pequenos golpes e furtos desde criana, aproveitou a visita da irm em sua casa e roubou a carteira de identidade e o talo de cheques. Quando as cobranas comearam a chegar, Rosa descobriu que fora vtima de um golpe.

Rosa Maria ameaou denunciar a irm  polcia caso ela no quitasse as dvidas. Diante disso, Divina a estrangulou com um suti e falou aos vizinhos que havia dado um ch para ela dormir. Depois de algumas horas, Divina voltou  casa de Rosa ao lado da me e de um amigo e fingiu demonstrar surpresa ao encontrar o corpo.

Os parentes desconfiavam que Divina fosse autora do crime, mas, para preservar a matriarca da famlia, ela no foi acusada. Divina continuou aplicando golpes com os documentos da irm falecida e convenceu sua me a assinar uma procurao para receber uma penso pela morte de Rosa Maria.

Em 2001, depois do falecimento de sua me, os familiares decidiram denunci-la pela morte de Rosa Maria. Ela confessou o crime, mas conseguiu fugir enquanto aguardava o processo em liberdade. Nessa poca ela j tinha duas condenaes por furto.

Alvino dos Santos, noivo de Rosa, inconformado com o ocorrido, disse que nem um monstro mataria uma irm e o sobrinho. "Tenho uma cicatriz que vou levar para o resto da vida", concluiu.

Gildelene Vieira Leite, cunhada da vtima, contou que certa vez Divina virou-se para um cobrador e disse o seguinte: "A Rosa morreu, defunto no paga a conta". Gildelene ainda falou em tom de indignao: "Como que uma pessoa criminosa, uma pessoa perigosa dessas fica solta? Se matou a irm grvida, vai ter sentimentos com uma pessoa de fora?"

Sebastiana Gonalves, tia de Rosa, foi alm: "A Divina  uma psicopata. Se voc fizer sua assinatura, ela faz igual, idntica".

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Quando foi localizada em So Paulo, Divina ainda tentou escapar da polcia apresentando uma identidade falsa. Fontes: programa Linha Direta, Rede Globo, "Inimiga ntima", exibido em 29/11/2007 e 6/12/2007; e <http://redeglobo.globo.com/Linhadireta>, postado em 29/11/2007 e em 6/12/2007.

Um caso mais detalhado: O assassinato de Daniella Perez

Guilherme de Pdua Thomaz - "Ambio, egocentrismo, megalomania, sede de poder e sucesso". O pas inteiro, chocado e revoltado, acompanhou passo a passo a tragdia do assassinato de uma jovem e talentosa atriz, adorada por uma legio de fs. Um crime que teve repercusses mundiais e que dificilmente ser apagado da memria do pblico brasileiro.

Na noite do dia 28 de dezembro de 1992, Daniella Perez, de 22 anos, foi brutalmente assassinada a poucos quilmetros do estdio Globo Tyccon, num matagal na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Segundo a percia, ela foi morta com 16 golpes de um instrumento "prfuro-cortante" (punhal), desferidos no pescoo e no trax, perfurando a traquia, o pulmo e o corao.

O crime ocorreu pouco depois da gravao da novela De Corpo e Alma, de autoria de Gloria Perez (me de Daniella), exibida pela Rede Globo. Na trama, Daniella interpretava a doce e romntica bailarina Yasmin, namorada do motorista ciumento e macho Bira, interpretado por Guilherme de Pdua Thomaz, de 23 anos. Algumas horas
aps gravar sua ltima cena, o corpo da atriz foi encontrado, depois que os moradores de um condomnio prximo, ao avistarem dois carros parados em local to suspeito, acionaram a polcia.

Um dos moradores teve o cuidado de anotar as placas dos carros, o que levou a polcia, na manh do dia seguinte, a bater na porta do principal suspeito. Tratava-se do prprio Guilherme

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de Pdua, um assassino frio e calculista, capaz de ir "prestar solidariedade" na delegacia  Gloria Perez e ao ator Raul Gazolla, marido de Daniella, antes de ser descoberto.

O delegado que conduziu as investigaes, Cidade de Oliveira, disse que Guilherme ao dar seu depoimento negou a autoria do crime, mas devido s provas evidenciais acabou confessando que matou Daniella. O delegado tambm afirmou que durante todo o interrogatrio Guilherme estava calmo, tranquilo e relatou o assassinato sem esboar reao alguma. A confisso foi registrada na presena de alguns advogados e logo depois, ainda na delegacia, Guilherme insinuou que sua esposa Paula de Almeida Thomaz, de 19 anos, era cmplice do crime. Ambos foram presos e aguardaram o julgamento.

De acordo com os policiais, Paula reconheceu que participou da barbrie apenas informalmente: seus advogados no permitiram que ela assinasse a confisso. Depois disso, Paula jamais admitiu ter matado Daniella, nem sequer ter estado no local do crime. Contou simplesmente uma histria improvvel: naquele dia teria ficado por mais de sete horas passeando pelos corredores de um shopping center na Barra da Tijuca. No entanto, durante essas longas horas, Paula no comprou nada e tambm no foi vista por ningum.

Durante o processo, circularam vrias verses que tentavam explicar o motivo da morte de Daniella. Muitas delas fantasiosas e totalmente absurdas, que, alm de denegrirem a imagem da atriz, acabaram por confundir o grande pblico e suscitar a imaginao de muitos. Isso ocorreu principalmente porque depois da sua confisso, Guilherme conseguiu na justia o direito de s voltar a ser interrogado em juzo. Assim, durante cinco anos, ele disse o que quis e da forma que lhe foi mais conveniente, com o claro intuito de desviar o foco das verdadeiras motivaes do crime. As verses sem cabimento de Guilherme. 

Na confisso, Guilherme conta que matou Daniella porque ela o assediava de todas as formas possveis, e estava ameaando

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destru-lo profissionalmente. Usando de artifcios, ela o teria levado para um sinistro matagal, onde tentou beij-lo  fora. Diante da recusa, bateu nele de modo to violento que, assustado, ele se defendeu usando a tesoura que casualmente encontrou no carro.

Num momento posterior, deu outra explicao para os golpes que vitimaram a atriz: depois de se defender do ataque de Daniella, aplicando-lhe uma "gravata", vendo-a desfalecida e acreditando que poderia morrer, ele teria tentado salv-la fazendo uma traqueostomia com uma tesoura.

Na ltima verso, Paula aparece como nica responsvel pelo crime: para provar a ela que no tinha nenhum envolvimento com Daniella, Guilherme articulou o encontro, permitindo que Paula ficasse escondida no banco de trs do seu automvel para ouvir a conversa dos dois, sem que Daniella tivesse conhecimento disso. Durante a conversa, Paula, enfurecida de cimes, saiu do carro e atacou Daniella, tentando atingi-la primeiro com uma chave de fenda e, no conseguindo perfur-la com esse instrumento, teria voltado ao carro e apanhado uma tesoura. De acordo com seu depoimento, na tentativa de apartar a briga das duas, Guilherme colocou o brao ao redor do pescoo de Daniella, aplicando-lhe acidentalmente a "gravata" que a fez desfalecer. Julgando-a morta, Paula aplicou os golpes de tesoura, para que o crime pudesse ser atribudo a fs enlouquecidos.

Crime passional ou premeditado?

Precisamos ter em mente que, em todas as verses e suas variantes, Guilherme teve como propsito convencer a todos que o crime ocorreu "sob violenta emoo", configurando-se num crime passional. Para a defesa, essa estratgia baseada em histria in-verossmil faria com que a pena fosse atenuada e, logo depois do julgamento,Guilherme estaria em liberdade.

A pretenso, porm, no resistiu  comprovao dos fatos. Ficou provado que o crime foi premeditado, ou seja, Paula e Guilherme

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saram de casa com o firme propsito de matar a jovem atriz. Ao contracenar com Daniella naquela noite, Guilherme j sabia que iria mat-la, quando, onde e como iria faz-lo.

 importante esclarecer que Daniella nunca assediou Guilherme de Pdua. Pelo contrrio, atores e funcionrios da Globo disseram que era Guilherme quem assediava Daniella. Ele a procurava constante e insistentemente para se queixar dos seus problemas, fazendo-se de vtima, a ponto de se tornar uma pessoa totalmente inconveniente.

Na noite do crime, Guilherme tambm foi visto por vrias vezes "cercando" a atriz, batendo na porta do camarim feminino, entregando-lhe bilhetes.

Para entender isso,  preciso expor ao leitor a verdade dos fatos, relatados aqui de forma breve, todos comprovados em juzo:

Daniella foi vtima de uma emboscada, conduzida  fora, depois de espancada e desacordada, ao matagal ermo e escuro onde encontraram seu corpo.

No dia do assassinato, Guilherme usou o carro de seu sogro (um Santana) e adulterou com perfeio a placa do veculo: transformou a letra "L" em "O". Ele saiu dos estdios de gravao da Globo dirigindo o Santana e com Paula escondida sob um lenol no banco traseiro. Guilherme parou logo em seguida no acostamento do posto de gasolina Alvorada, que ficava cerca de 300 metros dali. Ele esperou o momento certo de agir.

Pouco depois, entre 21 h e 21h30, Daniella, que tambm havia deixado os estdios da Globo, entrou no mesmo posto para abastecer seu carro (um Escort), sem ter a mnima noo de que seus assassinos estavam to prximos. Na sada do posto, Daniella recebeu uma "fechada" de Guilherme e os dois saram de seus carros. Guilherme, ento, desferiu um soco violento no rosto da atriz, aplicou-lhe uma "gravata" e a jogou para dentro do Santana. Nesse momento, Paula saiu do banco de trs do Santana e assumiu a direo do carro. Guilherme, dirigindo o Escort, seguiu Paula at o local onde Daniella foi assassinada da forma mais cruel possvel.

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Segundo a percia, das 16 perfuraes encontradas no corpo de Daniella, quatro foram na regio da garganta e 12 no trax; oito delas estavam concentradas na rea do corao:

Havia uma inteno visvel de se atingir um rgo nobre. No h nem como argir de que seria uma coisa impensada: foi intencional. E tambm ningum adultera uma placa de um automvel num crime passional. A placa de um automvel s  adulterada para uma prtica ilcita, seja ela qual for (...)  um crime indubitavelmente premeditado, praticado de uma forma brutal. Talvane de Moraes, mdico legista, diretor da Polcia Tcnica do Rio de Janeiro. Programa Sem Censura, TVE Brasil, em 4/1/1993.

O casal ainda passou num posto para lavar as manchas de sangue que ficaram no interior do Santana e depois foi para casa dormir. Tudo foi programado, planejado e arquitetado, nos detalhes mais srdidos. Por que Daniella foi morta? Qual a verdadeira motivao do crime?

Os motivos alegados por Guilherme, de que matou Daniella porque ela o assediava, alm de serem totalmente inverdicos, podem causar revolta. No entanto, a verdadeira motivao do crime est clara ao analisarmos a personalidade e o comportamento do assassino.

Uma pessoa arrogante, descontrolada, agressiva, de convvio difcil, ambiciosa, vaidosa, exibicionista, que no se conformava em fazer papis secundrios. Assim foi definido Guilherme de Pdua, por seus prprios colegas de profisso. Ele, que at ento no passava de um ator medocre, e que mal saa do anonimato ao atuar numa novela de grande audincia, j se sentia um "ser superior". Estava, ali, a grande chance de saltar para o universo

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da fama, do sucesso e do poder, to almejado. Antes, porm, seu personagem Bira dependia de um roteiro que no estava previsto: passar de simples coadjuvante a protagonista.

O ambicioso projeto de ascenso profissional de Guilherme, ser o astro principal da novela das oito da Rede Globo, fracassou. Ele mesmo chegou a declarar  imprensa e em depoimento  justia que, na semana do crime, pela primeira vez, desde o incio da novela De Corpo e Alma, ao receber o bloco de cenas, verificou que seu personagem estaria ausente em dois captulos. Isso lhe provocou muita tenso, e de forma insistente e assediadora, procurou Daniella para saber por que seu papel estava se esvaziando. Afinal, como ele mesmo declarou em juzo e  reprter Lucileia Cordovil, numa demonstrao explcita de manipulao, havia procurado se tornar amigo de Daniella por interesse: "At porque ela era filha da autora da novela, at no enredo ela ajudava".

No decorrer da novela, Guilherme usou de todos os recursos manipulatrios possveis para persuadir Daniella a influenciar Gloria Perez a reescrever o seu enredo. No conseguiu e, numa reao de ira frente  frustrao, premeditou, planejou e executou de forma maquiavlica o assassinato da atriz.

Na realidade, a tendncia natural de todos  sempre buscar explicaes lgicas que justifiquem um ato to cruel. No entanto, para pessoas com mentes perversas, qualquer motivo  motivo.

Essa pessoa (Guilherme) no tem a conscincia que ns temos, que  necessria para que a gente viva em sociedade: a conscincia do direito dos outros, a conscincia do direito bsico a existir. Uma pessoa com esse tipo de mente, com esse tipo de formao mental  um "monstro", no  um ser humano normal e tem que estar isolado da sociedade mesmo!  um "monstro" moral (...) no funciona como as outras pessoas funcionam. Parece que  gente, mas no  gente. A mente funciona de uma maneira completamente torta. As razes, os porqus (do assassinato), esse tipo de porqu  completamente aleatrio (...) No  um tipo de

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crime que tenha uma explicao dentro da lgica natural do ser humano. Luiz Alberto Py, psicanalista, programa Sem Censura, TVE Brasil, em 4/1/1993.

Talvane de Moraes, psiquiatra e diretor da Polcia Tcnica, esclareceu no mesmo programa que, pelos anos de experincia, no teve dvidas de que o assassino sabia exatamente o que estava fazendo. Portanto, no haveria nenhuma possibilidade de Guilherme ser um doente mental. Alm disso, o fato de Guilherme de Pdua no ser uma pessoa desconhecida, mas sim um companheiro de trabalho, implica que ele estava se utilizando da confiana da vtima, o que agrava a caracterstica monstruosa da personalidade de Guilherme.

Guilherme no tribunal

Ao longo do julgamento no 1e Tribunal do Jri, Guilherme foi irnico, cnico e chegou a interromper, corrigir e at chamar a ateno do juiz Jos Geraldo Antnio.

Familiares e amigos da atriz se chocaram com a postura do ru durante seu depoimento. Utilizando-se de "representaes" teatrais, Guilherme chegou a mudar o tom de voz para "interpretar" as vozes de Daniella e Paula, Todos os presentes ficaram em silncio, estarrecidos quando ele "imitou" como Daniella teria cado ao ser vitimada.

Ele foi frio, no demonstrou arrependimento algum. Foi absolutamente debochado e petulante com o juiz. Fiquei chocada. Como ator, no entanto, ele foi excelente. Vera Lcia Alves, presidente do Movimento pela Vida.
Como um trao marcante de personalidade de Guilherme, destaco a declarao explcita de indiferena, frieza e cinismo:

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O seio esquerdo de Daniella ficou desnudo. Aquilo me chocou. Cobri o seio, ajeitei os braos que estavam para cima, para que no ficasse to feia. Eu sabia que ela seria fotografada depois. Guilherme de Pdua Fontes: jornal O Globo, 23/1/1997; jornal O Dia, 24/1/1997. 

A sentena de Guilherme de Pdua

Dia 27 de janeiro de 1997, Guilherme foi julgado e condenado pelo jri a 19 anos de priso por homicdio duplamente qualificado: Inciso I, motivo torpe, e Inciso IV, sem chances de defesa da vtima. Ao ler a sentena, o juiz Jos Geraldo Antnio afirmou que:

A conduta do ru exteriorizou uma personalidade violenta, perversa e covarde quando destruiu a vida de uma pessoa indefesa, sem nenhuma chance de escapar ao ataque de seu algoz, pois alm de desvantagem na fora fsica o fato se desenrolou em local onde jamais se ouvia o grito desesperador e agonizante da vtima. Demonstrou o ru ser uma pessoa inadaptada ao convvio social por no vicejarem no seu esprito os sentimentos de amizade, generosidade e solidariedade, colocando acima de qualquer outro valor a sua ambio pessoal.

O juiz observou ainda que Guilherme s no foi condenado a mais tempo porque tratava-se de um ru primrio. O veredicto, acompanhado por centenas de pessoas, foi aplaudido de p.

Quatro meses depois, Paula foi condenada a 18 anos e seis meses. Por nenhum momento Guilherme demonstrou qualquer sentimento de arrependimento, de culpa ou de considerao para com a vtima ou por algum de sua famlia. Ao contrrio, ele aproveitou de todos os espaos obtidos na imprensa para se enaltecer, num gesto explcito de exibicionismo e vaidade.

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Depois da morte de sua filha, a escritora Gloria Perez iniciou um movimento para mudar o Cdigo Penal Brasileiro. Ela colheu mais de um milho de assinaturas que fez incluir o homicdio qualificado na lista dos crimes hediondos. Estes recebem tratamento legal um pouco mais severo e impossibilitam o pagamento de fiana e o cumprimento da pena em regime aberto ou semi-aberto. Como o assassinato de Daniella foi anterior  instaurao da nova lei, Paula e Guilherme foram beneficiados e cumpriram menos de 1/3 da pena em regime fechado.

Em 1999, sete anos depois do crime, Guilherme e Paula foram soltos e atualmente j so considerados rus primrios. Sem comentrios. Di demais a sapatilha quieta, presa na parede. O lugar na mesa que sempre vai estar vazio. Os silncios, onde antes eram msica e risos de alegria. Gloria Perez (Carta lida na Missa de 15 anos da morte de Daniella, em 28/12/2007). Fontes: revista Veja, Ed. Abril, 28/8/1996; Jornal Nacional, Rede Globo, exibido em 29/12/1992, vdeo capturado do YouTube, <www.youtube.com. br/ricardozanon>, postado em 3/11/2007; programa Fantstico, Rede Globo, exibido em 25/8/1996, vdeo capturado do YouTube, <www.youtube.com. br/ricardozanon>, postado em 15/11/2007; programa Fantstico, Rede Globo, exibido em 30/12/2007; vdeo capturado do YouTube, <www.youtube.com.br/madlovis>, postado em 30/12/2007; vdeos capturados do YouTube e postados por Gloria Perez <www.youtube.com.br/gfperez>, entre 12/1/2007 e 12/4/2008; autos do processo; entrevista de Guilherme de Pdua  reprter Lucilia Cordovil, no presdio de gua Santa; entrevista de Guilherme de Pdua  Jorge Tavares: jornal O D/a, 7/1/1993 e jornal O Globo, 8/1/1993.

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Captulo 8
PSICOPATAS PERIGOSOS DEMAIS

Como j vimos, os psicopatas no so necessariamente assassinos. Eles geralmente esto envolvidos em transgresses sociais como trfico de drogas, corrupo, roubos, assaltos  mo armada, estelionatos, fraudes no sistema financeiro, agresses fsicas, violncia no trnsito etc. Porm, na maioria das vezes no so descobertos e nem penalizados pelos seus comportamentos ilcitos. Um exemplo tpico desses ltimos  o abuso fsico e psicolgico de mulheres e de crianas, que infelizmente se constitui numa transgresso de difcil controle social. Se existe uma "personalidade criminosa", esta se realiza por completo no psicopata. Ningum est to habilitado a desobedecer s leis, enganar ou ser violento como ele.

 importante ter em mente que todos os psicopatas so perigosos, uma vez que eles apresentam graus diversos de insensibilidade e desprezo pela vida humana. Porm, existe uma frao minoritria de psicopatas que mostra uma insensibilidade tamanha que suas condutas criminosas podem atingir perversidades inimaginveis. Por esse motivo eu costumo denomin-los de psicopatas severos ou perigosos demais. Eles so os criminosos que mais desafiam a nossa capacidade de entendimento, aceitao e adoo de aes preventivas contra as suas transgresses. Seus crimes no apresentam motivaes aparentes e nem guardam relao dreta com situaes pessoais ou sociais adversas.

 O psiquiatra canadense Robert Hare dedicou anos de sua vida profissional reunindo caractersticas comuns de pessoas com esse tipo de perfil, at conseguir montar um sofisticado questionrio denominado psychopathy checklist, ou PCL. Essa escala se constitui no mtodo mais fidedigno na identificao de psicopatas

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em populaes prisionais e hoje  amplamente utilizada em diversos pases no contexto forense.

Segundo Hare, a prevalncia desses indivduos na populao carcerria gira em torno de 20%. No entanto, essa minoria  responsvel por mais de 50% dos crimes graves cometidos quando comparados aos outros presidirios. Alm disso, tudo indica que esses nmeros tambm so vlidos para os psicopatas que se encontram fora do sistema penitencirio.

 impressionante, apesar de no ser surpreendente, a rea-o apresentada pelo psicopata severo frente a situaes que envolvem violncia fsica, intimidao ou provocaes. Eles sempre demonstram um misto de satisfao, prazer, sensao de poder e indiferena. No entanto, so incapazes de sentir qualquer tipo de arrependimento perante o mal que causaram s suas vtimas.

No caso especfico da violncia sexual praticada por psicopatas, a situao chega a ser assustadora. Tudo indica que os estupradores em srie, em sua grande maioria, so psicopatas severos. Seus atos so o resultado de uma combinao muito perigosa: a expresso totalmente desinibida de seus desejos e fantasias sexuais, #seu anseio de controle e poder e a oerceo de aue suas vtimas so meros objetos destinados a lhe proporcionar prazer e satisfao imediata. Puro exerccio de luxria grotesca!

Entre 1997 e 1998 o motoboy Francisco de Assis Pereira, tambm conhecido como o "manaco do parque", estuprou, torturou e matou pelo menos 11 mulheres no Parque do Estado, situado na regio sul da cidade de So Paulo.

Aps ser capturado pela polcia, o que mais impressionou as autoridades foi como um homem feio, pobre, de pouca instruo e que no portava armas conseguiu convencer vrias mulheres - algumas instrudas e ricas - a subir na garupa de uma moto e ir para o meio do mato com um sujeito que elas tinham acabado de conhecer.

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No interrogatrio, com fala mansa e pausada, Francisco relatou que era muito simples: bastava falar aquilo que elas queriam ouvir. Ele as cobria de elogios, identificava-se como um fotgrafo de moda, oferecia um bom cache e convidava as moas para uma sesso de fotos em um ambiente ecolgico. Dizia que era uma oportunidade nica, algo predestinado, que no poderia ser desperdiado.

Com igual tranquilidade, o ru confesso tambm narrou como matou suas vtimas: com o cadaro dos sapatos ou com uma cordinha que s vezes levava na pochete. "Eu dava meu jeito", complementou. Nos vrios depoimentos, frases do tipo "Matei. Fui eu", "Sou ruim, gente. Ordinrio" ou "No venha comigo... No aceite meu convite... Se voc vier vai se dar mal" fizeram com que o pas mergulhasse na mente de um assassino brutal.

Em 2002, o serial killer foi condenado a mais de 260 anos de recluso, no entanto, como reza a lei, ele cumprir no mximo trinta anos. Atualmente Francisco est no presdio de segurana mxima de Ita, na regio de Avar, interior de So Paulo.

Francisco, que j foi professor de patinao, tinha tudo para passar despercebido: era afvel e simptico, adorado pelas crianas e fazia o estilo "boa praa" ou "gente fina". Disfarce puro! Ali se escondia um matador cruel e irrefrevel. Fontes: revista Veja, ed. 1.559, Ed. Abril, 12/8/1998; Veja Em Dia, disponvel em <www.vejaonline.abril.com.br>, capturado em 24/6/2008.
Em relao  violncia domstica, os estudos realizados por Robert Hare com homens que agrediram suas esposas revelaram que 25% deles eram psicopatas. Podemos observar que esses ndices so bastante semelhantes ao nmero de psicopatas presentes no sistema carcerrio. Isso demonstra mais uma vez que, dentro ou fora da priso, a agressividade e a violncia so marcas registradas desses indivduos.

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Como exemplo de violncia domstica  importante deixar registrado o caso de Maria da Penha Maia, que deu origem  Lei da Violncia Domstica e Familiar Contra a Mulher - tambm conhecida como Lei Maria da Penha -, sancionada em agosto de 2006.

Em 1983 a farmacutica Maria da Penha Maia Fernandes sofreu duas tentativas de homicdio por parte de seu marido, o professor universitrio Marco Antnio Viveiros. Na primeira tentativa, Maria da Penha foi atingida por um tiro nas costas, que a deixou paraplgica. Como se no bastasse, duas semanas depois, Marco Antnio tentou eletrocut-la durante o banho.

Na ocasio ela tinha 38 anos e trs filhas pequenas. A investigao do crime comeou em junho de 1983, mas a denncia s foi apresentada ao Ministrio Pblico Estadual em setembro de 1984. Somente em outubro de 2002, quase vinte anos depois, Viveiros foi parar atrs das grades.

Ao longo desses anos todos Maria da Penha travou uma luta incessante para punir seu agressor, recorrendo inclusive  Justia Internacional - Comisso Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH) da Organizao dos Estados Americanos (OEA) -, que acatou, pela primeira vez, um crime de violncia domstica.

Em razo da demora no processo contra Marco Antnio, o Estado brasileiro foi obrigado pela OEA a tomar medidas efetivas para que se fizesse justia, alm de pagar uma indenizao  vtima. Viveiros passou apenas dois anos na priso e atualmente cumpre o restante da pena em liberdade.

Aps as tentativas de homicdio, Maria da Penha comeou a atuar em movimentos sociais contra a violncia e a impunidade, e hoje  coordenadora de estudos, pesquisas e publicaes da Associao de Parentes e Amigos de Vtimas de Violncia (APAVV), no Cear.

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 importante assinalar que no estou afirmando que Marco Antnio Viveiros seja um autntico psicopata. Porm, o seu comportamento no caso relatado sugere que o seu proceder guarda estreita semelhana com indivduos portadores de psicopatia. Fontes: G1 - Portal de Notcias da Globo <www.g1.com.br>, postados entre 18/6/2006 e 13/3/2008; Jornal Nacional, Rede Globo, exibido em 7/7/2008.

Psicopatia e reincidncia criminal

No  preciso ser vidente nem paranormal para perceber que pessoas com histrico de crimes violentos representam uma ameaa muito maior para a sociedade do que os criminosos que no apresentam a violncia como uma marca registrada em seus crimes. Uma boa maneira de "prever" o que uma pessoa poder fazer no futuro  saber o que ela fez no passado. Apesar de parecer algo emprico demais, essa informao pode ser tomada como base para que o sistema de Justia Criminal tome decises pertinentes a penas e concesso de benefcios para criminosos.

Estudos revelam que a taxa de reincidncia criminal (capacidade de cometer novos crimes) dos psicopatas  cerca de duas vezes maior que a dos demais criminosos. E quando se trata de crimes associados  violncia, a reincidncia cresce para trs vezes mais.

Por tudo o que foi visto neste captulo, distinguir os criminosos mais violentos e perigosos dos demais detentos pode trazer benefcios tanto para o sistema penitencirio interno quanto para a sociedade como um todo. No podemos esquecer que os psicopatas so manipuladores inatos e que, em funo disso, costumam utilizar os outros presidirios para a obteno de vantagens pessoais. Muitas vezes, assistindo aos noticirios da TV, pude observar
       
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como as rebelies nos presdios tm a orquestrao dos psicopatas. Eles fazem com que alguns prisioneiros se tornem refns indefesos no processo de negociao com as autoridades.

No sistema carcerrio brasileiro no existe um procedimento de diagnstico para a psicopatia quando h solicitao de benefcios, reduo de penas ou para julgar se o preso est apto a cumprir sua pena em um regime semi-aberto. Se tais procedimentos fossem utilizados dentro dos presdios brasileiros, certamente os psicopatas ficariam presos por muito mais tempo e as taxas de reincidncia de crimes violentos diminuiriam significativamente. Nos pases onde a escala Hare (PCL) foi aplicada com essa finalidade, constatou-se uma reduo de dois teros das taxas de reincidncia nos crimes mais graves e violentos. Atitudes como essas acabam por reduzir a violncia na sociedade como um todo.

A psiquiatra forense Hilda Morana, responsvel pela traduo, adaptao e validao do PCL para o Brasil, alm de tentar aplicar o teste para a identificao de psicopatas nos nossos presdios, lutou para convencer deputados a criar prises especiais para eles. A ideia virou um projeto de lei que, lamentavelmente, no foi aprovado.

Um caso que exemplifica a importncia de medidas como as descritas acima  o de Francisco Costa Rocha, mais conhecido como "Chico Picadinho", autor de dois dos crimes de maior repercusso da histria policial brasileira. Em 1966, Francisco, que at ento parecia ser uma pessoal normal, matou e esquartejou a bailarina Margareth Suida em seu apartamento no centro de So Paulo. Chico foi condenado a 18 anos de recluso por homicdio qualificado e mais dois anos e seis meses de priso por destruio de cadver. Em junho de 1974, oito anos depois de ter cometido o primeiro crime, Francisco foi libertado por bom comportamento. No parecer para concesso de liberdade condicional feito pelo ento Instituto de Biotipologia Criminal constava que Francisco tinha

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"personalidade com distrbio profundamente neurtico", excluindo o diagnstico de personalidade psicoptica. No dia 15 de outubro de 1976, Francisco matou ngela de Souza da Silva com os mesmos requintes de crueldade e sadismo do seu crime anterior. Chico foi condenado a trinta anos de recluso e permanece preso at hoje.

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CAPITULO 9
MENORES PERIGOSOS DEMAIS


Sempre que nos deparamos com crimes brbaros cometidos por crianas somos tomados por um sentimento de grande perplexidade. Isso acontece porque, como seres humanos, temos grande dificuldade em acreditar que existam crianas genuinamente ms. Crianas costumam ser associadas de forma universal  bondade,  pureza e  ingenuidade.

Reconhecer que a maldade existe de fato  uma realidade com a qual no gostamos de lidar. Quando estamos diante de crianas, essa descrena toma propores muito maiores. Ficamos estarrecidos com aquilo que desafia a racionalidade humana e foge  compreenso do que consideramos ser uma criana ou uma pessoa normal.

Como exemplo e motivo de reflexo, podemos observar alguns casos de um passado recente:

Em fevereiro de 1993, os garotos Jon Venables e Robert Thompson, ambos com 10 anos de idade, assassinaram brutalmente James Bulger (de apenas 2 anos), perto de Liverpool, Inglaterra. Esse foi um dos crimes que mais chocou a Gr-Bretanha e o mundo no sculo passado. James foi sequestrado, abusado, torturado e morto com golpes de pedras e ferros na cabea. Os assassinos tentaram esconder o corpo no fundo de um poo, mas acabaram forjando um desastre de trem e largaram o corpo sobre os trilhos da linha frrea. O beb foi cortado ao meio. Jon e Robert foram julgados como adultos e condenados  priso por prazo indeterminado, pela natureza brbara do crime. Sob protestos e indignao populares, em 2001, os assassinos foram soltos de forma sigilosa e com novas identidades.

 Se a Inglaterra foi dura demais em condenar os dois assassinos com idades to precoces ou se afrouxou excessivamente ao libert-los (mesmo sob vigilncia policial), ainda  motivo de muitos debates e controvrsias. No entanto, em nosso ntimo, no podemos deixar de fazer algumas indagaes:

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Como dois indivduos de apenas 10 anos, deliberadamente, puderam planejar um crime com tamanha crueldade?  possvel que eles no tivessem a menor ideia do que estavam fazendo? Ser que toda a trama srdida, requintada de maldade e de total frieza "simplesmente" foi fruto de mentes imaturas e inconsequentes? Ouso dizerque, independentemente da idade dos assassinos, as respostas se resumem ao fato de serem garotos perversos. Vem  tona novamente a velha histria do sapo e do escorpio:  a natureza!

Nos Estados Unidos volta e meia a populao se defronta com casos que envolvem crianas que matam de forma impiedosa. Em 1998 um pesadelo se abateu sobre Jonesboro, uma pequena cidade no Arkansas. Mitchell Johnson, de 13 anos, e Andrew Golden, de apenas 11, foram responsveis por um tiroteio em sua escola que matou cinco e feriu gravemente 11 pessoas. Eles chegaram camuflados, fortemente armados e fizeram soar o alarme de incndio para obrigar estudantes e professores a sarem do edifcio. Esconderam-se no bosque em frente e dispararam indiscriminadamente 27 tiros com as armas que tinham roubado da casa do av de Golden. Alm da frieza explcita, Johnson e Golden premeditaram o massacre.

O Brasil, infelizmente, tambm faz parte desse cruel panorama.  estarrecedor observar que crianas que deveriam estar brincando ou folheando livros nas escolas trafiquem drogas, empunhem armas e apertem gatilhos sem qualquer vestgio de piedade. Lgico que no podemos negar que muitas delas so influenciadas pelo meio social ao redor, no entanto outras crianas possuem uma inclinao voraz e inata ao crime. Assim como adultos psicopatas, crianas com essa natureza so desprovidas de sentimento de culpa ou remorso, caractersticas inerentes s pessoas "de bem". So ms em suas essncias.

Idade penal e idade biolgica

Em fevereiro de 2007 um crime monstruoso chocou todo o pas. O menino Joo Hlio Fernandes, de apenas 6 anos, foi arrastado

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at a morte por mais de sete quilmetros pelas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro. O crime ocorreu depois que o carro em que Joo se encontrava foi assaltado.

A me e a irm mais velha de Joo conseguiram escapar, mas o garoto ficou preso ao cinto de segurana, enquanto os criminosos arrancavam com o carro em alta velocidade.
Os bandidos ignoraram todos os apelos feitos por pedestres e motoristas que berravam indicando que havia uma criana presa do lado de fora do carro. Segundo uma testemunha, eles andavam em ziguezague com o veculo tentando se livrar do menino. Aps a priso dos cinco envolvidos, constatou-se que um deles era menor (16 anos).

Esse crime provocou consternao, revolta e mobilizou toda a sociedade pela sua brutalidade. O Brasil enfurecido protestou contra a violncia e o descaso das autoridades. Em ocasies como essas, o clamor social acaba demandando atitudes por parte dos nossos legisladores, com o intuito claro de dar uma satisfao imediata  sociedade. No  de hoje que vrios projetos so apresentados com o objetivo de mudar as leis que cuidam de menores infratores, mas que ao final caem no esquecimento.

Em resposta a essa comoo, aquilo que estava guardado na gaveta pulou para a ordem do dia.

Entre essas medidas podemos destacar as seguintes:
1. Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/1993, de autoria de Benedito Domingues, que visa a reduo da maioridade penal de 18 para 16 anos. Essa proposta est pronta para pauta de votao.

2. Projeto de Lei ns 2847/00, do deputado Darcsio Peron-di (PMDB-RS), que altera o Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA). Seu objetivo  aumentar o tempo mximo
de internao de adolescentes que entram em conflito com a lei penal. O prazo, que atualmente  de trs anos, passaria para oito anos quando se tratasse

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dos seguintes crimes: trfico de drogas e quando houver "grave ameaa ou violncia  pessoa" (homicdios e crimes hediondos como sequestro, latrocnio e estupro).

O projeto, que j foi aprovado pela Comisso de Segurana Pblica da Cmara dos Deputados, ainda est em tramitao e divide opinies. Seu relator foi o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). 3. Projeto de Lei do Executivo que visa reformular a aplicao de medidas socioeducativas. A principal mudana  a possibilidade de se estabelecer medidas legais especficas para cada menor.

Seja qual for o ngulo que utilizamos para avaliar e discutir o estabelecimento da idade penal em nossa sociedade, sempre nos deparamos com conflitos ideolgicos, legais ou mesmo cientficos que, na maioria das vezes, emperram a tomada de decises que poderiam beneficiar toda a sociedade. De fato, o assunto  de extrema complexidade e essas discusses vm de muito tempo.

Apesar de todo o desenvolvimento racional dos seres humanos, existe at hoje uma grande dificuldade em se estabelecer o momento exato a partir do qual o indivduo pode ser considerado responsvel por suas aes. E, a partir da, ser legalmente responsabilizado pelo que faz ou deixa de fazer. O desafio para se fixar uma idade mnima para a imputao penal  to complexo que em todos os pases do mundo  motivo de muita polmica e acaloradas discusses.

Para que tenhamos uma ideia da dimenso do problema, podemos observar as diversas idades mnimas para responsabilidade criminal em diferentes pases:

 Austrlia e Sua - 7 anos;
 Equador-12 anos;
 Dinamarca, Finlndia e Noruega - 15 anos;
 Argentina, Chile e Cuba - 16 anos;

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 Polnia - 17 anos;
 Colmbia, Luxemburgo e Brasil - 18 anos;
 EUA- em alguns estados, a partir dos 6 anos de idade. Cabe ao juiz decidir se o jovem infrator dever ser julgado como adulto ou no;
 Inglaterra - desde 1967 no tem idade mnima preestabelecida. Uma criana de 10 anos (ou menos) pode ser julgada como adulto, dependendo da gravidade do crime e de acordo com os costumes do prprio pas.
A prpria ONU (Organizao das Naes Unidas), atravs de seu rgo destinado  infncia e  adolescncia (a Unicef), recomenda em seu manual que a maioridade penal se inicie entre 7 e 18 anos. Convenhamos que uma margem de 11 anos (entre a menor e a maior idade penal) demonstra, de forma clara, toda a incerteza ao redor do tema.

No podemos esquecer que a necessidade de adotarmos uma idade penal mnima tem como base a ideia - universalmente aceita - de que crianas no possuem discernimento sobre o certo e o errado. Alm do mais, elas ainda no desenvolveram controle adequado sobre seus impulsos. Dessa forma, crianas no podem ser culpabilizadas por
suas atitudes ilcitas. Por outro lado, existe tambm unanimidade em responsabilizar adultos sadios por seus crimes.

 O dilema surge exatamente "no meio do caminho", entre a criana sem discernimento e o adulto responsvel: a adolescncia. O porqu da dificuldade em se estabelecer a tal idade penal mnima me parece clara: a transio da criana inconsequente (sem discernimento) e o adulto responsvel (ciente de seus atos)  um processo contnuo, que faz parte do desenvolvimento psquico. Assim,  impossvel se estabelecer uma idade padronizada para todos, uma vez que as pessoas amadurecem e se desenvolvem de forma e em tempos distintos.

O Brasil, como outras inmeras naes, adota os 18 anos como maioridade penal. Ou seja, idade em que, diante da lei, um

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jovem passa a responder inteiramente por seus atos, como um cidado adulto. Entre 12 e 17 anos, o jovem infrator no poder ser encaminhado a um sistema penitencirio comum, mas sim dever receber tratamento diferenciado daquele do adulto. As penalidades a eles imputadas so chamadas de medidas socioeducativas. J as crianas (at 12 anos) so inimputveis, ou seja, no podem ser julgadas ou punidas pelo Estado.

A maioridade penal hoje estabelecida se deve ao fato de que alguns pesquisadores e muitos legistas abraam a tese de que durante a adolescncia o crebro est sujeito a intensas transformaes biofsicas. Dessa forma, os comportamentos impulsivo, imediatista e explosivo dos adolescentes so explicados, em parte, pela imaturidade biolgica de seus crebros, o que impede que tenham um comportamento plenamente adequado. Embasada nesse pressuposto, a prpria psiquiatria ainda hoje no pode firmar o diagnstico de psicopatia antes dos 18 anos idade.

Por outro lado, pesquisadores que estudam especificamente personalidades infanto-juvenis postulam que algumas pessoas demonstram de maneira indubitvel possurem uma estrutura de personalidade problemtica ainda precocemente. Hoje em dia um jovem (criana ou adolescente) que apresenta caractersticas como insensibilidade, mentiras recorrentes, transgresses s regras sociais, agresses, crueldade etc. recebe o diagnstico de Transtorno da Conduta1 (antes conhecido como Delinquncia).

Por ser um transtorno infinitamente mais grave do que meras rebeldias ou traquinagens juvenis e que, na sua forma mais severa, se assemelha em muito s caractersticas psicopticas, vrios estudiosos defendem a possibilidade de se estabelecer o diagnstico de psicopatia antes mesmo dos 18 anos.
Corroborando tal hiptese, cientistas de diversos pases (EUA, Inglaterra, Canad, Austrlia etc.) vm testando uma verso adaptada do PCL-R (checklist de psicopatia) para jovens. A aplicao

1.     Vide Anexo C.

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do checklist em crianas e adolescentes com comportamentos frios e transgressores revelou que eles apresentam critrios de psicopatia semelhantes aos dos adultos, inclusive com os mesmos riscos elevados de reincidncia criminal.

De acordo com esse ponto de vista podemos afirmar que alguns indivduos menores de 18 anos, independentemente da maturidade biolgica de seus crebros, j possuem uma personalidade disfuncional. O comportamento e o temperamento desses jovens funcionam como os de pessoas plenamente desenvolvidas, que sabem perfeitamente distinguir o certo do errado e que compreendem o carter ilcito dos seus atos. Dessa forma, j deveriam ser responsabilizados e penalizados pelos seus comportamentos transgressores com o mesmo rigor das leis aplicadas aos adultos. Sem incorrer em qualquer erro, podemos afirmar que esses jovens (crianas ou adolescentes) so os responsveis por grande parte dos crimes brutais, que despertam nossos sentimentos de perplexidade e de repulsa frente s suas aes.

No meu entender, o que importa destacar  que os jovens que cometem tais tipos de delitos o fazem em funo da sua natureza fria e cruel. Como se no bastasse, eles so favorecidos por uma legislao especfica que atenua as suas punies, propiciando de forma "quase irresponsvel" a liberdade precoce e a reincidncia criminal.

Pelo Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA), o tempo mximo permitido em internaes na Fundao Casa (ex-Febem)  de trs anos, mesmo que o crime cometido tenha sido de natureza cruel. Acrescenta-se a isso o fato de que, aps ter cumprido as medidas socioeducativas, seus antecedentes criminais no ficam registrados. Se eles reincidirem aps os 18 anos, so considerados rus primrios. Isso implica dizer que suas fichas criminais voltam a ficar limpas, como se nunca tivessem cometido nenhum delito.

No se pode contestar que o ECA trouxe avanos no combate  prostituio, ao trabalho infantil e  violncia contra crianas. Mas sua parte punitiva se mostra excessivamente complacente

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com menores que cometem crimes graves. Geralmente so jovens que apresentam um perfil francamente psicoptico. A lei que se aplica aos jovens que podem e devem ser recuperados  a mesma que beneficia aqueles que praticam delitos graves.

O caso abaixo exemplifica de forma bem clara a deficincia dessas leis:

Em 1999 Rogrio da Silva Ribeiro matou o estudante de jornalismo Rodrigo Damus, de 20 anos, trs dias antes de completar 18 anos. Rogrio planejou o assalto e o executou com a cumplicidade de mais trs indivduos (todos maiores de idade). Motivo: obter dinheiro para realizar sua festa de aniversrio. Os trs esto presos aps terem sido condenados a penas de 22 anos. J Rogrio, como ainda era menor de idade no dia do crime, foi punido com medidas socioeducativas. Aps um ano e oito meses de internao na Febem (hoje Fundao Casa), Rogrio foi solto.

O documentrio Pro Dia Nascer Feliz, do cineasta Joo Jardim, lanado em 2006, mostra claramente a frieza e o sentimento de impunidade entre os jovens infratores no Brasil. Numa das cenas, uma jovem de 16 anos conta que assassinou uma colega porque esta a expulsou de uma festa. A menor matou a vtima com uma facada no corredor da escola apenas por vingana, sem qualquer vestgio de medo e de arrependimento. Ela sabia, assim como a maioria dos infratores graves menores, que sua pena seria no mximo de trs anos de internao. Quando questionada sobre seu ato, limitou-se a dizer: "Porque no d nada sendo de menor. Trs anos passam rpido!".

Qual a melhor soluo?

Por tudo o que foi exposto, no h dvidas de que estamos diante de um grande dilema. O que fazer quando criminosos perversos nesse pas so menores de idade?
Que medidas podem

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ser tomadas para que a sociedade no fique  merc de jovens de natureza to ruim? Reduzir a maioridade penal? Criar novas leis?

A resposta a essas questes deve surgir de uma sria discusso que envolva no s as cincias naturais e o direito, mas tambm as demais cincias humanas, a sociedade civil como um todo e os verdadeiros representantes do Estado. Essa unio social pode levar muitos anos para gerar frutos no dia-a-dia de cada um de ns e pode-se ainda chegar  concluso de que no h possibilidade de se criar um critrio rgido e padronizado para se determinar a idade penal mnima.

No entanto,  fundamental destacar que a reduo da maioridade penal pouco vem contribuir para a diminuio da violncia ocasionada por jovens perigosos, que so maus na sua essncia. A meu ver, devemos avaliar a personalidade do infrator, a sua capacidade de entendimento dos seus atos, os seus sentimentos e a gravidade do crime cometido. Isso levaria a se considerar cada caso com sua justa individualizao, tornando possvel distinguir, de forma eficaz, os jovens que precisam e podem ser reeducados daqueles que so refratrios a qualquer tipo de medida socioedu-cativa. Estes ltimos, irrefreveis e incompatveis com o convvio social, devem ser rigorosamente punidos como adultos. Caso contrrio, s iremos amargar cada vez mais a infeliz certeza de que eles no vo parar nunca.

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CAPITULO 10
DE ONDE VEM ISSO TUDO?


A capacidade humana de distinguir o certo do errado, a meu ver,  uma das mais nobres de todas as nossas qualidades.  muito reconfortante saber que, de alguma forma, cada ser humano, l no ntimo, sempre sabe qual  "a coisa certa a fazer".

 esse senso moral que nos faz ajudar uma pessoa que leva um tombo na rua ou ainda uma criana que cai de sua bicicleta ou se perde de seus pais em meio  multido. Em relao a essas situaes, lembro-me de uma que nunca mais saiu da minha mente.

Era um domingo ensolarado, em pleno inverno carioca. Resolvi caminhar e escolhi a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, como cenrio para minha atividade fsica matinal. Com pouco mais de uma hora de caminhada j ensaiava meus passos finais, quando avistei em minha "contramo" trs pessoas trajadas com uniformes do Flamengo, em estado de total alegria: o pai no centro e um filho em cada mo. Os trs cantavam, a plenos pulmes, um samba que j virou um "hino" clssico dos torcedores rubro-negros: "Domingo eu vou ao Maracan, vou torcer pelo time que sou f..." De repente, pelas minhas costas surgiu um menino com uma bicicleta. Sua velocidade era tamanha que, ao me ultrapassar, no conseguiu fazer a curva e, em segundos, "voou" para dentro da lagoa. Simultaneamente a essa cena, pude ver a face de angstia do pai-flamenguista e assistir a tudo: ele rapidamente soltou as mos dos filhos, tirou a camisa e mergulhou como se tivesse sido treinado para aquilo por toda a sua vida. Menino salvo, bicicleta destruda nas pedras, surge, atrasado, o pai da vtima. Abraa seu filho, promete-lhe uma bike nova e nem percebe que a poucos metros dali o pai-flamenguista j est com seus filhos lado a lado seguindo seu caminho.

Sem conter minha admirao pelo ato daquele homem, apressei o passo e fui atrs deles. Aproximei-me, pedi licena e perguntei: "Como voc conseguiu fazer aquilo to rapidamente?"

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E ele respondeu: "Fiz o que tinha que ser feito. Se no fosse eu, certamente outra pessoa faria.  o certo!"

Naquele domingo retornei  minha casa com um sentimento bom de esperana, desses que de vez em quando a gente sente por toda a humanidade.

De onde vem o nosso senso moral?

At pouco tempo atrs existia a convico de que a capacidade humana de distinguir o certo do errado era algo aprendido nas relaes interpessoais. Dessa forma, a nica maneira de obtermos indivduos morais seria educ-los e condicion-los socialmente. Assim, caberia  sociedade e  cultura estabelecer, ao longo de toda a vida, o que os indivduos podem ou no fazer. No h como negar que muitas das regras sociais direcionadas ao certo e ao errado precisam ser aprendidas.  impossvel nascer sabendo determinadas convenes sociais que possuem forte apelo cultural. Um bom exemplo  o ato de arrotar. Em alguns pases orientais arrotar  mesa  sinal de apreo para com a comida e seus anfitries gastronmicos. J na maioria dos pases ocidentais, o ato de arrotar em pblico  um sinal de falta de educao, relacionado ao desleixo e  deselegncia pessoal.
Os estudos mais recentes sobre o comportamento humano revelam que as noes bsicas de retido comportamental e justia dependem muito menos do aprendizado social do que os psiclogos supunham no incio do sculo passado. As ltimas pesquisas sobre o crebro humano e as anlises comparativas de outros comportamentos
animais revelam que a espcie humana adquiriu a capacidade de avaliao moral com a prpria seleo natural. Tudo indica que as instrues necessrias na produo de um crebro capacitado para distinguir o certo do errado j vm com certificado de fbrica, ou seja, elas esto no DNA de cada um de ns.

Se a seleo natural tem participao ativa na construo do senso moral dos humanos,  de se esperar que o senso de justia

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e a compaixo tambm estejam presentes em outros segmentos do reino animal. E de fato esto, especialmente entre os primatas.

Em 2007 Flix Werneken e seus colaboradores do Instituto Max Plank de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, realizaram o seguinte experimento: colocaram um chimpanz em uma jaula em que o animal pudesse observar duas pessoas que simulavam uma discusso. Uma delas estava mais exaltada e, com um tapa, derrubou um pequeno basto que a outra tinha na mo. Esse objeto, ao cair no cho, rolou e foi parar aos ps do chimpanz, junto a sua jaula. Sem qualquer envolvimento com aquele conflito entre humanos e sem receber nada em troca, o primata no hesitou em agir: pegou o basto e o devolveu ao seu dono. Tudo aconteceu de forma simples: para ele era a coisa certa a fazer!

Outros experimentos envolvendo primatas entre si e primatas e uma ave tambm foram realizados. No primeiro caso um macaco tinha que acionar uma alavanca localizada dentro de sua jaula. Esta, por sua vez, abria a porta de outra jaula que dava passagem para que um "colega" pudesse buscar seu alimento que no conseguia alcanar.

Apesar de no receber nenhuma recompensa com o ato, o macaco no poupou esforos em praticar a boa ao e alimentar seu colega de espcie. 

O segundo episdio est relatado no livro Eu, Primata, de Frans de Wall (primatlogo da Emory University, Atlanta, EUA): no zoolgico de Twycross (Reino Unido), uma fmea de bonobo viu um passarinho se ferir ao se chocar contra uma parede de vidro de sua jaula. Ao observar o pssaro no cho, a primata tentou coloc-lo em p, mas no obteve sucesso. Tentou, ento, outra estratgia: pegou o pssaro com muito cuidado, subiu numa rvore, abriu suas asas com os dedos e tentou faz-lo voar tal qual um avio de papel. O pssaro, ainda muito fraco, acabou por aterrissar dentro da jaula sem conseguir se erguer. Foi ento que a fmea de bonobo decidiu montar guarda ao lado do pssaro simplesmente para proteg-lo de seus colegas de cativeiro. No final do dia o pssaro conseguiu se reerguer e saiu voando. Somente nesse momento a primata largou seu "posto de solidariedade".

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Senso de justia, compaixo e evoluo
Toda a teoria da evoluo das espcies se baseia na competitividade e na sobrevivncia dos mais aptos. Como podemos entender que caractersticas de bondade e altrusmo tenham se perpetuado e evoludo em meio  violncia do mundo natural? Teoricamente os organismos "bonzinhos" deveriam ter ficado pelo caminho nessa corrida biolgica. No entanto, ao longo das ltimas dcadas, os cientistas comearam a desvendar as vantagens evolutivas das "criaturas do bem".

Existem algumas teorias que tentam explicar o senso de justia mais apurado em determinados animais e nos humanos. Entre elas gostaria de destacar a teoria da mente (fundamentada nos estudos psicolgicos) e a teoria do crebro social (desenvolvida com base nos estudos recentes das neurocincias).

A teoria da mente se constitu basicamente na capacidade de um ser biolgico (humano ou no) imaginar que outros seres possam ter uma vida mental similar  dele. Essa teoria pode ser facilmente compreendida quando nos colocamos no lugar de outras pessoas para inferir como elas devem estar se sentindo. Existe um ditado americano que diz o seguinte: "Antes de julgar algum, calce suas sandlias e caminhe uma milha." Em outras palavras: antes de julgar algum, coloque-se em seu lugar, tente imaginar o que ele sente, o que ele pensa e somente depois aja. Isso  a teoria da mente em plena ao.

A teoria do crebro social pde se desenvolver e avanar de forma significativa nos ltimos anos devido  utilizao sistemtica, por psiclogos e neurocientistas, do exame denominado ressonncia magntica funcional (RMf). Esse exame  capaz de gerar um retrato extremamente detalhado das estruturas cerebrais. Alm disso, ele pode produzir o equivalente a um vdeo que mostra o funcionamento de partes especficas do crebro quando ativadas durante algumas situaes. Por exemplo, quando ouvimos o choro de uma pessoa que amamos, o centro da afetividade entra em "ebulio".

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Com base nesses estudos os cientistas puderam comear a responder a uma srie de perguntas sobre o comportamento social das pessoas. Entre essas perguntas destaco algumas: existe de fato algum mecanismo mental na espcie humana responsvel por nossos atos generosos ou solidrios? Caso esse mecanismo exista, ele, conforme a pessoa, nasce "ativado" ou "desativado"? Esse processo de ligar/desligar  algo que aprendemos atravs do convvio social ou trazemos conosco?

Com a utilizao da ressonncia magntica funcional (RMf), muitos pesquisadores do comportamento humano passaram a utilizar o termo "crebro social". O crebro social pode ser definido como o somatrio de todos os mecanismos neurais (materiais e funcionais) envolvidos na orquestrao de nossas interaes sociais. Assim, ele  responsvel pelos pensamentos e sentimentos que apresentamos quando nos relacionamos com outras pessoas.

O crebro social nos possibilita a percepo do "Eu sei como voc se sente". E isso ficou muito claro em um estudo com casais de namorados realizado da seguinte forma: na primeira parte do experimento, um de cada vez foi colocado no aparelho de ressonncia magntica funcional (RMf) e submetido a sensaes dolorosas, classificadas como leves. Antes de receber o estmulo doloroso, o voluntrio era avisado. O simples aviso desencadeou a ativao de alguns circuitos cerebrais, especialmente daqueles ligados ao medo e  ansiedade. Ocorria uma espcie de antecipao  sensao dolorosa.

Na segunda parte o voluntrio era avisado de que o(a) parceiro(a), a partir daquele momento, receberia uma descarga dolorosa. O resultado foi surpreendente. Mesmo sabendo que no sentiria mais dor, o voluntrio passou a ativar as mesmas reas cerebrais ao ser avisado que seu par sofreria. Isso aponta para a existncia de uma "ponte neural" (crebro-crebro) que  capaz de promover alteraes no funcionamento cerebral e, consequentemente, reaes fisiolgicas nas pessoas com as quais interagimos.

Alguns animais tambm apresentam algum nvel de conexo mental. Eles conseguem, at certo ponto, sincronizar-se com

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os sentimentos alheios e entender suas intenes. No entanto, nenhum ser tem esse sistema cerebral to aprimorado quanto o ser humano. Os cientistas acreditam que  justamente atravs dessa conexo (crebro-crebro), estabelecida nos nossos relacionamentos interpessoais, que aflora a moralidade inata.

Ambas as teorias apontam para a mesma direo: somos seres sociais e, de alguma forma, estamos fadados a estabelecer relaes com pessoas ao nosso redor. Se o nosso destino  a conexo com "o outro", fica claro que o senso de justia e de compaixo so instrumentos poderosos para que relaes amigveis e saudveis se desenvolvam. Talvez esse seja o principal motivo para explicar por que os seres humanos "j vm de fbrica" com um dispositivo para distinguir o certo do errado.

De alguma forma o senso moral inato que os humanos apresentam parece confirmar o velho dito popular "a unio faz a fora". E quando essa unio se estabelece atravs de sentimentos altrustas e comportamento ticos, a espcie e sua perpetuao ganham um reforo significativo na corrida biolgica da evoluo.

E a cultura, onde entra nisso?

 obvio que no podemos atribuir somente  gentica e  evoluo biolgica a nossa capacidade de solidariedade e de compaixo. A cultura  qual somos expostos em uma determinada sociedade tambm nos influencia em diversos aspectos de nossa personalidade.

 fundamental no confundir a nossa capacidade inata de distinguir o certo do errado com a capacidade de tomarmos as atitudes corretas ao invs das erradas. Uma coisa  saber o que deve ser feito, a outra  agir de acordo com esse preceito.

Somos dotados no s do senso inato de moralidade, mas tambm de inteligncia para anlise estratgica. Dessa forma podemos, infelizmente, usar nossa capacidade racional para "tapear" a moral inata e, com isso, tirar proveito de determinadas situaes.

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As guerras talvez sejam o exemplo mais cruel dessa habilidade dos seres humanos em "driblar" o inato senso moral. Para que um grupo enfrente o outro  necessrio uma causa que seja aparentemente justa ou moralmente correta. Como no existe guerra moral, sempre haver uma liderana habilidosa em manipular mentalmente as diferenas culturais, de forma a colocar uns contra os outros. A manipulao moral acaba por despertar os instintos humanos relacionados  luta pela sobrevivncia. Monta-se assim o cenrio perfeito para uma guerra politicamente correta e moralmente maquiada. Todas as guerras so assim: injustificveis. O que ocorre de fato  a srdida manipulao moral por parte de uma pequena minoria humana.

Ao longo da nossa histria podemos observar incontveis exemplos da manipulao blica da moral: ora legitimando suas aes atravs da desqualificao tnica de determinados grupos humanos (perseguio aos judeus na Alemanha nazista, por exemplo), ora pela utilizao de motivos religiosos (tais como as aes terroristas da Al-Qaeda) ou ainda pelo combate  opresso em nome da liberdade (a invaso do Iraque pelos EUA).

A cultura influencia diretamente os valores morais de uma sociedade e cria tambm os parmetros que estabelecem o status hierrquico de cada membro social. Sem dvida alguma, a posse de bens materiais sempre foi algo valorizado nas vitrines das sociedades. Mas j existiram tempos em que o status intelectual e a retido de carter tambm eram caractersticas bastante valoradas entre os membros de nossa sociedade.

O "saber" e o "ser" j foram bens de alto valor moral social. Hoje vivemos os tempos do "ter", em que no importa o que uma pessoa saiba ou faa, mas sim que ela tenha dinheiro (de preferncia muito) para pagar por sua ignorncia e por suas falhas de carter.

Nesse cenrio propcio surge a cultura da "esperteza": temos que ser ricos, bonitos, etiquetados, sarados, descolados e muito invejados. O pior dessa cultura  que seus membros sociais no se contentam apenas com o "ter",  necessrio exibir e ostentar

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todos os seus bens. Assim ningum esquece, nem sequer por um minuto, quem so os donos da festa.

E  exatamente essa cultura que faz com que os jovens bem-nascidos optem por caminhos rpidos como a venda de drogas e produtos contrabandeados para obterem o status social dos bem-sucedidos. Para esses rapazes e moas, o caminho dos estudos, do saber e do "ser"  longo demais. Eles querem tudo, aqui e agora.

Vivemos em meio a uma cultura que privilegia o indivduo em detrimento da humanidade como um todo. Basta ver o que est acontecendo com o problema da emisso acentuada de gases txicos, causando o efeito estufa e o aquecimento global. Esse fato, entre tantos outros, mostra que nossos equivocados valores comeam a comprometer nosso futuro como espcie. Chegamos at aqui por nossas habilidades sociais e no por fora fsica. Se quisermos manter nossa supremacia biolgica no mundo natural, teremos que rever nossos prprios conceitos, criando uma nova cultura que se baseie na solidariedade e no sucesso da coletividade.
A maldade original de fbrica

Se existe de fato um kit de moralidade instalado em nosso "hardware" cerebral (nossa composio biolgica), como explicar o comportamento desumano dos psicopatas? Tudo indica que esses indivduos apresentam uma "desconexo" dos circuitos cerebrais relacionados  emoo. S podemos ter senso moral quando manifestamos um mnimo de afeto em relao s pessoas e s coisas ao nosso redor. Dessa maneira, o comportamento frio e perverso dos psicopatas no pode ser atribudo simplesmente a uma m-criao ou educao. No meu entender, a origem da psicopatia est na incapacidade que essas criaturas tm de sentir e no de agir de forma correta.

Uma parcela significativa da populao se recusa a acreditar nessa "desumanidade de fbrica" que os psicopatas apresentam

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Para entendermos como uma mente pode funcionar sem emoo,  preciso conhecer os aspectos neurofuncionais da emoo e da razo:

Emoo e razo

Funes mais complexas produzidas pelo crebro humano. Em nosso cotidiano ativamos operaes mentais que envolvem sempre uma e outra (s vezes, mais uma do que a outra). Apesar de serem parceiras constantes, os mecanismos neurais geradores da emoo e da razo so diversos.

As emoes negativas so mais estudadas e compreendidas do que as positivas e a mais conhecida de todas  o medo. Este surge quando algo nos ameaa, desencadeando uma ao de luta ou fuga. Outro exemplo de emoo importante  a raiva. Esta se apresenta frequentemente como mecanismo de defesa ou, ainda, como um meio de garantia de sobrevivncia. Animais costumam agredir seus semelhantes como forma de defender seu territrio, disputar as fmeas e estabelecer hierarquias sociais.

Nos seres humanos as reaes de medo e de raiva se manifestam de forma bastante semelhante quelas observadas nos animais. No entanto, entre os seres humanos as emoes so moduladas pela razo. Doses certas de razo e emoo  que fazem com que tenhamos comportamentos tipicamente humanos.

O sistema lmbico, formado por estruturas corticais e sub-corticais,  responsvel por todas as nossas emoes (alegria, medo, raiva, tristeza etc). Uma das principais estruturas do sistema lmbico chama-se amgdala (vide figura nas pginas 156 e 157). Localizada no interior do lobo temporal, essa pequena estrutura funciona como um "boto de disparo" de todas as emoes.

A razo, por sua vez, envolve diversas operaes mentais de difcil definio e classificao. Entre elas podemos citar: raciocnio, clculo mental, planejamentos, soluo de problemas e comportamentos sociais adequados etc.

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Regies do crebro envolvidas com a tomada de decises morais:

[No formato original deste livro, em tinta, aparece a imagem de um crebro humano com setas indicando cada parte conforme listarei abaixo - Nota de Patrcia Braille]

Amgdala: Boto de disparo de todas as emoes: medo, alegria, raiva, amor, tristeza etc.

Crtex dorsolateral pr-frontal: Associado a aes cotidianas do tipo utilitrias, como decorar nmeros de telefones ou objetos.

Crtex anterior cingulado: Muito ativo quando temos problemas difceis de serem resolvidos. Ele sinaliza ao crtex dorsolateral pr-frontal para que assuma o controle executivo.

Pgina 156 e Pgina 157

A principal regio envolvida nos processos racionais  o lobo pr-frontal (regio da testa): uma parte dele (crtex dorsolateral pr-frontal) est associada a aes cotidianas do tipo utilitrias, como decorar um nmero de um telefone ou objetos. A outra parte (crtex medial pr-frontal) recebe maior influncia do sistema lmbico, definindo de forma significativa as aes tomadas nos campos pessoais e sociais.

A interconexo entre a emoo (sistema lmbico) e a razo (lobos pr-frontais)  que determina as decises e os comportamentos socialmente adequados.

Razo demais, emoo de menos

Um caso histrico ocorrido em meados do sculo XIX em Vermont, EUA, evidenciou de forma muito clara essa estreita associao entre comportamento moral e leso cerebral:

Phineas Gage trabalhava em uma estrada de ferro. Era um sujeito benquisto por todos, bom trabalhador e timo chefe de famlia. Em 1848, uma exploso no local de trabalho fez com que uma barra de ferro perfurasse seu crebro na regio denominada crtex pr-frontal (vide figura). De forma espantosa, Gage no perdeu a conscincia e sobreviveu ao ferimento sem qualquer sequela aparente. Ele caminhava normalmente e suas memrias estavam preservadas. Contudo, com o passar do tempo, Gage se tornou outra pessoa: indiferente afetivamente, sujeito a ataques de ira e sem qualquer educao com as pessoas ao seu redor. Gage nunca mais foi o homem que todos admiravam, o homem "pr-acidente". Embora ele nunca tenha assassinado ningum, sua vida foi uma pattica sucesso de subempregos, brigas, bebedeiras e pequenos golpes.

A histria acima teve um papel decisivo no estudo do comportamento humano, pois foi uma prova viva de que alteraes no senso moral podem ocorrer quando o crebro sofre leses em reas especficas (nesse caso, o lobo pr-frontal). A partir desse episdio, os cientistas passaram a pesquisar as razes cerebrais do comportamento amoral.

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 importante sublinhar que os estudos clnicos sobre a psicopatia sempre apresentaram grandes dificuldades de serem realizados. A investigao clnica sobre a personalidade psicoptica  uma tarefa extremamente complicada, pois as testagens realizadas para esse fim dependem dos relatos dos avaliados. Os psicopatas no tm interesse nenhum em revelar algo significante para os pesquisadores e tentam sempre manipular a verdade para obterem vantagens.

Tudo indica que o uso sistemtico das novas tcnicas de neuroimagens (RMf e PET-SCAN) ajuda a reforar o diagnstico da psicopatia, uma vez que os estudos recentemente realizados apontam para alteraes caractersticas de um funcionamento cerebral de um psicopata. Pessoas sem qualquer trao psicoptico revelaram intensa atividade da amgdala e do lobo frontal (sendo neste de menor intensidade), quando foram estimuladas a se imaginarem cometendo atos imorais ou perversos. No entanto, quando os mesmos testes foram realizados num grupo de psicopatas criminosos, os resultados apontaram para uma resposta dbil nos mesmos circuitos.

Se considerarmos que a amgdala  o nosso "corao cerebral", entenderemos que os psicopatas so seres sem "corao mental". Seus crebros so gelados e, assim, incapazes de sentir emoes positivas como o amor, a amizade, a alegria, a generosidade, a solidariedade... Essas criaturas possuem grave "miopia emocional" e, ao no sentirem emoes positivas, suas amgdalas deixam de transmitir, de forma correta, as informaes para que o lobo frontal possa desencadear aes ou comportamentos adequados. Chegam menos informaes do sistema afetivo/lmbico para o centro executivo do crebro (lobo frontal), o qual, sem dados emocionais, prepara um comportamento lgico, racional, mas desprovido de afeto.

Se partirmos da premissa de que a alterao primria dos psicopatas  uma amgdala hipofuncionante, poderemos considerar as seguintes situaes:

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1. Psicopatas pensam muito e sentem pouco. Suas aes so racionais e a razo tende sempre a escolher, de forma objetiva, o que leva  sobrevivncia e ao prazer. De forma primitiva a razo usa a "lei da vantagem" sempre. Essa forma de pensar privilegia o indivduo e nunca o outro ou o social.

2. Como espcie, os homens evoluram muito mais por sua capacidade de cooperao social do que por seus atributos individuais. Assim, podemos perceber que os psicopatas
so seres cujas tomadas de deciso privilegiam sempre os interesses individuais e/ou oligrquicos mesquinhos e nunca o social e/ou o coletivo de contedo solidrio.

3. Sem contedo emocional em seus pensamentos e em suas aes, os psicopatas so incapazes de considerar os sentimentos do outro em suas relaes e de se arrependerem
por seus atos imorais ou antiticos. Dessa forma, eles so incapazes de aprender atravs da experincia e por isso so intratveis sob o ponto de vista da ressocializao.

Montando o quebra-cabea

No h dvidas de que os psicopatas apresentam um dficit na integrao das emoes com a razo e o comportamento. Mas  importante destacar que eles no possuem uma leso nos crtex pr-frontais e na amgdala, como observado no caso Gage. Os pacientes que tm essas leses provocadas por tumores, hemorragias, isquemias ou traumatismos apresentam comportamentos que nos lembram os dos psicopatas pela indiferena que apresentam com os outros e consigo mesmas. Alm disso, os pacientes de leso cerebral mostram-se incapazes de se adaptar de forma conveniente a um trabalho, a sua famlia e a seus amigos.

J os psicopatas apresentam esses desajustes em graus bem variveis. Alguns deles estudam com interesse, outros trabalham 

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anos com sucesso. H aqueles que cometem delitos desde pequenos e ainda existem os que podem levar uma vida aparentemente integrada, mas paralelamente vivem executando crimes brbaros e repugnantes.

As diversas manifestaes das condutas psicopticas nos levam necessariamente a uma avaliao da importncia que o meio ambiente pode ter na apresentao desse transtorno. O ambiente social no qual a violncia e a insensibilidade emocional so "ensinadas" no dia-a-dia pode levar uma pessoa propensa  psicopatia a ser um perigoso delinquente. Por outro lado, um ambiente social afetuoso e compensador pode levar essa mesma propenso a se manifestar na forma de um desvio social leve ou moderado.

Podemos, ento, concluir que a psicopatia apresenta dois elementos causais fundamentais: uma disfuno neurobiolgica e o conjunto de influncias sociais e educativas que o psicopata recebe ao longo de sua vida.

A engrenagem psicoptica funcionaria desta maneira: a predisposio gentica ou a vulnerabilidade biolgica se concretizaria em uma criana que apresenta o deficit emocional. Uma criana assim possui um sistema mental deficiente na percepo das emoes e dos sentimentos, na regulao da impulsividade e na experimentao do medo e da ansiedade. Nos casos em que os pais (famlia) realizam de forma muito competente suas tarefas educacionais, essas caractersticas biolgicas podem ser compensadas ou canalizadas para atividades socialmente aceitas. No entanto, quando o ambiente no  capaz de fazer frente a tal bagagem gentica - seja por falhas educacionais por parte dos pais, por uma socializao deficiente ou ainda por essa bagagem gentica ser muito marcada -, o resultado ser um indivduo psicopata.

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 mais sensato falarmos em ajuda e tratamento para as vtimas dos psicopatas do que para eles mesmos.

Captulo 11

O QUE PODEMOS FAZER?

Senhoras e senhores, no trago boas-novas. Com raras excees, as terapias biolgicas (medicamentos) e as psicoterapias em geral se mostram, at o presente momento, ineficazes para a psicopatia. Para os profissionais de sade, este  um fator intrigante e ao mesmo tempo desanimador, uma vez que no dispomos de nenhum mtodo eficaz que mude a forma de um psicopata se relacionar com os outros e perceber o mundo ao seu redor.  lamentvel dizer que, por enquanto, tratar um deles costuma ser uma luta inglria.

Temos que ter em mente que as psicoterapias so direcio-nadas s pessoas que estejam em intenso desconforto emocional, o que as impede de manter uma boa qualidade de vida. Por mais bizarro que possa parecer, os psicopatas parecem estar inteiramente satisfeitos consigo mesmos e no apresentam constrangimentos morais ou sofrimentos emocionais como depresso, ansiedade, culpas, baixa auto-estima etc. No  possvel tratar um sofrimento inexistente.

 no mnimo curioso, embora dramtico, pensar que os psicopatas so portadores de um grave problema, mas quem de fato sofre  a sociedade como um todo. Em funo disso, pouqussimos profissionais se arriscam a essa "empreitada". Quando o fazem, chegam  triste constatao de que contriburam com uma nfima parcela ou com absolutamente nada.  importante lembrar que de uma forma geral todos ns estamos vulnerveis s aes desses predadores sociais. Assim,  mais sensato falarmos em ajuda e tratamento para as vtimas dos psicopatas do que para eles mesmos.

De mais a mais, s  possvel ajudar aqueles que de fato querem e procuram ajuda. Os psicopatas, alm de acharem que no tm problemas, no esboam nenhum desejo de mudanas para se ajustarem a um padro socialmente aceito. Julgam-se

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auto-suficientes, so egocntricos e suas aes predatrias so absolutamente satisfatrias e recompensadoras para eles mesmos. Mudar para qu?

Dessa forma, os psicopatas raramente procuram auxlio mdico ou psicolgico. Quando eles chegam a um consultrio, quase sempre  por presses familiares ou, ento, com o intuito de se beneficiarem de um laudo tcnico. Frequentemente esto envolvidos com problemas legais, endividados e s voltas com o sistema judicial.

Por isso, tentam obter do profissional de sade mental algum diagnstico ou alguma comprovao de problemas que os auxiliem a minimizar as sanes que lhes foram impostas.

Estudos tambm demonstram que, em alguns casos, a psicoterapia pode at agravar o problema. Para as pessoas "de bem", as tcnicas psicoterpicas sem dvida alguma so fundamentais para a superao das suas angstias ou dos seus desconfortos. No entanto, para os psicopatas as sesses teraputicas podem muni-los de recursos preciosos que os aperfeioam na arte de manipular e trapacear os outros. Embora eles continuem incapazes de sentir boas emoes, nas terapias os psicopatas aprendem "racionalmente" o que isso pode significar e no poupam esse conhecimento para us-lo na primeira oportunidade. Alm disso, eles acabam obtendo mais subsdios para justificar seus atos transgressores, alegando que estes so fruto de uma infncia desestruturada. De posse dessas informaes, eles abusam de forma quase "profissional" do nosso sentimento de compaixo e da nossa capacidade de ver a bondade em tudo.

O que os pais podem fazer?

Como j foi dito anteriormente, podemos observar caractersticas de psicopatia desde a infncia at a vida adulta. Antes dos 18 anos, por uma questo de nomenclatura, o problema  chamado de Transtorno da Conduta. Crianas ou adolescentes que so francos candidatos  psicopatia possuem um padro repetitivo e

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persistente que pode ser sintetizado pelas caractersticas comportamentais descritas a seguir:

 Mentiras frequentes (s vezes o tempo todo);
 Crueldade com animais, coleguinhas, irmos etc;
 Condutas desafiadoras s figuras de autoridade (pais, professores etc);
 Impulsividade e irresponsabilidade;
 Baixssima tolerncia  frustrao, com acessos de irritabilidade ou fria quando so contrariados;
 Tendncia a culpar os outros por erros cometidos por si mesmos;
 Preocupao excessiva com seus prprios interesses;
 Insensibilidade ou frieza emocional;
 Ausncia de culpa ou remorso;
 Falta de empatia ou preocupao pelos sentimentos alheios;
 Falta de constrangimento ou vergonha quando pegos mentindo ou em flagrante;
 Dificuldades em manter amizades;
 Permanncia fora de casa at tarde da noite, mesmo com a proibio dos pais. Muitas vezes podem fugir e levar dias sem aparecer em casa;
 Faltas constantes sem justificativas na escola ou no trabalho (quando mais velhos);
 Violao s regras sociais que se constituem em atos de vandalismo como destruio de propriedades alheias ou danos ao patrimnio pblico;
 Participao em fraudes (falsificao de documentos), roubos ou assaltos;
 Sexualidade exacerbada, muitas vezes levando outras crianas ao sexo forado;
 Introduo precoce no mundo das drogas ou do lcool;
 Nos casos mais graves, podem cometer homicdio.

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Vale ressaltar que essas caractersticas so apenas genricas e que o diagnstico exato s pode ser firmado por especialistas no assunto. Alm do mais, o leitor deve atentar para a frequncia e a intensidade com as quais essas caractersticas se manifestam.

 muito comum e at compreensvel que os pais de jovens com caractersticas psicopticas se perguntem quase sempre em um tom de desespero: "O que ns fizemos de errado para que nosso filho seja assim?" Os pais se sentem culpados por acharem que falharam na educao dos seus filhos e que no souberam impor limites. Isso  um grande equvoco! No resta dvida de que a educao, a estrutura familiar e o ambiente social influenciam na formao da personalidade de um indivduo e na maneira como ele se relaciona com o mundo. No entanto, esses fatores por si s no so capazes de transformar ningum em um psicopata.

No obstante,  muito importante que os pais tenham conhecimento pleno sobre o assunto e que passem a reconhecer a disfuno em seus filhos, dispensando ao problema a ateno que ele merece. Quando em grau leve e detectada ainda precocemente, a psicopatia pode, em alguns casos, ser modulada atravs de uma educao mais rigorosa. Um ambiente familiar mais estruturado e com a vigilncia constante de filhos "problemticos" certamente no evita a psicopatia, mas pode inibir uma manifestao mais grave. E, ento, fazer toda a diferena.  lgico que essas medidas esto longe de serem ideais, so apenas paliativas e demandam muito esforo e empenho por parte dos envolvidos na criao. No entanto, para salvaguardar a estrutura familiar e a sociedade como um todo, no podemos desprez-las. As posturas que devem ser assumidas so as seguintes:

 Procure conhecer bem o seu filho. A maioria dos pais no sabe como ele se comporta longe dos seus olhos. Estabelea contato com todas as pessoas do convvio dele (professores, amigos, pais dos amigos etc). Quanto mais precocemente voc identificar o problema, maiores

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sero as chances de que ele se molde a um estilo de vida minimamente produtivo e socialmente aceito.

 Busque ajuda profissional. Isso  vlido tanto para se certificar do diagnstico dessa criana quanto para que os pais recebam orientaes de como devem agir.
 No permita que seu filho controle a situao. Estabelea um programa de objetivos mnimos para obter alguns resultados positivos. Regras e limites claros so necessrios para evitar as condutas de manipulao, enganos e falta de respeito com os demais. Lembre-se de que uma criana com perfil psicoptico apresenta um talento extraordinrio para distorcer as regras estabelecidas e virar o jogo a seu favor. Por isso, no cedal Se voc fraquejar, certamente ela ocupar todos os "espaos" deixados pela sua desistncia.

No pretendo ser pessimista, no entanto no seria honesto da minha parte afirmar que a psicopatia infanto-juvenil atuaimente tenha uma soluo satisfatria. O mximo que podemos fazer  adotar posturas no trato com essas crianas no intuito de melhorar a forma como a psicopatia vai se manifestar no futuro.

A psicopatia no tem cura,  um transtorno da personalidade e no uma fase de alteraes comportamentais momentneas. Porm, temos que ter sempre em mente que tal transtorno apresenta formas e graus diversos de se manifestar e que somente os casos mais graves apresentam barreiras de convivncia intransponveis. Segundo o DSM-IV-TR, a psicopatia tem um curso crnico, no entanto pode tornar-se menos evidente  medida que o indivduo envelhece, particularmente a partir dos 40 anos de idade.

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No negocie com o mal. Jamais concorde, seja por pena, chantagem ou por qualquer outro motivo, em ajudar um psicopata a  ocultar o seu verdadeiro carter.

Captulo 12
Manual de sobrevivncia

Como vimos at aqui, pouco ou nada podemos fazer para mudar a forma de ser de um psicopata. A maioria esmagadora da populao est ao sabor de suas aes predatrias. Ento, o que pode ser feito para que no sejamos presas to fceis?

Sem qualquer sombra de dvida, a melhor estratgia  no se envolver com nenhum deles em qualquer campo de sua vida (profissional, afetivo e social). Mas isso no  to simples assim. Afinal, eles esto infiltrados em todos os setores, so habilidosos em descobrir os pontos fracos das pessoas e sabem muito bem como explor-los. A grande verdade  que estamos todos na mesma situao: vulnerveis.

Assim, achei relevante listar algumas dicas que voc pode seguir para se proteger ou, em ltima anlise, ajud-lo a minimizar os estragos que um psicopata pode ocasionar em sua vida.

Dicas gerais para lidar com os psicopatas
1 - Saiba com quem voc est lidando.

Essa primeira e importante regra se traduz no "remdio amargo" de aceitar que os psicopatas existem de fato e que eles literalmente no possuem conscincia genuna. Ou seja, eles so incapazes de experimentar o amor ou qualquer outro tipo de ligao positiva com os outros seres humanos. Eles podem ser encontrados em todos os segmentos da sociedade e existe uma grande chance de voc ter um encontro doloroso com um deles. Nunca menospreze o poder destruidor de um psicopata. Todas as pessoas, incluindo os especialistas, podem ser manipuladas e enganadas por eles, mesmo que tenham um conhecimento razovel sobre o assunto. Por isso, sua melhor defesa  entender e, principalmente, aceitar que existem pessoas com essa natureza: fria e devastadora.

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2 - As aparncias enganam!

Todo cuidado  pouco! Como disse Saint-Exupry em O Pequeno Prncipe: "S se v bem com o corao. O essencial  invisvel aos olhos".

Tenha sempre em mente que a maioria dos psicopatas no tem "pinta" de assassino. Costumam ter um sorriso cativante, uma linguagem corporal interessante e uma boa lbia. No caia nessa cilada! Ao conhecer novas pessoas, procure enxergar o que est por trs de tantos atrativos. No se distraia com olhares sedutores, demonstrao de poder, gestos atraentes, voz suave ou traquejo verbal, caractersticos de um psicopata. Todos esses artifcios so utilizados com extrema habilidade exatamente para encobrir as suas verdadeiras intenes.

Tambm no se esquea do poder do olhar desses indivduos. Pessoas normais mantm contato visual com as outras por uma gama de razes, na maioria das vezes por educao, mas o olhar intenso e frio do psicopata  mais um exerccio de poder e de manipulao do que simplesmente interesse ou empatia pelo outro.

Em suma, da prxima vez que conhecer algum que parea ser uma pessoa muito extraordinria, tente no se iludir com o "evento teatral"  sua frente. Desvie seu olhar para as outras pessoas e se atenha ao que est sendo dito no contedo do discurso.  um exerccio de separar a letra da melodia em uma cano.

3 - No se esquea de considerar a voz da sua intuio.

Sem percebermos, todos ns estamos constantemente observando o comportamento das pessoas. Muitas das impresses captadas por nosso crebro podem se acumular em nossa memria de forma inconsciente, ou seja, sem que tenhamos conhecimento racional disso. Essas informaes por vezes "guardadas" se manifestam na forma de intuio - como se fosse um instinto protetor do nosso organismo -, sinalizando perigos "invisveis".

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Embora aparentemente estranhas, essas informaes, traduzidas na forma de "sensaes", podem lhe ajudar se voc permitir.

Ento, lembre-se! Quando voc estiver num dilema entre seguir o que manda o seu "corao" (intuio) e valorizar uma pessoa apenas pelo seu status profissional ou social, no vacile: siga sua intuio. Ela pode tir-lo de uma grande enrascada!

4 - Abra os olhos com pessoas maravilhosas ou excessivamente bajuladoras.

No incio de qualquer relacionamento, todos ns tentamos esconder aquele "lado meio sombrio", mostrando apenas o que temos de melhor. Para a maioria dos psicopatas isso tambm no  diferente, muito embora com consequncias infinitamente maiores. Eles tendem a impressionar suas vtimas com elogios, cuidados especiais, gentilezas excessivas e histrias falsas sobre seu status social e/ou financeiro. Devemos ter uma "dose" extra de cautela quando alguma pessoa aparenta ser "tudo de bom". No estou propondo que voc contrate um detetive particular todas as vezes que conhecer algum que lhe desperte algum interesse profissional ou afetivo. De forma alguma! Estou apenas sugerindo que voc avalie muito bem quem  a pessoa com a qual est lidando.

Na medida do possvel, procure lhe fazer perguntas sobre seus familiares, amigos, emprego, residncia, projetos futuros... Os psicopatas geralmente do respostas vagas, evasivas ou at inconsistentes quando so questionados sobre suas vidas. Suspeite de tais respostas e, se puder, procure confirm-las. Cuidado tambm para no cair no golpe da pessoa perfeita, que fica horas a fio ouvindo seus problemas sem se preocupar em falar de si mesma. Na realidade, esses falsos "terapeutas" esto colhendo informaes para us-las mais tarde contra voc.

Outra situao para manter os olhos bem abertos  quanto  bajulao. A maioria de ns gosta de receber elogios. Eles so sempre muito bem-vindos principalmente quando so sinceros. 

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Em contrapartida, a bajulao excessiva, o agradar "afetado" e pouco realista  uma das tticas dos psicopatas para nos cegar, seduzir e encobrir suas verdadeiras intenes: manipulao e controle. Por isso, desconfie dos famosos "puxa-sacos"!

E aqui  importante esclarecer que a regra da bajulao se aplica tanto para os indivduos quanto para os grupos e naes. Da mesma forma que um indivduo se empolga com a adulao de um manipulador, uma nao inteira pode se "hipnotizar" por lideranas polticas que se utilizam desses mesmos recursos. A histria da humanidade est recheada de estadistas tiranos que, ao engrandecerem seu povo, fazem dele uma "presa coletiva" com um nico ob-jetivo: o desejo de poder. A exaltao do patriotismo, por exemplo, muitas vezes vem apenas como uma camuflagem para "legitimar" a necessidade de realizao das guerras. Discursos com apelos de que as guerras devem ser travadas para o bem da humanidade ou para a construo de um mundo melhor so extremamente perigosos e suspeitos. Guerras so guerras e todas elas
so injustificveis!

5 - Certas situaes merecem ateno redobrada.

Determinados lugares encaixam-se como luvas para a ao plena dos psicopatas: bares, clubes sociais, boates, resorts, cruzeiros, aeroportos. Nesses locais eles fazem verdadeiros plantes. Suas vtimas preferenciais so os solitrios que buscam companhia ou diverso. Os psicopatas, na espreita, observam-nas atentamente e depois partem para o ataque. Os viajantes solitrios tambm so alvos fceis, pois prontamente so identificados como perdidos e sozinhos num aeroporto ou num ponto turstico qualquer. Ento, fique esperto!

6 - Autoconhecimento  fundamental.

Os psicopatas so experts em detectar e explorar nosso lado mais vulnervel. Eles identificam as "feridas" certas e no perdem

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a chance de toc-las quando podem. Assim, uma tima forma de defesa  entender a si mesmo, saber verdadeiramente quais so seus pontos fracos. Desconfie de qualquer pessoa que os aponte com frequncia, seja em particular ou em situaes pblicas e pouco apropriadas. Tenha cuidado com pessoas muito crticas e que vivem atentas s suas vulnerabilidades e s dos outros.

O autoconhecimento nem sempre  fcil de ser alcanado, por vezes a ajuda de um profissional especializado pode ser muito til nesse sentido.
7- No entre no jogo das intrigas.

A intriga  uma das ferramentas poderosas de um psicopata. No ambiente de trabalho, a intriga pode levar a consequncias devastadoras. A princpio o psicopata se mostra um timo colega de trabalho, com esprito de colaborao e um especial interesse em oferecer seu ombro a quem necessita de uma "fora". Em pouco tempo ele  capaz de se tomar seu "melhor amigo de infncia". Logo depois comear a utilizar as informaes colhidas no ombro amigo para fazer intrigas. E isso ele far com voc e com todos que inicialmente acreditaram em sua "amizade".

Sem mais nem porque, a confuso est armada! Funcionrios comeam a se desentender e todos acabam fazendo mexericos. Somente o psicopata, perante o chefe, est fora de tanta "baixaria".

Resista  tentao de entrar no jogo das intrigas, fale dire-tamente com seu colega sobre os fatos ou se possvel com o prprio chefe. No deixe ningum intermediar desentendimentos por voc. Se voc entrar nesse joguinho pode acabar se igualando ao psicopata e se distraindo do mais importante, que  se proteger.

8 - Cuidado com o jogo da pena e da culpa.

 muito importante que voc entenda que o sentimento de pena ou de compaixo deve ser reservado s pessoas generosas,

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de bom corao e que estejam em sofrimento verdadeiro. Temos a virtude de sentir tristeza frente  aflio alheia e nos compadecemos com a sua dor. A compaixo nos faz sentir mais humanos, pois enxergamos nosso semelhante como a ns mesmos.

Mas, afinal, devemos dispensar um sentimento to nobre a algum frio e cruel? Decididamente no!

Para incio de conversa, um psicopata no sofre de fato. O mximo que ele consegue sentir  frustrao por algo que no conseguiu concretizar. Tambm  muito importante que voc tenha em mente que os psicopatas se alimentam dos nossos sentimentos mais nobres, da nossa compaixo, o que os torna cada vez mais fortes e poderosos.

Sentir pena de um deles  o mesmo que dar o alimento preciso para que continue com suas atitudes inescrupulosas. No tenha pena de um psicopata, no gaste suas reservas de compaixo com uma pessoa sem corao. Ela vai sugar voc at que se sinta vazio e fragilizado.

Por outro lado, um psicopata tambm "brinca" com o nosso sentimento de culpa, que tambm  uma virtude. Qualquer que seja o motivo que o fez se envolver com um psicopata,  muito importante que voc no esquea o seguinte: nunca aceite que ele culpe voc pelas atitudes dele. Tenha a plena convico de que a vtima  voc e no ele. Os psicopatas so habilidosos em inverter papis e fingem sofrer. De algozes passam-se por vtimas com a maior tranquilidade. Maridos que agridem fisicamente suas esposas costumam responsabiliz-las por seus atos agressivos. Uma paciente minha passou anos se culpando pelos descontroles agressivos de seu marido: ele a convenceu durante muito tempo de que a espancava porque a amava demais e por ela utilizar roupas que valorizavam sua beleza. Veja s o tamanho do disparate!

Os psicopatas no amam seus cnjuges, isso no existe! Eles os possuem como uma mercadoria ou um trofu com os quais reforam seus desejos de manipulao, controle e poder.

De forma muito parecida, pais de filhos psicopatas sofrem e se culpam porque se sentem responsveis pelo desenvolvimento

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da personalidade de seus filhos. No entanto, tudo indica que esses pais no cometeram erros to graves assim, se  que os tenham cometido de fato. Os estudos sobre a personalidade psicoptica revelam que a educao fornecida pelos pais pode, no mximo, exacerbar o problema, mas no existe nenhum indcio de que a maneira de educar seja capaz de originar a psicopatia.

Filhos psicopatas se utilizam muito do jogo da culpa. Eles costumam justificar os seus atos transgressores como consequncia de comportamentos inadequados de seus pais quando eles ainda eram crianas. E, infelizmente,  muito difcil convencer esses pais de que nada disso  verdade. Os pais so as maiores vtimas do jogo da culpa.

9 - No tente mudar o que no pode ser mudado.

"Deus, conceda-me serenidade para aceitar as coisas que no posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso e sabedoria para reconhecer a diferena entre elas."

Orao da Serenidade

Em algum momento, a maioria de ns precisa aprender uma importante e decepcionante lio de vida: mesmo que nossas intenes de ajudar um psicopata sejam as melhores possveis, no devemos nem podemos controlar o comportamento dele. Por isso, ignore os repetidos pedidos de chances teatralmente implorados pelo psicopata. Chances so para as pessoas que possuem conscincia, indivduos de bom corao.

Se voc est convencido de que no pode controlar ningum, mas mesmo assim deseja ajudar pessoas de forma geral, ento procure apenas as que realmente querem ser ajudadas. Logo, logo voc vai descobrir que esse grupo que merece ajuda no inclui as pessoas sem conscincia. E lembre-se: o comportamento do psicopata no  culpa sua e muito menos ajud-lo constitui sua misso de vida.

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Quando se trata especificamente de filhos psicopatas, o caso se torna mais srio. Isso porque os pais tentam desesperadamente entender o comportamento transgressor de seus filhos. Alm de passarem anos a fio livrando-os de encrencas, tambm costumam fazer uma verdadeira via crucis a diversos especialistas mdicos. Ao final, amargam a certeza de que muito pouco podem fazer para controlar seus filhos.
10 - Nunca seja cmplice de um psicopata.

No negocie com o mal! Jamais concorde, seja por pena, chantagem ou por qualquer outro motivo, em ajudar um psicopata a ocultar o seu verdadeiro carter. Cuidado com os velhos chaves do tipo "No conte nada disso a ningum", "voc me deve uma", "em nome dos velhos tempos", "amanh eu limpo a tua barra", "uma mo lava a outra", que geralmente so proferidos aos prantos ou sussurros cautelosos. Intervenes desse tipo so muito utilizadas pelos psicopatas para convencer algum a encobrir suas transgresses. Ignore todos esses apelos. As outras pessoas precisam saber desses "segredos" para que no caiam na mesma armadilha.

11 - Evite-os a qualquer custo.

Se voc j identificou um psicopata na sua vida, o nico mtodo verdadeiramente eficaz de lidar com ele  mant-lo longe, bem longe de voc. Os psicopatas vivem completamente fora das regras sociais, por isso inclu-los em seus relacionamentos  sempre perigoso. Fique com sua conscincia limpa e tranquila, pois voc no estar ferindo os sentimentos de ningum. Por mais bizarro que isso possa parecer, os psicopatas no se importam se sero magoados ou no. Isso por uma razo muito simples, eles no tm sentimentos para serem feridos. E se demonstrarem tristeza, tenha a convico de que tudo no passa de encenao, puro teatro.

 possvel que os seus familiares, amigos ou pessoas do seu convvio nunca entendam por que voc est evitando algum

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em particular. Isso ocorre pelo fato de a psicopatia ser um transtorno surpreendentemente difcil de ser detectado e muito mais difcil de ser aceito. No se espante se amigos e parentes muito bem-intencionados promoverem encontros inesperados para resgatar seus laos com o "coitado excludo". Isso acontece por puro desconhecimento sobre a personalidade psicoptica. Mantenha-se firme e evite essa pessoa de todas as formas.

12 - Busque ajuda profissional.

Os danos causados pela passagem (ou permanncia) de um psicopata na vida de algum so devastadores e imensurveis. Sua vida emocional, fsica, profissional (ou financeira) e at mesmo sua dignidade podem ser sumariamente destrudas por um deles. Assim, na medida do possvel, os familiares e as vtimas de psicopatas devem buscar ajuda mdica, psicolgica e at mesmo jurdica.  recomendado que esses profissionais tenham profundo conhecimento sobre a natureza da personalidade psicoptica. Essa unio profissional em favor da vtima  que poder fazer com que ela possa se reconstruir.

13 - D valor a sua capacidade de ser consciente.

No se esquea de que voc possui o bem mais valioso que um ser humano pode alcanar. Voc tem a sua conscincia que lhe confere o dom de amar a prpria vida, o planeta e a humanidade como um todo. Por isso,  to importante desenvolver e aperfeioar a nossa conscincia. O desenvolvimento da conscincia provoca experincias transformadoras em ns. Mudamos a nossa forma de ver, viver, sentir e nos relacionar com o mundo. Com o aperfeioamento da conscincia, aumentamos a nossa capacidade de amar e, com isso, temos o privilgio de praticar o amor incondicional. Exercer esse amor de forma realista e madura  ter o bem pulsando dentro de ns.

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CAPITULO 13
Alguma coisa est fora da ordem

Uma breve reviso na histria da humanidade  capaz de revelar duas questes importantes no que tange  origem da psicopatia. A primeira delas se refere ao fato de a psicopatia sempre ter existido entre ns. Um exemplo dessa situao  destacado pelo psiquiatra americano Hervey Cleckley ao citar que o general grego Alcebades, no sculo V a.C, j preenchia todos os requisitos para ser considerado um psicopata "de carteirinha".

A segunda questo aponta para a presena da psicopatia em todos os tipos de sociedades, desde as mais primitivas at as mais modernas. Esses fatos reforam a participao de um importante substrato biolgico na origem desse transtorno. No entanto, eles no invalidam, de forma alguma, a participao significativa que os fatores culturais podem ter na modulao desse quadro, ora favorecendo, ora inibindo o seu desenvolvimento.

Isso fica claro quando observamos a prevalncia de psicopatas em culturas diversas. Nas sociedades ocidentais, a conduta psicoptica tem-se incrementado de maneira assustadora nas ltimas cinco dcadas. Cotidianamente nos deparamos com jornais e revistas que estampam homicidas cruis, assassinos em srie, polticos corruptos, terroristas, pedfilos, pessoas que maltratam crianas, torturadores de mulheres, lderes religiosos inescrupulo-sos, estelionatrios e profissionais desleais.

Tenho a convico de que todos esses problemas tm se agravado, de modo extraordinrio, devido  ao dos psicopatas e de pessoas que vm adotando formas "psicopticas" de convvio. Se isso ocorre  porque nossa sociedade est fundamentada em valores e prticas que, no mnimo, favorecem a maneira psicoptica de ser e viver. De certa forma, estamos contribuindo para promover uma cultura na qual a psicopatia encontra um campo bastante favorvel para florescer.

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A cultura dos tempos modernos

A ideologia sobre a qual se alicera a cultura dos nossos tempos  baseada em trs princpios bsicos: 1) o individualismo; 2) o relativismo; 3) o instrumentalismo.

De forma compreensvel e sem, contudo, aprofundar-me na esfera da filosofia, os trs princpios podem ser avaliados da seguinte maneira:
1) O individualismo prega a busca do melhor tipo de vida a se usufruir. Entende-se como o melhor tipo de vida aquele que abrange o autodesenvolvimento, a auto-realizao e a auto-satisfao. De acordo com essa concepo, o indivduo tem a "obrigao moral" de buscar sua felicidade em detrimento de qualquer outra obrigao com os demais.

2) Segundo o relativismo todas as escolhas so igualmente importantes, pois no h um padro de valor objetivo que nos permita estabelecer uma hierarquia de condutas. Assim, qualquer ao que leva o indivduo a atingir a auto-satisfao  vlida e no pode ser questionada.

3) O instrumentalismo afirma que o valor de qualquer coisa fora de ns  apenas um valor instrumental, ou seja, o valor das pessoas e das coisas se resume no que elas podem fazer por ns.

Na verdade, tudo est implcito no primeiro e principal componente da cultura moderna: o individualismo. Assim, o nosso principal objetivo  a realizao e a satisfao pessoais. As obrigaes que temos com as demais pessoas so meramente secundrias, prevalecendo a obrigao de desfrutarmos a vida da maneira que escolhermos. Dessa forma, as outras pessoas se transformam em simples meios para chegarmos a um fim.

O objetivo maior da ideologia moderna era preservar a liberdade individual. No entanto, essa nfase sobre a liberdade criou a

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grande contradio de nossos tempos: como estabelecer valores morais e ticos num mundo que prioriza as escolhas individuais?

A modernidade foi responsvel por uma srie de mudanas na nossa forma de ver e sentir o mundo. A revoluo tecnolgica inundou de conforto nossas vidas. Dispomos de uma imensa variedade de coisas que facilitam nosso dia-a-dia, porm no encontramos tempo disponvel para cultivarmos o nosso lado afetivo. O convvio reconfortante com a famlia, os amigos e o amor romntico parecem ser coisas do passado, algo lembrado com nostalgia, mas avaliado como utopia nos dias atuais. O desenvolvimento econmico nos tempos modernos fundamenta-se na crena cega de que no podemos "parar" nunca: h sempre o que aprender, conquistar, possuir, descobrir, experimentar... Nada nem ningum  capaz de nos satisfazer plenamente, pois sempre h novas possibilidades para serem testadas na conquista da tal realizao pessoal.

A realizao proposta por nossa sociedade s pode ser de aspecto material, pois afetos verdadeiros no podem ser adquiridos nem substitudos na velocidade que nossos tempos preconizam. A cultura do individualismo e o desejo de conseguir bem-estar material a qualquer custo tm provocado eroso dos laos afetivos dentro da nossa sociedade. Com isso, virtudes como a honestidade, a reciprocidade e a responsabilidade com os demais caem em total descrdito. E assim, repletos de conforto e tecnologia, acabamos por nos tornar cada vez mais sozinhos e menos comprometidos com os nossos semelhantes.
Sem sombra de dvida, o cenrio social dos nossos tempos favorece o estilo de vida do psicopata. Ele reflete de forma precisa esse "novo homem", voltado somente para si mesmo, preocupado apenas com o que  seu e desvinculado da realidade vital dos que esto ao seu redor.

A expanso da cultura moderna, repleta de traos psicopticos, modificou de forma drstica as nossas relaes familiares e sociais. Estamos perdendo o senso de responsabilidade compartilhada no campo social e o de vinculao significativa nas relaes

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interpessoais. O aumento implacvel da violncia e seno uma resposta lgica e previsvel a toda essa situao.

A cultura psicoptica est no ar

No campo da fico, os psicopatas tambm tm conquistado valorosos espaos. At bem pouco tempo atrs, nas novelas, nos romances e nos filmes, torcamos e nos identificvamos com os personagens do bem que, em geral, eram vitimados pelas diversas circunstncias dos enredos, mas que se mantinham ticos e triunfavam ao final. Hoje, ficamos fascinados e atrados pelos viles e  para eles que dirigimos nossa torcida. E quando esses "bandidos" so ricos e poderosos acabam por se transformar em sedutores de primeira grandeza. Assim, de forma quase natural, estamos abandonando os mocinhos e seus ideais morais de justia e solidariedade. Os heris dos novos tempos so maldosos, inescrupulosos e isentos de qualquer sentimento de culpa. J os personagens bonzinhos despertam em ns um sentimento de pena e at certa intolerncia com seus discursos utpicos e ingnuos. Os heris do passado esto se tornando os otrios dos tempos modernos.

O desrespeito, a frieza, a luxria e a perversidade dos psicopatas esto ganhando espao nas telinhas e nas telonas, arrebatando espectadores, crticos especializados e atores que buscam fama e reconhecimento profissional ao interpretarem personagens de "psiquismo to complexo". Se no tomarmos muito cuidado, acabaremos adotando a conduta psicoptica como um estilo de vida eficiente para se alcanar a auto-satisfao ou ento como um comportamento adaptativo de sobrevivncia.

 hora de pararmos e realizarmos uma profunda reflexo coletiva e individual. Precisamos definir em que propores estamos contribuindo para a promoo de uma cultura psicoptica. Temos que unir foras para efetuarmos um combate efetivo das aes psicopticas em todas as suas manifestaes. Para comear,

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precisamos rever a nossa tolerncia em relao as pequenas transgresses do dia-a-dia, como jogar papel no cho, buzinar em frente ao hospital, urinar em postes, cuspir nas caladas, estacionar em locais proibidos, no recolher os dejetos dos animais de estimao e por a vai.

E o que dizer de nossa tolerncia para com a corrupo? Chegamos ao ponto absurdo de concordar com frases do tipo: "fulano rouba, mas faz." Isso representa a mais pura acomodao poltica que experimentamos em nossas vidas sociais. Ser que acreditamos realmente que exista corrupo benigna? Claro que sabemos que isso no existe, mas tentamos criar justificativas idiotas para abrandar nossas turvas conscincias. Sabemos distinguir claramente o que  certo do que  errado, no entanto preferimos relativizar essa questo para nos beneficiarmos das vantagens materiais das "pequenas" transgresses sociais.

Precisamos reestruturar, de forma urgente, os processos pelos quais nossas crianas e nossos jovens aprendem os valores e os comportamentos sociais. Para que isso ocorra, todas as instituies, tanto pblicas quanto privadas, tero que dar a sua parcela de contribuio. Somente uma educao pautada em slidos valores altrustas poder fazer surgir uma nova tica social que seja capaz de conciliar direitos individuais com responsabilidades interpessoais e coletivas. A aprendizagem altrusta  o nico caminho possvel para combatermos a cultura psicoptica pautada na insensibilidade interpessoal e na ausncia da solidariedade coletiva.

 fundamental destacar que no se trata de cair na velha argumentao da perda da virtude em troca do conforto e do progresso. No  nada disso! Bem-vindas sejam as conquistas dos novos tempos, como os avanos cientficos e tecnolgicos, as liberdades de escolhas e de expresses. No entanto, nada disso pode se transformar em justificativa para a aceitao ou a tolerncia para com uma sociedade constituda de indivduos desvinculados dos direitos e das necessidades vitais dos que esto ao redor.

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A construo de uma sociedade mais solidria , a meu ver, o grande desafio dos nossos tempos. E para tal empreitada teremos que harmonizar o desenvolvimento tecnolgico com uma conscincia que no faa qualquer tipo de concesso ao estilo psicoptico de ser ou de viver. A luta contra a psicopatia  a luta pelo que h de mais humano em cada um de ns.  a luta por um mundo mais tico e menos violento, repleto "de gente fina, elegante e sincera".

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Anexos

(301.7)

Critrios Diagnsticos para Transtorno da Personalidade Anti-social

A. Um padro global de desrespeito e violao dos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo menos trs dos seguintes critrios:
(1) incapacidade de adequar-se s normas sociais com relao a comportamentos lcitos, indicada pela execuo repetida de atos que constituem motivo de deteno
(2) propenso para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer
(3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro 
(4) irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agresses fsicas
(5) desrespeito irresponsvel pela segurana prpria ou alheia
(6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou de honrar obrigaes financeiras
(7) ausncia de remorso, indicada por indiferena ou racionalizao por ter ferido, maltratado ou roubado algum

B. O indivduo tem no mnimo 18 anos de idade.
C. Existem evidncias de Transtorno da Conduta com incio antes dos 15 anos de idade.
D. A ocorrncia do comportamento anti-social no se d exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episdio Manaco.

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ANEXO B

Transtorno de Personalidade Dissociais

Transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigaes sociais, falta de empatia para com os outros. H um desvio considervel entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas. O comportamento no  facilmente modificado pelas experincias adversas, inclusive pelas punies. Existe uma baixa tolerncia  frustrao e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violncia. Existe uma tendncia a culpar os outros ou a fornecer racionalizaes plausveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade.

Personalidade (transtorno da):
 amoral
 anti-social
 associai
 psicoptica
 socioptica
Exclui: transtorno (de) (da):
 conduta (F91.-)
 personalidade do tipo instabilidade emocional (F60.3)

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Critrios Diagnsticos para Transtorno da Conduta

A. Um padro repetitivo e persistente de comportamento no qual so violados os direitos individuais dos outros ou normas ou regras sociais importantes prprias da idade, manifestado pela presena de trs (ou mais) dos seguintes critrios nos ltimos 12 meses, com presena de pelo menos um deles nos ltimos 6 meses:

Agresso a pessoas e animais

(1) provocaes, ameaas e intimidaes frequentes
(2) lutas corporais frequentes
(3) utilizao de arma capaz de infligir graves leses corporais (por ex., basto, tijolo, garrafa quebrada, faca, revlver)
(4) crueldade fsica para com pessoas
(5) crueldade fsica para com animais
(6) roubo em confronto com a vtima (por ex., bater carteira, arrancar bolsa, extorso, assalto  mo armada)
(7) coao para que algum tivesse atividade sexual consigo
Destruio de patrimnio
(8) envolveu-se deliberadamente na provocao de incndio com a inteno de causar srios danos
(9) destruiu deliberadamente a propriedade alheia (diferente de provocao de incndio)
201

Defraudao ou furto
(10) arrombou residncia, prdio ou automvel alheios
(11) mentiras frequentes para obter bens ou favores ou para esquivar-se de obrigaes legais (isto , ludibriar pessoas)
(12) roubo de objetos de valor sem confronto com a vtima (por ex., furto em lojas, mas sem arrombar e invadir; falsificao)
Srias violaes de regras
(13) frequente permanncia na rua  noite, contrariando proibies por parte dos pais, iniciando antes dos 13 anos de idade
(14) fugiu de casa  noite pelo menos duas vezes, enquanto vivia na casa dos pais ou lar adotivo (ou uma vez, sem retornar por um extenso perodo)
(15) gazetas frequentes, iniciando antes dos 13 anos de idade

B. A perturbao do comportamento causa prejuzo clinica mente significativo do funcionamento social, acadmico ou ocupacional.
C. Se o indivduo tem 18 anos ou mais, no so satisfeitos os critrios para o Transtorno da Personalidade Anti-social.

ESPECIFICAR TIPO COM BASE NA IDADE DE INCIO:

312.81 Tipo com Incio na Infncia: incio de pelo menos um critrio caracterstico do Transtorno da Conduta antes dos 10 anos de idade.
312.82 Tipo com Incio na Adolescncia: ausncia de quaisquer critrios caractersticos do Transtorno da Conduta antes dos 10 anos de idade.

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312. 89 Transtorno da Conduta, incio inespecificado: a idade do incio no  conhecida.

ESPECIFICAR GRAVIDADE:

LEVE: poucos problemas de conduta, se existem, alm dos exigidos para fazer o diagnstico sendo que os problemas de conduta causam apenas um dano pequeno a outras pessoas.

MODERADO: um nmero de problemas de conduta e o efeito sobre outros so intermedirios, entre "leve" e "grave".
GRAVE: muitos problemas de conduta alm dos exigidos para fazer o diagnstico ou problemas de conduta que causam dano considervel a outras pessoas.

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SITES TEIS
AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION (APA) www.psych.org
ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (ABP) www.abpbrasil.org.br
CENTRO DE VALORIZAO DA VIDA (CVV) www.cvv.com.br
DISQUE DENNCIA www.disquedenuncia.org.br
ASSOCIAO DE PARENTES E AMIGOS DE VTIMAS DE VIOLNCIA (APAVV) www.apavv.org.br
CENTRAL NACIONAL DE DENNCIAS DE CRIMES CIBERNTICOS - SAFERNET BRASIL www.denunciar.org.br
SECRETARIA DE ASSISTNCIA SOCIAL - RJ www.rio.rj.gov.br/smas
WlTHOUT CONSCIENCE - R0BERT HARE'S WEB SlTE DEVOTED TO THE
STUDY OF PSYCHOPATHY www.hare.org
WORLD HEALTH ORGANIZATION www.who.int
YOUTUBE - VDEOS POSTADOS PELA ESCRITORA GLORIA PEREZ www.youtube.com/user/gfperez

TELEFONES TEIS
ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA (21)2199-7500
CENTRO DE VALORIZAO DA VIDA (CVV)
- RIO DE JANEIRO: (21) 2233-9191
- CAMPINAS: (19) 3272-7777 -BRASLIA: (61) 3326-4111 -SALVADOR: (71) 3322-4111 -CURITIBA: (41)3342-4111
DELEGACIA DA MULHER
- RIO DE JANEIRO: (21) 3399-3690
- SO PAULO: (11) 3241-3328 -BRASLIA: (61)3242-4300
- SALVADOR: (71) 3116-7000
- CURITIBA: (41) 3223-5323
DISQUE DENNCIA
- RIO DE JANEIRO: (21) 2253-1177
- SO PAULO: 181
- BRASLIA: (61) 3323-8855
- SALVADOR: (71) 3235-0000 -TELEFONE NACIONAL: 100
SECRETARIAS DE ASSISTNCIA SOCIAL
- Rio DE JANEIRO: (21) 2293-0393
- SO PAULO: (11) 3291-9666


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Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva

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